A reflexão em torno da problemática do bem e do mal nos permitiu fazer um percurso bastante amplo que teve início com os pressupostos gerais da literatura de Rosa e do pensamento de Schelling. Em seguida, fizemos um percurso mais descritivo tentando mapear o tema pesquisado a partir das imagens criadas em Grande sertão: veredas e através do diálogo com os estudiosos da obra de Rosa. Finalizamos o trabalho com um percurso mais analítico da questão trazendo para o diálogo as considerações de Schelling. Vejamos, então, como os âmbitos aqui interseccionados entre literatura, filosofia e religião contribuíram para perceber diversas dimensões de sentidos abertas na reflexão da problemática desta pesquisa.
Através dos onze causos que abrem Grande sertão: veredas pudemos entrar em contato com diversas formas de manifestação do mal. Em uma espécie de brainstorm nos foi permitido ver expressões multifacetadas do mal. Mas ficou bastante evidente a existência de um mal destituído de finalidade, ou seja, um mal gratuito. Além disso, também foi possível notar que a tentativa de justificar o mal e compreender sua origem depara-se com uma série de limitações. Pois todas justificativas, sejam elas vindas do discurso filosófico ou do teológico, se apresentam sempre muito provisórias, haja vista que elas não conseguem se manter asseguradas diante da falta de fundamento da realidade. Ou seja, diante da vida que sempre escapa à possibilidade de um sentido último totalizante.
A diferença entre Deus e o diabo também é apresentada de maneira panorâmica ao início da obra. Mas novamente aqui já está problematizada a fragilidade dos discursos fundamentadores quando se trata de falar da relação do homem com Deus. Inicialmente a diferença entre Deus e o diabo foi estabelecida através das características que a tradição cristã tradicional atribui a cada um deles. Nesse sentido, a vida daquele ser humano que se mantém em uma relação com Deus deveria estar assegurada pela garantia de salvação e de possibilidade de dar sentido à sua vida. Mas o enredo vai mostrar esta impossibilidade de o ser humano se ver assegurado por estas garantias da religião institucionalizada. Quanto ao diabo, também foi possível ver, através dos inúmeros nomes que lhe são dados, sua expressão multifacetada. Além disso, ele se associa, neste momento, à uma dimensão obscura e represada da existência humana, pois relativa aos sentimentos humanos repudiados pela moralidade e pela religiosidade. Observa-se, assim, um cruzamento de questões de ordem teológica e filosófica. A distinção entre Deus e o diabo está, assim, fortemente marcada por uma dualidade que também está expressa nos caracteres associados ao bem e ao mal. Nesse
sentido, a diferença entre o céu e o inferno também estão perpassadas por esta perspectiva dualista, já que o Céu representa a garantia de um sentido último para a existência e o inferno a completa falta de finalidade e de sentido.
Em um outro momento, contudo, esta dualidade vai perdendo os contornos distintos e vai se mostrando cada vez mais próxima de uma ambiguidade, ou seja, sem contornos tão enrijecidos. Em primeiro lugar, isso se deixou ver na afirmação de que a proximidade de Deus pode ser sentida através do Outro. Depois, nos é desvelado que a existência de Deus não é garantia para que Ele se mostre atuante no curso dos acontecimentos da vida. Por outro lado, o diabo em sua inexistência parece encontrar sua força de manifestação na vida. O próprio paradoxo onde se diz que o diabo não precisa existir para haver também aponta para tal ambiguidade.
Através dos personagens, cenários e estórias pudemos ver diversas nuances da experiência da ambiguidade. Experiência esta perpassada por um conflito, ou seja, pela dinâmica do jogo que se dá entre os opostos. Algumas das vezes pudemos observar manifestações mais expressivas do mal. Mas marcado pela ambiguidade o seu oposto acaba estando sempre ali à espreita, pronto para mostrar a sua força sem que isso implique uma exclusão ou eliminação de uma das facetas. O que nos leva a pressupor a indissociabilidade entre os opostos. Compreende-se, desta forma, que os opostos estão, assim, passíveis de diferenciação, mas não de dissociação. A oposição não pode, então, ser entendida através de um jogo de opostos excludentes. Muito embora possamos observar que a tentativa humana é sempre a de tentar eliminar ou separar duas instâncias opostas, como por exemplo, a tentativa de se ver apartado do mal.
Quanto ao pacto com o diabo na encruzilhada, o interpretamos como sendo o momento no qual Riobaldo assume sua dimensão maligna, até então repudiada. Ou seja, no pacto ele quer assumir que sua existência não está isenta da ambiguidade que lança a todo e qualquer ser humano à possibilidade tanto do bem quanto do mal. Nesse sentido, podemos dizer que o pacto com o diabo é, na verdade, o desejo de assumir-se em sua inteireza, assumir isso que é a própria essência do ser humano. Mas quando ele chega ao pacto ele é lançado à uma dúvida dualista que se expressa na fórmula Deus ou o Demo. Logo em seguida, porém, ele já se vê tomado por uma postura distinta e afirma Deus e o Demo. A encruzilhada é, então, o lugar onde emerge tanto a cisão (ou) quanto a união (e). Esta cisão deve ser entendida, contudo, ao modo de uma diferenciação e não como oposição excludente, haja vista que a encruzilhada é também o lugar onde se sucumbe à unidade. O bem e o mal, por exemplo,
diferenciam-se para que sempre e a cada vez um possa dar vez ao outro, mas sempre resguardados pela unidade originária de sua proveniência.
O diabo enquanto entidade autônoma, por sua vez, não aparece, mas sabemos que Riobaldo sai do pacto insuflado da força maligna que ele invocara. Quando Riobaldo sai do pacto podemos observar uma série de transformações em sua existência após a força ali invocada. Transformações estas que se deixam ver nos excessos de superioridade, no abuso do poder e na invisibilização da figura do outro. Nota-se, assim, uma expressão desmedida da força invocada e atualizada no pacto. Contudo, logo em seguida Riobaldo vê todos estes excessos empurrados a ganhar limite e medida através da figura do fazendeiro Seo Ornelas. Medida e limite que fazem com que Riobaldo se ressinta de não mais estar insuflado por toda aquela força conquistada no pacto. Sendo assim, as transformações pelas quais Riobaldo passa após o pacto nos permitem compreender que o desejo que o moveu até o pacto não era só esse assumir-se como ser humano marcado pelo mal, ou seja, assumir a si mesmo em sua essência. Mas acima de tudo, o desejo de estar assegurado pela força invocada no pacto. Neste sentido, tanto o desejo de estar assegurado quanto as transformações que lhe acometem através do pacto nos permitem observar Riobaldo lançado à desmedida. A desmedida não é, contudo, assumir-se marcado pelo mal, mas querer estar assegurado por esta força. Ou seja, a desmedida é o desejo de que esta possibilidade atualizada no pacto permaneça assegurada em sua substancialidade. O que significaria, pois, o desejo de jamais sucumbir às penúrias de alguém destituído da força invocada no pacto.
A repercussão do encontro com Seo Ornelas, inclusive, permite a Riobaldo refletir sobre o significado do pacto. Em primeiro lugar, Riobaldo observa a desmedida na qual ele foi lançado quanto fez o pacto, pois ele mesmo diz que quis demais, “forcejou”, ou seja, forjou à força. E deste forjar à força ele foi levado a se deparar com a miséria em suas mãos. Riobaldo quis se manter assegurado pela força invocada no pacto, quis estar assegurado por uma vida substancializada pela força do mal. Mas o encontro com Seo Ornelas é justamente o movimento da vida lhe mostrando que esta mesma vida não pode nunca estar assegurada em nenhum fundamento e, por isso, é vida que se mostra sempre precária.
Outra importante reflexão emerge da insistente dúvida sobre a existência do diabo. Afinal, mesmo que o diabo não exista (já que ele não apareceu enquanto entidade) ele manifesta sua força. Entende-se, assim, que mesmo que o mal esteja relegado à condição de não-ser ele encontra possibilidade de se efetivar, de se atualizar, no ser. Por fim, Riobaldo faz uma importante indagação: mas todos não vendem a alma? Ou seja, ele suspeita de que nenhum ser humano está isento da possibilidade do mal.