5.1 Análise das respostas às perguntas do questionário
5.1.2 Análise das respostas à pergunta 2
Pergunta 2: O Quadro Referencial Normativo (QRN) contém um Modelo Genérico de contratação subdividido em passos seqüenciais. Esses passos correspondem a um processo de contratação real?
Considerando que 18% dos respondentes manifestaram percepções consideradas intermediárias entre “sim” e “não”, conforme detalhado no Quadro 11, e observando os textos originais das respostas (disponíveis no Apêndice D) e as freqüências associadas às idéias axiais, sugere-se que a construção da pergunta pecou pela falta de precisão semântica, pois, aparentemente, alguns respondentes interpretaram que se perguntava se o Modelo Genérico de contratação apresentado era o processo efetivamente empregado em suas organizações ou se ele é empregado usualmente na Administração. Porém, a intenção da pergunta foi verificar se o modelo apresentado é correto, ou seja, se ele tem faltas ou excessos em relação às fases e etapas que o processo de contratação usualmente precisa cumprir.
Codificação Aberta Identif. respondente(s)
1a. Sim, embora o QRN traga passos adicionais que nem sempre são factíveis. 218
1b. Sim, é o processo desejável, mas não é praticado integralmente. 85
1c. Sim, em linhas gerais, mas nos detalhes não. 172
1d. Sim, mas, na prática, não se cumprem todas as etapas. 20, 130, 285 e 305
1e. Corresponde parcialmente a um processo real. 51, 203 e 349
1f. Não, não corresponde a um processo real, mas a um modelo ideal. 38, 214, 394
1g. Não, não corresponde a um processo real, mas a um modelo referencial. 277
1h. Não, pois o QRN é muito mais abrangente do que se faz na prática. 68
1i. Não, pois, na realidade, muitas boas práticas não são utilizadas. 4, 59, 76, 82, 210 e 332
1j. Não, pois não se tem os recursos para implementá-lo. 135
Quadro 11. Percepções intermediárias nas respostas tipo “sim/não” à pergunta 2 Fonte: O Autor
No entanto, mesmo considerando a possibilidade de ambigüidade da questão proposta, o percentual de respondentes que percebeu a aderência do modelo proposto à realidade do processo de contratação foi elevado (69,7%).
Entre as 6 pessoas que responderam negativamente à questão (4,9%), somente uma manifestou justificativa, por meio da qual se depreende que a maioria das contratações (menos complexas) dispensaria certas etapas previstas no QRN, mas não permite inferir que o
QRN contenha um modelo equivocado de processo de contratação:
Não. Depende da complexidade do processo. A maioria dos processos de contratação real tende a queimar etapas ou não precisa de todos os controles. (Respondente n° 11)
15,6% dos respondentes comentaram que o processo real em suas organizações difere daquele preconizado pelo QRN, por razões diversas, mas não pela incompatibilidade do modelo de processo proposto no QRN.
7,4% dos respondentes manifestaram o reconhecimento do QRN, seja como modelo ideal ou referencial para o processo de contratação (3,3%), seja no sentido de que o QRN adere à realidade e não merece reparos (4,1%).
Entre os que citaram necessidades de ajustes no QRN (9,8%), alguns sugerem que o modelo de processo deve ser ajustado conforme o tamanho e a complexidade da contratação (4,1%); outros sugerem que há variações no processo conforme a organização (3,3%) e há 3 opiniões (2,5%) de que o QRN deva ser acompanhado de modelos-padrão, procedimentos detalhados ou ferramentas para auxiliar na sua implantação.
De fato, podem-se identificar as seguintes lacunas quanto ao Modelo Genérico de processo proposto:
• Embora o modelo de processo tenha sido desenvolvido com base em modelos de referência e na legislação e jurisprudência, a seqüência de etapas pode variar e há aspectos que não são exigidos na legislação (p.ex. indicação formal da equipe responsável pelo planejamento da contratação). Portanto, seria conveniente acrescentar ao QRN a indicação de quais fases ou etapas são exigidas legalmente, quais são altamente recomendáveis e quais são opcionais;
• O QRN foi concebido para auxiliar no entendimento dos requisitos legais para o processo de contratação de serviços, conforme recomendado no objetivo de controle ME3.1 do modelo COBIT (ITGI, 2007, p. 162). Porém, sua utilidade pode ser
melhorada pela adição de artefatos mais detalhados (p.ex. documentos-padrão de entrada e de saída, definição de papéis e responsabilidades) que facilitem a sua aplicação prática mesmo por profissionais com menor conhecimento da legislação. Embora seis pessoas tenham discordado da correspondência entre o QRN e o processo de contratação real, e outras 22 pessoas tenham ficado em dúvida, não foram encontradas evidências nas respostas oferecidas de que o Modelo Genérico proposto esteja equivocado em alguma de suas fases ou etapas. Considerando que 69,7% dos respondentes manifestaram concordância peremptória com processo proposto, é razoável admitir que, para os respondentes participantes da amostra, o Modelo Genérico de processo contido no QRN pode ser usado como referência para o estudo das contratações públicas de serviços de TI.
Também é relevante observar que o grupo de pessoas da área de licitações e o grupo de pessoas da área de controle interno foram os grupos que demonstraram maior percepção da correspondência do QRN com o processo real (respectivamente, 91,7% e 84,6%, não havendo nesses dois grupos qualquer discordância ou ausência de opinião). A opinião desses dois grupos deve ser destacada porque ambos têm grande conhecimento sobre as licitações públicas em geral.
Já o grupo de pessoas da área de TI teve percepção bem mais dispersa (64,5% concordaram; 17,1% concordaram parcialmente; 7,9% discordaram; 5,3% não souberam responder e 5,3% não responderam).
Duas hipóteses são levantadas para explicar a diferença de percepção entre o grupo das áreas de licitações e de controle interno e o grupo da área de TI:
• A maior parte do QRN abrange etapas que ocorrem sob a responsabilidade direta da área de TI e não de outras áreas. Assim, as pessoas das áreas de licitações e de
controle interno teriam maior dificuldade em saber se as etapas previstas no QRN são de fato viáveis no dia-a-dia da área de TI;
• A percepção das pessoas nas áreas de licitações e de controle interno seria de que o processo de gestão de contratações executado pela área de TI deveria ser melhorado, enquanto a própria área de TI teria maiores dúvidas sobre a viabilidade de executar internamente tal processo com o rigor previsto no QRN.
Cardoso (2006, p. 116) relatou ter identificado formalização adequada do processo de aquisição de software e serviços correlatos em apenas 17,65% das organizações públicas examinadas em sua amostragem. Barbosa et al. (2006, p. 11) relataram que 82% dos gestores entrevistados em sua amostragem demonstraram não conhecer as etapas críticas do processo de contratação, e que 79% desconheciam os fatores críticos da execução dos contratos nas dimensões de qualidade dos serviços e de gestão dos níveis de serviços recebidos.
Portanto, os resultados da análise da pergunta 2 parecem compatíveis com os achados dos autores citados, pois a maior dispersão de opiniões sobre a correspondência do Modelo Genérico de processo de contratação poderia ser causada pela ausência de formalização do processo nos órgãos de origem dos respondentes.