4. CAPÍTULO 3 – O PACTO RIOBALDIANO
4.2. Terceira sequência: a indissociabilidade do bem e do mal
4.2.2. Riobaldo e Hermógenes – ponteando opostos
A aproximação entre Riobaldo e Hermógenes vai aumentando no contexto da batalha travada por Hermógenes contra os Zé Bebelos. A terceira sequência38 tem início em um cenário onde a noite se aproxima e Riobaldo, antes mesmo de esmiuçar os detalhes desta batalha, já descreve os sentimentos que o acometem nesta proximidade com Hermógenes. Riobaldo detalha os movimentos do chefe na observância de seus passos. Por isso, neste momento, o personagem Hermógenes é percebido em outro contexto, visto que a relação entre Riobaldo e ele vai se aprofundando cada vez mais. Isso descortina uma percepção mais aguçada em Riobaldo. Ele nota que Hermógenes estava sempre na sua proximidade, como se o vigiasse. Entre as divagações e questionamentos sobre aquela batalha, sobre os inimigos e sobre sua segurança, ele diz: “D´o Hermógenes ali junto estar, naquela hora, digo ao senhor, gostei. – ‘Riobaldo, Tatarana! É o é...’ – ele me governou, de repente” (ROSA, 2001, p. 226). Nota-se, assim, que o ódio de Riobaldo vai dando espaço para o surgimento de uma estima por Hermógenes, ou melhor, ele se sente “governado” por Hermógenes e aprecia sua presença. Logo em seguida, uma raiva o acomete e ele descreve o que, de fato, gostaria de gritar ao Hermógenes, comparando-o ao Cão, em referência ao diabo. Contudo,
38 O importante desdobramento desta terceira sequência é assim descrito por Rosenfield: “A sequência abre-se, de fato, com o relato de uma escaramuça contra o bando de Zé Bebelo na qual Riobaldo toma parte como ajudante de Hermógenes. Na rememoração, este episódio revela-se uma estranha e contraditória atração exercida pelo repugnante chefe. Se a consciência e a vontade de Riobaldo a rejeitam reiteradamente, o episódio está, no entanto permeado por uma trama de metáforas próprias da sedução consumada” (ROSENFIELD, 1993, p. 212- 213).
paradoxalmente, a frase que segue a este desabafo para consigo mesmo é o do reconhecimento de Hermógenes como alguém igual a ele: “Homem sozinho, com sua carabina em mãos, o Hermógenes era um como eu, igual, igual, até pior atirava” (ROSA, 2001, p. 227). Este reconhecimento já havia dado seus sinais na segunda sequência, mas, agora, vai ganhando solidez. Tal identificação resulta no que Rosenfield assim descreve: “Riobaldo se vive como se fosse o próprio Hermógenes, os dois seres e corpos, que estavam separados e opostos, encontram-se e identificam-se na batalha” (ROSENFIELD, 2008, p. 63).
Nota-se, assim, que os sentimentos e as impressões de Riobaldo mostram ora uma aceitação e reconhecimento, ora uma rejeição diante de Hermógenes. Acompanhando a batalha, nos é descrito um cenário de muitos tiros e morte. Neste contexto de tensão e perigo, Hermógenes revela um cuidado e uma proteção para com Riobaldo, orientando-o a economizar na munição. Trata-se de uma atitude de prudência, pois acarretaria a proteção do atirador e, consequentemente, a sua também. A trama desta batalha permanece neste constante vai e vem de sentimentos: ora de aceitação, ora de rejeição. Tanto é que, em seguida, Riobaldo questiona o sentido do combate e a possibilidade de o chefe mandar os combatentes avançar desvairadamente. Tais conjecturas deixam Riobaldo revoltado, mas ele continua se reconhecendo no chefe: “E o Hermógenes estava deitado ali, em mim encostado – era feito fosse eu mesmo” (ROSA, 2001, p. 230). Hermógenes novamente assume o papel de “protetor”, dando orientações a Riobaldo, prevenindo-o da má hora do combate. Fato este que leva ao reconhecimento de que Hermógenes era a possibilidade de sua salvação naquela batalha. Conforme Araujo:
Assim, Riobaldo enfrenta uma situação complexa em que se vê forçado a considerar diversas variáveis, tons sutis de sentido, levado por sentimentos contraditórios: sente repulsa pelo ser do Hermógenes e, ao mesmo tempo, sente prazer em ser valorizado por ele; reconhece o mal na voz do Hermógenes e, ao mesmo tempo, sabe que aquela voz é necessária à sua segurança na guerra (ARAUJO, 1996, p. 194).
Em seguida o bando segue em retirada do confronto e Riobaldo pensa em Zé Bebelo, já que o prezava e não via muito sentido na batalha contra ele. Mas mesmo em meio a esta falta de sentido, Riobaldo permanece passivamente, realizando o despropósito de guerrear. Passividade esta que pode ter levado ao questionamento sobre sua condição de jagunço, ao indagar a um dos companheiros de batalha, Jõe Bexiguento: “A gente, nós, assim jagunços, se estava em permissão de fé para esperar de Deus perdão de proteção? Perguntei, quente. – ‘Uai?! Nós vive...’ – foi o respondido que ele me deu” (ROSA, 2001, p. 237). Contudo, tal resposta é rejeitada e questionada por Riobaldo em tom de discussão. Seus companheiros
censuram sua exaltação e tomado por um certo comedimento, é levado a uma reflexão que parece resultar desta experiência de proximidade com Hermógenes:
Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... Mas Jõe Bexiguento não se importava. Duro homem jagunço, como ele no cerne era, a ideia dele era curta, não variava. – ‘Nasci aqui. Meu pai me deu minha sina. Vivo, Jaguncêio...’ – ele falasse. Tudo poitava simples. Então – eu pensei – por que era que eu também não podia ser assim, como o Jõe? Porque, veja o senhor o que eu vi: para o Jõe Bexiguento, no sentir da natureza dele, não reinava mistura nenhuma neste mundo – as coisas eram bem divididas, separadas. – De Deus? Do Demo? – foi o respondido por ele – ‘Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta... Quem é que pode ir divulgar o corisco do raio do bôrro da chuva, no grosso das nuvens altas? (ROSA, 2001, p. 237).
Riobaldo, então, se redime da exaltação de sua fala, mas mantém viva a força do questionamento que o inquieta e, assim, segue alinhavando os opostos. Da sua invocação quanto aos pastos bem demarcados e de um desejo temporário de que a simplicidade de Jõe habitasse seu pensar39, predomina a conclusão a qual Riobaldo chega: “este mundo é muito misturado” (ROSA, 2001, p. 237). Desta forma, em meio à inconstância quanto ao sentimento de repulsa e o de identificação com Hermógenes, Riobaldo leva a crer que não se pode reduzi- lo ao reduto de maldade. Isso porque no chefe também se manifestavam traços de sua humanidade através da sua consideração e do cuidado para com ele. Ao mesmo tempo, nesta identificação Riobaldo reconhece uma força oculta e reprimida dentro de si. Neste sentido, infere-se que aceitar esta “mistura inextrincável” (tal como apontado Rosenfield) como aquilo que constitui o mundo e a própria existência humana, é também abrir mão do dualismo maniqueísta que acredita poder eliminar o mal. Este trecho da terceira sequência evidencia, então, que a existência humana até pode revelar o predomínio de uma força ou de outra, mas o homem é sempre aquele no qual, inevitavelmente, estas forças se manifestam de maneira indissociável.
39 Para Utéza, era Jõe quem defendia a “impossibilidade de separar os dois componentes do Princípio Primordial”. Contudo, esclarece o autor, neste trecho Riobaldo revela-se “contrário a um dualismo falacioso, agarra-se à perspectiva unitária pouco antes ilustrada pelo lacônico nós vive, e explicitada de leve pela referência ao destino – meu pai me deu minha sina” (UTÉZA, 1994, p. 133). Desta forma, seria Jõe aquele que traz a dimensão da unidade, da mistura dos opostos para Riobaldo, ao contrário do que interpretamos aqui.