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4.4. Subtema 3: O gênero Curriculum Vitae e sua função social

4.4.1. Análise e discussão dos dados do Subtema 3

O grupo utilizou duas aulas de 50 minutos cada para compartilhar as informações obtidas acerca da abordagem sobre o gênero textual Curriculum Vitae, o nosso objetivo era que eles analisassem as características

composicionais do gênero, bem como qual é sua função social.

O grupo iniciou a apresentação perguntando aos colegas se eles sabiam o que era um Curriculum Vitae. Alguns se arriscaram a responder, uma vez que

não se tratava de um gênero desconhecido, pois havia familiares que trabalhavam em Departamento de Recursos Humanos, eram empresários e outros.

O grupo esclareceu que a pessoa que deseja conquistar uma vaga em uma determinada profissão precisa elaborar um Curriculum Vitae, trata-se de um documento em que são enumerados todos os fatos relevantes e realizações profissionais da vida de alguém, além de ressaltar suas qualidades mais desejáveis para o empregador em potencial.

Após uma pesquisa exaustiva do grupo acerca da função social do

Curriculum Vitae em várias fontes de informação da internet, bem como em casa

com conhecedores desse gênero, o grupo mostrou que há algumas respostas que precisam ser apresentadas no Curriculum Vitae, tendo em vista os aspectos informacionais que os selecionadores consideram importante constar desse gênero textual. Segundo o grupo, os selecionadores procuram as seguintes perguntas: o que o candidato quer? Por que o candidato quer? Em que o candidato contribuirá com seu conhecimento e sua experiência adquirida em outras empresas? Em seguida, o grupo mencionou que como resposta à primeira questão, o candidato deve esclarecer em seu Curriculum Vitae quais são as expectativas do candidato em relação ao cargo pretendido. Sobre a segunda questão, o candidato deve mencionar por que se considera apto ao cargo pretendido, e a última deve destacar as atividades desempenhadas pelo candidato em empregos anteriores, bem como o resultado de suas ações nessas empresas.

Em relação à estrutura desse gênero, o grupo, por meio do datashow mostrou aos colegas da classe que alguns blogs, homepages e outros gêneros da web fornecem modelos de Curriculum Vitae, desde os mais simples aos mais elaborados. Para tornar a atividade mais real, os aprendentes acessaram a

homepage de uma agência de emprego e criou um personagem para concorrer à

vaga, inventando seus dados pessoais, formação acadêmica, experiência profissional, enfim um currículo fictício. Vale ressaltar que houve muita interação entre o grupo e os colegas de sala.

O grupo também optou por explicar que também existe o Currículo Lattes. Para isso, acessaram durante a apresentação a Plataforma do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e mostraram o Currículo

Lattes de um ensinante do colégio. Nesse momento foi necessária nossa

intervenção para explicar que esse tipo de currículo tem outra função social, bem como outra estrutura, cujo objetivo é divulgar informações do âmbito acadêmico. Como os aprendentes se interessaram por conhecer mais sobre essa modalidade de currículo, então nos comprometemos a trabalhar, de modo mais aprofundado, em um momento posterior, pois não queríamos prejudicar a apresentação do

grupo, pois demandaria um trabalho de transposição didática, além de tempo de preparação para uma aula expositiva sobre esse gênero. Ao final da apresentação, o grupo entregou um folder contendo informações sobre o assunto.

Ao propor o subtema o gênero Curriculum Vitae e sua função social, a nossa intenção era a de que os aprendentes tivessem contato com esse gênero textual a partir da perspectiva de linguagem como prática social. Bazerman (2011, p. 29), ao analisar documentos pertencentes a contextos profissionais, afirma que, assim como outros gêneros, o Curriculum Vitae é uma forma tipificada e, da mesma maneira que as pessoas tipificam formas, elas também são levadas a tipificar situações. Vale esclarecer que o autor entende tipificação como “o processo de mover-se em direção a formas de enunciados padronizados, que reconhecidamente realizam certas ações em determinadas circunstâncias, e de uma compreensão padronizada de determinadas situações”.

Entretanto entendemos que elaborar um Curriculum Vitae demanda cuidado, pois é um gênero textual complexo, embora pareça fácil. Tendo em vista que consideramos que ainda era necessário “aparar algumas arestas” acerca da abordagem desse subtema, optamos por elaborar uma aula expositiva, com algumas informações que considerávamos necessárias para o aprendizado desse gênero.

Sendo assim, preparamos uma aula expositiva baseada no entendimento de Cowan (1983) o qual entende que há três tipos de pessoas que encontram grande dificuldade na elaboração de um Curriculum Vitae: a) as pessoas que estão à procura do primeiro emprego, que nunca exerceram uma atividade profissional, ou que nunca tiveram um emprego formal; b) as pessoas que estão pela primeira vez fazendo a troca de emprego, que conhecem apenas a realidade do emprego atual, tendo uma vida profissional bastante restrita à realidade do lugar onde trabalha; c) as pessoas que possuem uma vasta experiência profissional em determinada área de atuação e que num determinado momento sentem a necessidade de mudar, sendo essa mudança profissional para uma área de atuação bem diferente daquela em que estava atuando e em cuja área não tem nenhuma experiência.

Nossa intenção, com isso, foi acrescentar mais informações sobre a função social desse gênero aos aprendentes. Esclarecemos também que há três tipos de Curriculum Vitae, um deles tem o objetivo de destacar as habilidades do candidato em vez de sua experiência profissional, o outro prefere dar relevo à sua posição profissional, bem como há outro que destaca a experiência profissional. Não é possível afirmar qual é o melhor, apenas que essas informações podem ser organizadas de acordo com o contexto em que esse gênero estará inserido. Para esse esclarecimento, optamos por utilizar uma aula expositiva, com discussão posterior.

Isso não significa que o grupo não realizou uma boa apresentação, essa opção por nos aprofundar nesse gênero ocorreu porque estamos corroborando com Marcuschi (2007) quando mencionou que gêneros textuais são fenômenos históricos, vinculados à vida cultural e social, que contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do dia a dia, no qual os gêneros funcionam muito mais pelas suas funções comunicativas e sociais do que pelas peculiaridades linguísticas e estruturais. Por meio do reconhecimento da função social dos Curriculum Vitae, os aprendentes puderam transportar o conhecimento adquirido para a realidade de suas vidas e passaram a entender para que os gêneros em estudo eram utilizados, qual a sua finalidade e como esse conhecimento adquirido podia ser aproveitado na sua realidade social e no seu dia a dia.

Nesse sentido, Ramos (2004) defende que um dos objetivos da proposta da leitura e produção de gêneros textuais é proporcionar meios que auxiliem na criação de condições para que o aprendente entenda o texto além da construção linguística, social e significativa, mas desenvolva as habilidades de compreensão crítica do uso dos gêneros no mundo em que vive, é possível observar que os aprendentes tornaram-se pessoas conscientes da necessidade de estarem preparados para assumir o mercado de trabalho.

Quando mencionamos que os aprendentes também foram buscar informações sobre o Curriculum Vitae com familiares ou amigos, Hernández (1998) fala em construir uma nova relação educativa baseada na colaboração em sala de aula e em ambientes para além da escola. Nesse sentido, o projeto é

apontado como estratégia adequada e, nesse contexto, o ensinante pode ser um agente de mudança na medida em que prevê participação ativa e compartilhada, por exemplo, com a família ou outras agências de letramento.

Em relação à utilização de artefatos tecnológicos, gostaríamos de ressaltar que o grupo optou por utilizar o celular na sala de aula para a realização da pesquisa, é importante esclarecer que foi com nossa autorização, uma vez que isso não é permitido no colégio. Sabemos que as tecnologias, por si só, não garantem a educação democrática, mas estar conectado, saber ler, participar do mundo digital e da rede de comunicação, são condições prévias e proporcionadoras de liberdade. Nessa direção, Coscareli (1999) afirma que não basta usar a tecnologia de qualquer modo ou informatizar o ensino tradicional, é preciso mudar a concepção de ensino-aprendizagem e usar os recursos tecnológicos tornando possível fazer da sala de aula um lugar onde se aprende a aprender, com prazer.

Tendo em vista que não foi possível o aprofundamento do grupo em relação ao gênero Currículo Lattes, disponibilizamos um momento posterior para discutirmos sobre a função social desse gênero, bem como conhecermos sua estrutura. Para a realização dessa atividade, levamos os aprendentes ao laboratório de informática e pedimos que eles acessassem o site http://lattes.cnpq.br (acesso em 08/04/2014).

Pedimos aos aprendentes que clicassem em “buscar currículos”. Nessa seção, procurar o currículo de algum ensinante do colégio. Neste caso, eu já havia realizado uma pesquisa na sala dos ensinantes para descobrir quais ensinantes já tinha seu currículo cadastrado na Plataforma Lattes para facilitar o trabalho dos aprendentes.

Ao localizar o currículo de um determinado ensinante, questionamos: o que encontramos? Que informações estão contidas no Currículo

Lattes? Com que finalidade as pessoas elaboram um currículo Lattes?

A que público ou área se destina os cadastros na Plataforma Lattes? O que há de diferente entre o currículo Lattes e o Currículo Vitae? No que

diz respeito aos objetivos, em que aspectos se diferenciam o site http://lattes.cnpq.br/ e o site http://www.catho.com.br/ ?

Por meio dessa prática de letramento, eles também tiveram a oportunidade de conhecer o Currículo Lattes, elaborado nos padrões da Plataforma Lattes, gerida pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Esse curriculum se tornou um padrão nacional no registro do percurso acadêmico de estudantes e pesquisadores do Brasil, além de os aprendentes aprenderam que todos os dados da Plataforma Lattes estão disponíveis ao público para consulta na Internet, diferentemente do

Curriculum Vitae.

Mais uma vez isso foi possível em razão de nossa atuação como acadêmica e pesquisadora. Foi uma oportunidade de levar esse gênero ao conhecimento dos aprendentes, por meio dessa vivência, os aprendentes puderam perceber a importância da formação acadêmica em nossa sociedade. O papel do ensinante, nessa como em outras etapas, foi de grande importância, pois, além de ele ser um especialista no assunto, ele foi um pesquisador e um estudioso do processo de aprendizagem.

Tendo em vista que os princípios do projeto pedagógico do colégio, em que a experiência vivenciada é a condição imprescindível de todo o conhecimento, consideramos que com o desenvolvimento desse subtema os aprendentes puderam vivenciar na prática e descobrir a função social do gênero textual Curriculum Vitae e Currículo Lattes, tão utilizado no mercado de trabalho. A nosso ver, trabalhar o currículo como objeto de ensino no contexto mencionado anteriormente é uma maneira de instrumentalizar os aprendentes para suas vidas acadêmica e profissional.

Retomando nossa sondagem inicial a respeito do conhecimento dos aprendentes acerca do gênero Curriculum Vitae, verificamos que 79% dos aprendentes não o conheciam. Esse subtema possibilitou que os aprendentes passassem a conhecer esse gênero, assim como ampliasse seus conhecimentos sobre outra modalidade de currículo. Diante disso, em que medida a utilização

dos gêneros propiciou que os aprendentes se tornassem letrados com esse projeto de letramento?

Considerando que um dos objetivos da disciplina de leitura e letramento é formar competentes leitores de textos orais e escritos, para a exploração da compreensão oral, sugerimos que os aprendentes, em duplas, se entrevistassem e depois elaborassem o Curriculum Vitae, não se esquecendo de destacar informações importantes em sua composição, tais como: atividades profissionais e escolares anteriores e elaborassem um Curriculum Vitae utilizando-se as marcas linguísticas de registro do gênero em questão.

Com o trabalho realizado sobre o Curriculum Vittae, verificamos que os aprendentes também tiveram a oportunidade de conhecer os gêneros

homepages, seminário e folder, tal como os aprendentes do subtema 1 e 2. Além

disso, eles tiveram a oportunidade de ter contato e conhecer a estrutura e a função social do gênero Curriculum Vitae, quando assistiram à apresentação do grupo responsável por esse subtema, por meio de nossa aula expositiva como complementação do tema, bem como vivenciaram o preenchimento de um currículo via internet.

Por fim, sabemos que não existem fórmulas mágicas para se tornar um leitor crítico, mas há estratégias como projetos de letramento capazes de apontar caminhos que possam estimular o aprendente a ler. Só se aprende a ler, lendo, por isso, o ensinante é o principal mediador da leitura. Para que o aprendente atinja o grau de letramento crítico e domine a variedade padrão, tanto oral quanto escrita, é preciso que a escola proporcione um novo paradigma de ensino com atividades que explorem a oralidade, a escrita e a leitura como práticas efetivas por meio de gêneros textuais. Passemos, a seguir, à análise e discussão dos dados do próximo subtema.

4.5. Subtema 4: O gênero entrevista de emprego e sua função social