3. CAPÍTULO 2 – O MAL: A PERGUNTA PELA SUA ORIGEM E SEUS
3.3. Segunda sequência: a experiência da ambiguidade e da complementaridade dos opostos
3.3.1. Padrinho Selorico Mendes: ambiguidade e precariedade
De início é importante pontuar que a segunda sequência tem início com a rememoração de Riobaldo da morte de sua mãe Bigri, fato este que o leva a mudar-se para a fazenda São Gregório, estância de seu padrinho Selorico Mendes. Tal como a experiência de travessia do rio com o Menino, a morte de sua mãe provoca uma transformação em sua existência, como se pode ver nesta descrição: “De desde, até hoje em dia, a lembrança de minha mãe às vezes me exporta. Ela morreu, como a minha vida mudou para uma segunda parte. Amanheci mais. De herdado, fiquei com aquelas miserinhas – miséria quase inocente – que não podia fazer questão (...)” (ROSA, 2001, p. 127). A morte de sua mãe representa, assim, a morte de um estado da existência de Riobaldo, uma vez que isso implica, ao mesmo tempo, no desabrochar de seu ser. A respeito da apresentação inicial de Riobaldo acerca de sua história de vida, esclarece Rosenfield: “O narrador fornece assim pela primeira vez pontos de referência temporais e espaciais que permitem reconstruir a ordem dos eventos evocados na primeira parte” (ROSENFIELD, 2008, p. 47).30 Ou seja, diferentemente da primeira
sequência, as estórias contadas nesta segunda se desenrolam de maneira linear, situando personagens e fatos em sequência cronológica. Nesse momento, Riobaldo parece sentir a necessidade de reordenar sua história, lançando luz sobre o estado caótico no qual se encontravam, inicialmente, os seus sentimentos.
O padrinho Selorico Mendes, o personagem apresentado neste primeiro momento, assim é descrito por Riobaldo: “era rico e somítico” (ROSA, 2001, p. 127), grande proprietário de fazendas. E as primeiras palavras ditas a Riobaldo são:
‘- De não ter conhecido você, estes anos todos, purgo meus arrependimentos...’ – foi a sincera primeira palavra que ele me disse, me olhando antes. Levei dias pensando que ele não fosse de juízo regulado. Nunca falou em minha mãe. Nas coisas de negócio e uso, no lidante, também quase não falava. Mas gostava de
30 Além disso, Rosenfield destaca: “A segunda leitura percebe diferentemente os mesmos fatos já lidos, de forma que o leitor sente que sua percepção-compreensão é um processo em permanente evolução. Cada dado é suscetível de modificar-se a partir de novas relações com outros dados ou considerações” (ROSENFIELD, 2008, p. 47-48).
conversar, contava casos. Altas artes de jagunço – isso ele amava constante – histórias (ROSA, 2001, p. 127).
Deste trecho é importante notar também outra característica do seu padrinho: o gosto por contar histórias, pela prosa. Percebe-se ainda que a primeira aproximação do padrinho ocorre de maneira afável, muito embora no decorrer desta convivência não seja perceptível a presença de um afeto mais caloroso. Contudo, não se pode dizer que haja um sentimento de repulsa ou mesmo de rejeição entre ambos.
Tão logo chega à fazenda, o padrinho de Riobaldo o presenteia com um punhal, uma arma de fogo e uma granadeira, dando início à sua iniciação no manejo de armas. Além desta, acontece outra grande iniciação de Riobaldo através dos estudos realizados com Mestre Lucas no Curralinho. Do período na fazenda, Riobaldo destaca ainda a boa estadia que lá desfruta, pois não é obrigado a realizar trabalho forçado, é bem alimentado e bem cuidado. Quando finda seus estudos ele retorna para a fazenda de seu padrinho e um acontecimento o impressiona sobremaneira, pois se depara com vários homens armados chegando à fazenda de seu padrinho. Dentre eles um se destaca: “(...) o senhor sabe quem era esse? Joca Ramiro! Só de ouvir o nome, eu parei, na maior suspensão” (ROSA, 2001, p. 131). Riobaldo conta que após este acontecimento seu padrinho gaba-se, durante semanas, dos jagunços que hospeda em sua fazenda. Selorico Mendes dedica um bom tempo para falar da valentia, da coragem, da organização do grupo, para contar as estórias de luta ouvidas e sobre a fama do chefe Joca Ramiro. Toda esta prosápia desperta em Riobaldo um sentimento de repulsa pelo padrinho: “De ouvir meu padrinho contar aquilo, se comprazendo sem singeleza, começava a dar em mim um enjôo. (...) Meu padrinho era antipático. Ficava mais sendo. Eu achava. Num lugar parado, assim, na roça, carece de a gente de vez em quando ir alterando os assuntos” (ROSA, 2001, p. 137). Este sentimento de repulsa se intensifica ainda mais quando Riobaldo é levado a uma grande suspeita:
Mas, um dia (...) me disseram que não era à-toa que minhas feições copiavam retrato de Selorico Mendes. Que ele tinha sido meu pai! Afianço que, no escutar, em roda de mim o tonto houve – o mundo todo me desproduzia, numa grande desonra. Parece até que, de algum encoberto jeito, eu daquilo já sabia. (...) Ajuntei meus trens, minhas armas, selei um cavalo, fugi de lá. (...) Toquei direto para o Curralim (ROSA, 2001, p. 138-139).
Muito embora já houvesse a suspeita, nota-se que através da menção explícita de algumas pessoas Riobaldo é levado a se sentir desonrado.
Ocorre, assim, a primeira fuga de Riobaldo. Fuga esta empreendida por uma descoberta que revela algo de si mesmo e de seu padrinho. Importante destacar que esta
descoberta se dá pela revelação de sua paternidade, ou pela suspeita dela, pois até então desconhecida. Contudo, esta revelação não ocorre pela palavra do próprio pai, muito embora ele se revele um típico proseador. Ocorre que o palavrório de seu padrinho não tem a força da revelação, mas tão somente a da repetição vazia, envaidecida. É através da força da palavra e, ao mesmo tempo, da falta dela enquanto potencialidade reveladora, que Riobaldo leva a rejeitar seu padrinho: por um lado, a fala gabosa do padrinho lhe causa ojeriza, por outro, o fato de a revelação de sua paternidade desconhecida, ou mesmo a suspeita dela, não ocorrer pela figura do próprio pai. A palavra emerge, assim, enquanto desencadeadora da descoberta de outra faceta de seu padrinho, outrora oculta. Destaca-se, assim, a ambiguidade da própria palavra, pois ela pode tanto ser reveladora quanto pode ser artifício para obscurecer e ludibriar a verdade. Heidegger em sua reflexão sobre a poesia de Hölderlin descreve tanto a dimensão mais originária da linguagem, que é a poesia, como também a sua reverberação na trama das relações cotidianas, ou seja, a linguagem quando se dá enquanto falatório:
(...) a poesia é a estrutura fundamental do ser-aí histórico. A língua enquanto diálogo é o acontecimento fundamental do ser-aí histórico. A poesia enquanto diálogo originário é a origem da língua, com a qual, sendo o seu bem mais perigoso, o Homem se aventura em direcção ao ser como tal, aí resiste ou sucumbe e, na decadência do falatório, se envaidece e estiola (HEIDEGGER, 1979, p. 78).
Desta forma, da ambiguidade da palavra passa-se ao reconhecimento da ambiguidade da natureza humana. Isso porque a revelação da paternidade desconhecida de Riobaldo o leva ao confrontamento com um lado oculto e obscuro do seu ser. A sua reação diante desta descoberta é a fuga, uma vez que esta revelação (da face oculta de seu padrinho) é, concomitantemente, a de sua origem até então desconhecida.
A revelação da linhagem paterna de Riobaldo, antes mascarada por seu padrinho, traz à tona a característica ambígua deste último. Com isso, a experiência da ambiguidade se deixar ver tanto através da sua palavra quanto no confronto com a dimensão mascarada, oculta deste personagem. Isso porque, de início, Selorico Mendes se insere em um cenário marcado pelo cuidado dedicado a Riobaldo, provendo-o de habilidades importantes para sua vida de jagunço e de homem letrado. Ao mesmo tempo, o padrinho oculta a sua paternidade, desprovendo Riobaldo de uma “filiação legitimada” (ROSENFIELD, 2008, p. 48). Em consonância com isto, o sentimento de Riobaldo em relação ao padrinho também é ambíguo: ora prezando o cuidado que a ele dedica, ora repreendendo sua fala “gabosa”. Destituído de linhagem e filiação “ele foge do seu lar, desvendando nesta fuga a precariedade do seu lugar simbólico na sociedade” (ROSENFIELD, 2008, p. 48). Precariedade esta que não se dá
somente no plano simbólico, mas também no existencial. Isso porque até então o desconhecimento de sua paternidade não era motivo de questionamento. Contudo, tal revelação, por não se dar assumidamente, leva Riobaldo a fazer a experiência de uma falta de fundamento, ou ainda, da precariedade de todo e qualquer tentativa de fundamento. Confrontado com a contingência e a fragilidade do viver, o personagem se vê imediatamente impelido a fugir.