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Aprendendo e ensinando

No documento Feminismos e democracia (páginas 102-108)

Ao adotar a autonomia e a horizontalidade como pilares de sua ação transformadora, as estudantes secundaristas buscaram colocar em prática uma escola que aprenderam a transformar. A despeito de todas as críticas a uma escola hierarquizada, desinteressante, superlotada, com infraestrutura precária e assemelhada a uma prisão, impressiona ao longo de todo o documentário a reivindicação radical e aguerrida da escola, materializada em faixas e cartazes nos quais se lê: “A escola é nossa”. Para Januário et alli,

Grande parte da recusa dos alunos em aceitar a “reorganização” foi seu apego pela escola, pelo que ela significa enquanto parte de sua história e memória, e enquanto parte da comunidade e lugar da construção de laços sociais. Esse apego se mostrou presente tanto nas escolas com

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melhores condições quanto nas escolas mais precarizadas. Independente de qualquer insatisfação, os estudantes mostraram que tinham a escola como um lugar social central em suas vidas. (JANUÁRIO; CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016:7)

A ocupação representou uma redescoberta e, ao mesmo tempo, uma reinvenção: a escola deixou de ser mero objeto de políticas públicas de precarização do ensino, para tornar-se um espaço transformado de convivência. As cenas de Lute como uma menina mostram de maneira muito vívida o sentimento de pertencimento e de apropriação do espaço, o aprofundamento das relações afetivas, o tempo para o lazer, o afeto e a arte que passa a circular na escola organizada pelas estudantes, o tempo do trabalho coletivo, partilhado de forma horizontal entre meninos e meninas. A escola desejada torna-se livre, democrática, plural, aberta à comunidade e interligada aos outros estabelecimentos de ensino.

O potencial transformador do movimento foi considerável. Nesse sentido, o caráter pedagógico já mencionado na relação das meninas e dos meninos pode ser também identificado no processo de conscientização de mães e pais, que no início quiseram impedir a participação das filhas e filhos, temerosos por sua segurança (ALONSO; COLOMBINI, 2016:28’04). Particularmente significativo, foi o relato de Taynah Hentringer, estudante da Escola Estadual Maria Petrolina. Ela conta que seu pai, sindicalista e professor, proibiu que ela e seu irmão tomassem parte das ocupações. Chocado em um primeiro momento, ao ser informado que a filha já estava na escola e se recusava a voltar para a casa, depois ficou extremamente orgulhoso, “espalhando a notícia” para todos os amigos (ALONSO; COLOMBINI, 2016:28’36). Postos diante de um fato consumado, já que a participação das estudantes não era ponto a ser debatido, mães e pais, em muitos casos, acabaram acompanhando e apoiando o movimento. Ao longo do documentário pode-se observar, ainda, uma disposição notável ao diálogo, expressa nos esforços frequentes das estudantes em explicar as razões de sua mobilização à população, à imprensa, às funcionárias das escolas, a mães e pais e mesmo aos policiais.

No que concerne à vivência, o aprendizado teve várias dimensões. Em primeiro lugar, a experiência da democracia direta, ou seja, a tomada de

decisões em assembleias nas quais todas tinham o mesmo direito de voz, algo muito inovador em uma democracia restritiva como a brasileira. A rotatividade na participação das diversas comissões também parece ter tido um papel fundamental no conhecimento das diversas tarefas necessárias à manutenção do movimento. Ocupar a escola, limpá-la, protegê-la, torná-la um ambiente agradável para o convívio, exige esforço e dedicação que se convertem em uma apropriação concreta do espaço físico. A convivência, as relações afetivas, as novas atividades e situações de sociabilidade permitiram a construção de novos laços afetivos com o espaço que as estudantes fizeram seu, com ressignificação das regras, uma vez que estabelecidas horizontalmente e em resposta a necessidades concretas. Elemento central nessa apropriação foi a possibilidade de vivenciar, no espaço escolar, uma prática incomum no quotidiano das estudantes:

A questão da liberdade para se expressar e poder interferir nos rumos do movimento nas decisões coletivas tomadas em assembleias, permitiu que os estudantes vivenciassem, em certo sentido, uma experiência de autogestão, contrária ao modelo burocrático heterogerido e disciplinar das escolas, ou do modelo gerencial da SEE. Os estudantes puderam vivenciar nas ocupações uma experiência como sujeitos autônomos dentro da escola, participando das tarefas, organizando e propondo atividades. Foram sujeitos ativos na organização do tempo, do espaço, do currículo e da gestão da escola. (PIOLLI; PEREIRA; MESKO, 2016:29) Para as estudantes, o saldo foi a consciência de seu potencial de transformação, da possibilidade e importância de se fazer ouvir e de uma nova compreensão do verdadeiro significado da política, muito além das instâncias burocráticas e de representação restrita que nossa democracia oferece. A oportunidade de refletir conjuntamente sobre como querem que seja a escola, debater, tomar decisões legítimas, porque deliberadas de modo aberto, em votação direta e colocar em prática o que foi acordado. Como afirmam Corti et alli, “As ações desencadeadas por esses jovens no espaço da escola podem ser concebidas como atos políticos no sentido mais amplo do termo, pois recolocam a dimensão da cidadania no espaço escolar.” (CORTI; CORROCHANO; SILVA, 2016:1170)

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Lute como uma menina articula, enfim, as diversas falas em uma ampla

narrativa que compõe algo maior do que a soma das partes. Esse procedimento confere ao movimento um caráter provavelmente menos fragmentário e variado do que realmente teve, de certo modo contrariando as próprias falas, que expressam as incertezas, dificuldades concretas e precariedades da ocupação das escolas8. As cenas de manifestações de rua e do cotidiano dentro

das escolas, somadas ao uso de músicas do movimento como pano de fundo, constroem uma visão que, se por um lado ressalta a beleza da mobilização, por outro se mostra romantizada, imprimindo-lhe uma coerência construída pela própria narrativa documental. O resultado é potente no sentido de mostrar o protagonismo e a capacidade política e organizativa dos jovens estudantes em geral e das meninas em particular e muito sensível às formas de expressão juvenis, presentes nas músicas, nos cartazes, nos gestos e, evidentemente, nas falas.

O ineditismo de algumas das práticas organizacionais do movimento mostradas no documentário não impede a identificação de todo um acúmulo de lutas sociais do qual esse movimento é ao mesmo tempo produto e novo contribuinte, uma vez que a experiência foi replicada em outros estados e marcou uma geração de secundaristas. O saldo mais significativo do movimento, muito bem delineado em Lute como uma menina, foi uma ampliação sem precedentes nos horizontes de expectativas das estudantes, que puderam exercer efetivamente novas formas de organização social e de sociabilidade, vivenciar uma experiência concreta da possibilidade de um novo mundo, que comporte formas mais inclusivas e abrangentes de democracia, no qual meninas e meninos estejam lado a lado e as decisões possam ser tomadas de forma coletiva, sem fechar as portas à pluralidade. Uma geração muito jovem que aprendeu que pode ter voz e está nos ensinando que lutar como uma menina é um sinônimo de força. Que essa centelha se acenda!

8. “É impossível dar conta de toda riqueza e complexidade vividas nas ocupações durante esse período. Se fosse possível colocar em palavras, cada ocupação representaria um microuniverso particular, com circunstâncias tão singulares que, num primeiro momento, seria possível dizer cada ocupação é completamente diferente da outra. E, no entanto, ocorreram várias experiências similares.” (JANUÁRIO; CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016:17, grifo das autoras).

Referências

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TEOLOGIA FEMINISTA DA LIBERTAÇÃO

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