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Minas de luta

No documento Feminismos e democracia (páginas 92-95)

Ao optarem por entrevistar exclusivamente estudantes meninas, Beatriz Alonso e Flávio Colombini valorizam evidentemente o olhar feminino sobre os eventos, criando condições para que se ressalte a perspectiva de gênero que pautou a luta das meninas, ao lado de outros temas. Em lugar de destaque, como o título e as falas que abrem o documentário indicam, em resposta à pergunta em off sobre o que significa “lutar como uma menina”, a noção de que lutar como uma menina é promover uma mudança social de grande porte. Em primeiro lugar, pelo empoderamento daquelas que, conforme uma das falas, estão se colocando “no lugar em elas que sempre tinham de ter estado” (ALONSO; COLOMBINI, 2016:10”). Em segundo, por uma redefinição do que é importante em um movimento social. Coragem, resistência, disposição para a luta, perseverança são atributos associados pelas entrevistadas a uma potência descoberta no âmbito da mobilização, que supera em muito a mera força física. Essa introdução termina com o pedido de uma das ativistas que parece traduzir o intuito do documentário: “Pô, mostra para elas que elas são muito mais do que esses caras acham que elas são.” (ALONSO; COLOMBINI, 2016:1’02)

A dimensão de gênero, mencionada marginalmente nos outros dois documentários, em Lute como uma menina adquire um lugar central na escolha de veicular apenas as vozes das estudantes. Essa estratégia é extremamente bem sucedida na medida em que mesmo quando o assunto orienta-se para a descrição das diversas etapas do movimento, nas quais a questão de gênero muitas vezes está ausente, o fato de apenas as meninas falarem, traz o foco de forma permanente à participação feminina. Do ponto de vista das relações de gênero, destaca-se uma passagem em que uma das ativistas descreve os conflitos dela com o namorado, decorrentes de sua participação no movimento. Ao ultimato que ele lhe fez, para que escolhesse entre a ocupação e o relacionamento, ela responde: “Eu escolhi a ocupação. Porque um homem que não apoia uma mulher de luta, não serve para namorar uma mulher de luta.” (ALONSO; COLOMBINI, 2016:29’30)

Outro ponto estrutural é o da divisão de tarefas: cozinha, limpeza, comunicação externa, segurança. (ALONSO; COLOMBINI, 2016:34’). A

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divisão das tarefas foi voluntária, rotativa e rapidamente decidiu-se por uma paridade de gênero em todas as comissões. O processo não se deu sem debate, mas seu teor conflitivo não parece ter sido elevado. Há aí um aspecto pedagógico, que encontraremos igualmente em outros temas dos quais trataremos adiante: as meninas recusaram-se a exercer apenas as funções supostamente “femininas” e explicaram aos meninos a importância de uma divisão equitativa. Joana Noffs, da Escola Estadual Alves Cruz, narra um episódio no qual os meninos, diante da entrada de um estranho na escola, que assediara algumas das estudantes, resolveram trancá-las em um quarto, alegando que era para sua proteção. Elas tiveram que explicar o absurdo da situação, que estavam lá para resistir e não para serem supostamente “protegidas”. (ALONSO; COLOMBINI, 2016:35’47) A ideia, explica outra ativista, não é punir os meninos por suas atitudes machistas, mas explicar a eles os motivos pelos quais não estavam corretas, como as meninas se sentiam diante dessas atitudes e como queriam ser tratadas (ALONSO; COLOMBINI, 2016:36’42).

Uma expressão que aparece com frequência, é “desconstruir”, o que demonstra inequivocamente que as discussões travadas pela pesquisa acadêmica chegam de alguma maneira às escolas. Percebe-se que o debate da equidade de gênero se faz já em um patamar mais sofisticado: o que está em disputa não é o direito delas de participarem do movimento. São questões mais sutis: a maneira de se dirigir às meninas, as expressões utilizadas, as interrupções nas assembleias, na disputa por voz. Trata-se de mostrar que alguns comportamentos aos quais os meninos estavam acostumados não deveriam ser tolerados e precisavam ser alterados.

Uma das formas de anunciar isso é demonstrado por meio do protagonismo feminino nas ocupações: “Por que expulsar os meninos da ocupação não é o que a gente quer, né? A gente quer ensinar os meninos a como tratar as meninas, entendeu? E é por isso que a gente deixa eles continuarem aqui. A gente precisa desconstruir, conversar com eles, explicar como funciona. Como uma mulher quer ser tratada, como ela deve ser tratada.” (ALONSO; COLOMBINI, 2016:36’42). O enunciado evidencia que, em primeiro lugar, as meninas estavam na liderança da mobilização e,

em segundo, a compreensão de que o movimento feminista se faz com os homens e não contra eles. Percebe-se um nítido salto de patamar da questão de gênero nessa formulação, porque pressupõe que os meninos não se dão conta de como algumas de suas ações são carregadas de machismo, muitas vezes involuntário, e que cabe às meninas, que sofrem na pele o preconceito de gênero, conscientizá-los a respeito do que é desejável ou não nas relações entre eles.

O feminismo é definido, pelas entrevistadas, em termos de liberdade e de igualdade radical. Há uma compreensão sofisticada de que a sociedade patriarcal também vitimiza os meninos, na medida em que pressupõe um único modelo de masculinidade e impõe uma sociedade opressiva: “Todo o mundo sofre com o machismo, todo o mundo sofre com o padrão estético, todo o mundo sofre com a repressão. Até quem reprime, sabe?” (ALONSO; COLOMBINI, 2016:38’37) O feminismo é associado a empoderamento, força, coragem e autoestima, além de um questionamento sobre os padrões estabelecidos, o que conduz a uma abertura à pluralidade – racial, sexual, de gênero, de aparência, de comportamento. Na defesa de um debate sobre gênero, na escola, nota-se outra intrusão da academia, mas não como algo vindo de fora e sim como um elemento constitutivo da concepção de mundo dessas meninas, indicando a profundidade da mudança social operada nas últimas décadas nas concepções da divisão dos papéis sociais entre mulheres e homens. Como observou Fernando Seffner no tocante às ocupações ocorridas no Rio Grande do Sul, ainda que as pautas de gênero e sexualidade estivessem ausentes dos grandes atos públicos dos estudantes,

[...] as questões de gênero e sexualidade estiveram fortemente presentes na organização do seu cotidiano de vida nas escolas ocupadas [...]. Gênero e sexualidade disseram mais respeito aos modos como alunos e alunas se produziram enquanto jovens vivendo nas escolas ocupadas, um traço importante das culturas juvenis que ali se expressaram, do que se colocaram como bandeiras de reivindicação. (SEFFNER, 2016:1) Embora a estratégia narrativa do documentário impeça que conheçamos a maneira pela qual os meninos lidaram com esse esforço de pedagogia feminista, as entrelinhas das falas das estudantes, bem como as imagens

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do cotidiano das ocupações, indicam um nível elevado de aceitação e incorporação dessa ética nas relações. As imagens selecionadas, da maioria das escolas e das manifestações de rua, conferem grande protagonismo às meninas, nas linhas de frente, ao gritar palavras de ordem e mesmo no enfrentamento direto com a tropa de choque. Mesmo assim, elas dividem a cena com outros meninos, às vezes, com alguma equivalência numérica. A seleção das entrevistadas dirige o olhar não apenas para o que se explicita na tela, mas também para o que ficou fora dela, de modo que o filme poderia ser visto como um balanço específico das jovens estudantes sobre a ocupação.

Na costura de temas, as diretoras parecem sugerir que as ocupações não apenas tiveram uma forte presença feminina nos papéis de liderança do movimento, como também foi intensamente marcado pela perspectiva das mulheres, cujo traço fundamental foi a compreensão de que estava em jogo uma nova sociabilidade, a ser construída contra todas as formas de opressão. Assim, se havia a luta contra a reorganização imposta pela Secretaria de Educação, havia também um fundo crítico contra a escola atual, burocrática e autoritária, havia a descoberta da autonomia em relação aos pais e mães, o confronto diante das autoridades masculinas e, por outro lado, o convite para que todas, meninos e meninas, estivessem juntas na escola ocupada e reinventada.

No documento Feminismos e democracia (páginas 92-95)