5. CAPÍTULO 4 – O BEM E O MAL NA ENCRUZILHADA DO SERTÃO
5.2. Sexta sequência: a chefia de Urutu Branco
5.2.3. Limite e medida – o encontro com seo Ornelas
O bando chega à fazenda Barbaranha na véspera da festa de São Pedro, e Riobaldo amarra o cabresto de seu cavalo no mastro que havia sido levantado no centro61 do pátio.
61 Muito embora Utéza não qualifique a atitude de Riobaldo como profana para com o espaço sagrado que encontra, importante valermo-nos da sua consideração acerca do aspecto sagrado do local: “(...) essa viagem pela
Mesmo com esta primeira aproximação profanando o local da festa, o chefe decide não causar grande desordem ou amedrontar. Os modos do dono da fazenda, seo Ornelas, lhe despertam estima: “Apreciei a soberania dele, os cabelos brancos, os modos calmos. Bom homem, abalável. Para ele, por nobreza, tirei meu chapéu e conversei com pausas” (ROSA, 2001, p. 468). Mas o chefe não hesita, logo de início, em falar das necessidades materiais que lhe seriam requeridas.
O tratamento dedicado ao bando é de boas regalias de comida. Riobaldo notou as mulheres da casa, mas com respeito e consideração. Na observância dos modos refinados de seo Ornelas, o chefe começa a transitar por sentimentos diferentes dos de antes:
De ser de linhagem de família, ele conseguia as ponderadas maneiras, cidadão, que se representava; que, isso, ainda que eu pelejasse constante, tarde seria para bem aprender. Na verdade, aquela hora, eu, pelo que disse, assumi incertezas. Espécie de medo? Como que o medo, então, era um sentido sorrateiro fino, que outros e outros caminhos logo tomava. Aos poucos, essas coisas tiravam minha vontade de comer farto (ROSA, 2001, p. 469).
Nota-se, assim que a incerteza, o medo e falta de apetite acometem o chefe. São os primeiros sinais de uma mudança que será desencadeada através do contato com o fazendeiro. Riobaldo apreciou a conversa de seo Ornelas, mas evitava demonstrar tamanho apreço, fingindo em alguns momentos uma desatenção. Continuava, contudo, observando os modos do fazendeiro: “Homem sistemático, sestronho62. O moderativo de ser, o apertado ensino em doutrinar os
cachorros, ele obra tudo por um estilo velhoso, de outras mais arredadas terras – sei se sei” (ROSA, 2001, p. 471).
Seo Ornelas mostrava-se seguro e destemido diante do bando, situação que causava um certo embaraço no chefe. Contudo, a aproximação de Riobaldo de uma das moças da casa provoca uma reação diferente no fazendeiro: “Mas, nos tons do velho Ornelas, eu tinha divulgado um extravago de susto, recuante, o leve medo de tremor. Isso foi o que me satisfez. Aquele homem, visconde e portoso em tudo, ah, pelo mulheriozinho de sua casa ele não encobria o comprado, eh, sua família dele” (ROSA, 2001, p. 472). Fato este que, por um momento, faz Riobaldo desejar ainda mais a moça e constatar que, caso a quisesse mesmo, teria a coragem para enfrentar o fazendeiro e até mesmo a Diadorim que se mostrava enciumado. Contudo, ele é tomado de uma bondade e prefere deixar valer este comedimento,
via do meio – entre duas chapadas – durou três dias e acabou, na véspera de São Pedro, num espaço cuja configuração não podia ser mais simbólica: o círculo – redondo –, signo da Unidade, recebe o cunho do sagrado por meio do adjetivo simples (...) Ainda mais, no centro deste círculo horizontal ergue-se um mastro vertical levando em sua ponta as cores de São Pedro” (1994, p. 144).
62 Importante observar o significado da palavra que qualifica o fazendeiro Ornelas. Sestro: força invencível a que se acostuma atribuir o curso dos acontecimentos; destino, sorte, fado, sina; que anuncia acontecimentos infaustos; agourento; sinistro. Dicionário eletrônico Houaiss.
oferecendo à moça proteção caso precisasse um dia. Para Rosenfield (2008) Riobaldo está começando a lançar mão do legado que seo Ornelas lhe empresta: o do significado da representação social em oposição aos costumes violentos dos jagunços. Para Utéza, o legado de seo Ornelas assim é compreendido:
Do ardor do instinto sexual – do 'Mal”, dirão alguns – o herói extraiu apaziguamento – o “Bem”. A metamorfose obtida assim constitui um perfeito exemplo da ciência hermética: em termos técnicos, o alquimista diria que o herói conseguiu “mudar de polaridade”. (...) sob a dupla influência benéfica de Diadorim e de Ornelas, o iniciante acaba de transpor uma primeira prova. Intuitivamente, ele reconheceu que a Via exclui a violência, e suscitou no seu foro íntimo as energias necessárias para transmutar a “tentação” negativa em interesse paterno positivo (UTÉZA, 1994. p. 149).
Para Rosenfield, esta mudança operada em Riobaldo através do encontro com o fazendeiro é desencadeada pelos traços de “civilidade” que Seo Ornelas emprega muito bem. Conforme veremos adiante, se concordamos, em partes, com Utéza sobre a mudança de polaridade, poderíamos dizer, nos termos da presente pesquisa, que Riobaldo está experimentando o trânsito entre as polaridades, como se estivesse descobrindo o manejo e a “regulagem” destas forças que habitam sua existência. É como se Riobaldo estivesse experimentando a “dosagem” que a força representada por seo Ornelas traz para esta dimensão da sua existência até então marcada por violência e maldade. Ou seja, o chefe começa a experimentar a medida que seo Ornelas trouxe para os excessos de sua dimensão maligna. Ele começa a discernir o uso desta força, provendo-se de condições para perceber onde deve empreendê-la com mais ou menos poder.
A partir deste momento, Riobaldo baixa a guarda e se abre para uma conversa desarmada com seo Ornelas, prezando por sua amizade. Dentre as estórias contadas pelo fazendeiro a mais apreciada por Riobaldo foi a do delegado dr. Hilário que diante de um homem que está à sua procura decide não se apresentar como tal e aponta um outro homem como sendo ele. O homem se aproxima do falso delegado e lhe dá algumas cacetadas, agredindo-o fortemente. Ele é imediatamente preso e o falso delegado socorrido. Estória esta que reflete a seguinte lição: “Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro,
nem convém...” (ROSA, 2001, p. 476). A lição desta estória do Dr. Hilário é assim
interpretada por Utéza:
O “mau” foi confundido com o “bom”, e o “bom” não recebeu o castigo destinado ao “mau” –cqd? Talvez ainda não. Pois, Jano acrescentaria, o “bom” não seria inteiramente “bom”, uma vez que alguém o procurava para vingar-se nele, nem o “mau”, inteiramente “mau”, pois a sociedade lhe tinha respeito... Então, tudo é e não é? E isto é mais convincente que as lições banais de catecismo sobre o “Bem” e o “Mal” (UTÉZA, 1994, p. 154).
Utéza entende, assim, que na estória do Dr. Hilário nenhum ser humano é inteiramente bom ou mau, pois guarda em si mesmo uma ambiguidade que relativiza a rigidez das fronteiras que separam o bem e o mal. A lição aprendida nesta estória contada por seo Ornelas encontrará reverberação no pensamento de Riobaldo, mais precisamente, no conflito que nasce da dúvida sobre o pacto.