Na tela da televisão observo minha imagem, falo para uma platéia sobre algumas ela- borações que venho realizando nos últimos tempos. Assisto às imagens12, mas não me
reconheço nelas, tal como acontece em outros momentos ao ler um texto que escrevi ou quando falo em determinado contexto.
“É como se eu estivesse em um transe”. Não consigo reconhecer uma dimensão mais pró- xima ao tamanho do meu corpo no espaço: às vezes me sinto maior do que realmente sou e às vezes me sinto menor.
Percebo como é difícil habitar, fazer-se presente em um corpo, no aqui e agora.
Como não apequenar-se ao ser contido no enfrentamento de algumas situações da vida? Como potencializar o corpo em encontros que possibilitem maior apropriação de si, como alguém que vai em direção aos mundos para construí-los e desmanchá-los
11O conceito de aprendizagem experimental foi levantado pelo professor
Benedito Lacerda Orlandi em uma de suas aulas ministradas no Núcleo de Estudos da Subjetividade no Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP.
12Nesses seminários a leitura é articulada ao uso de recursos tecnológicos:
gravações simultâneas, projeção ampliada de desenhos extraídos de obras; eventualmente são mobilizados também vídeos com temáticas próximas ao material discutido – a vida e a criação do universo e do homem, diferentes momentos do bebê e suas relações com o mundo, por exemplo –, além da exibição de vídeos gravados em encontros anteriores. Os comentários acima citados referem-se a um momento em que apresento uma reflexão sobre como a obra me mobilizava, texto embrião do presente capítulo.
O corpo como pulso
permanentemente na busca de mais potência? Como desmanchar modos tão rigidamen- te estruturados, como aquele construído em determinado contexto: resposta a um pai que parecia sempre maior, fazendo-me sentir frequentemente menor, tamanhas eram as idealizações?
Como suportar e não paralisar os processos formativos e inerentes ao vivo, que permanentemente constroem e (re)constroem corpos ao longo da vida, no encontro com outros corpos?
Um sonho narrado por um participante do grupo pode exemplificar o que seria to- car e procurar desmanchar certos modos de funcionamento:
Trata-se de uma cena de infância, na qual Ivan aparece como uma criança muito peque- na; ele está em sua cama chorando e sentindo muito medo. Ivan conta que ao acordar sentiu- se muito inseguro e que pediu um afago, um carinho para a sua esposa de tantos anos. Uma cena extremamente delicada e tocante, vinda de um “homem feito” que ao se revelar pa- ra o grupo e para si como alguém sensível, amolece um corpo que se endurece para dar con- ta de ser “provedor”, macho, extremamente eficiente e, às vezes, dominador, como ele mesmo conta.
A análise de relatos como esse explicita a importante contribuição da perspecti- va kelemaniana para o acesso a formas solidamente construídas, na tentativa de minima- mente desmanchá-las e, a partir daí, criar corpos que possam sustentar as intensidades vividas, que permitam principalmente a aproximação com o outro.
Safra13também nos oferece um belo contorno do que ele denomina destino
humano e das questões que nos afetam e com as quais devemos lidar ao longo da
existência. Segundo o autor, o
ser humano é, continuamente, afetado pelos acontecimentos no mundo. As transforma- ções socioculturais e seus efeitos na estética, na ética, nas relações entre os homens acarretam novos modos de subjetivação e novas formas de sofrimento.14
Para Safra, compreender o homem como ser criativo é vê-lo não como fruto de de- terminações naturais ou sociais, mas como acontecimento, como aparição. Ou seja, pa- ra ele, a dimensão histórica é necessária para o acontecer humano, mas o autor acredita que, dentro dessa modalidade de temporalidade, todo o evento traz algo de inédito, co- locando o homem em um tempo simultaneamente conservador e revolucionário – no devir. Portanto, temos a capacidade de intervir voluntariamente sobre os processos, tal
13SAFRA, Gilberto, op. cit. Esta obra traz aspectos relacionados a questões da
existência, dos sofrimentos no contemporâneo, apresentando ainda modos de intervir em uma clínica na atualidade. Assim sendo, várias idéias do autor permearão esta tese.
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como acontece nos seminários e, principalmente, nas proposições que crio e elaboro em minha prática clínica.
Nesses espaços de trabalho e reflexão, de diferentes maneiras e intensidades, entramos em terrenos/camadas muito profundas do corpo/vida que sustentados pelo sujeito, pelo grupo e pelo trabalho que ali se constrói, podem produzir mudanças sig- nificativas nos modos de funcionamento.
Na abordagem de Winicott (1971), esse movimento corresponde à idéia de um vi- ver suficientemente criativo, no qual o sujeito “sente que a vida é digna de ser vivida” 15.
Essa atitude se contrapõe a uma relação de submissão à realidade, na qual nada pode ser alterado. Ao sujeito resta ajustar-se ou simplesmente adaptar-se.
É necessário dizer ainda que o trabalho grupal, tanto o aqui narrado quanto aque- le que realizo na clínica, representa caminhos efetivos de intervenção bastante potentes. Afinal, pequenas ações, gestos, aproximações, palavras e, principalmente, o comparti- lhar com um grupo podem reverberar, às vezes com grande intensidade, numa espécie de contágio, transformando todo o grupo em uma caixa de ressonância, conforme nos diz a terapeuta ocupacional Viviane Maximino16.
Assim, esses encontros podem funcionar como um dispositivo, tal como analisa Benevides17. Quando produzem um efeito de caráter ativo disparam algo em cada par-
ticipante, dão ensejo a produções individuais e coletivas de textos, questionamentos, imagens, sonhos, vontade de (re) experimentar os territórios corporais, engajar-se em al- gum projeto; provocam mudanças em relação à leitura das pessoas, do mundo e expe- rimentações sobre aos modos de relacionamento nas mais diferentes esferas da existência, entre outros.
Segundo Baremblitt18, o dispositivo é um artifício de inovações que gera aconteci-
mentos. Essa abordagem reafirma o caráter especialmente potente de algumas interven- ções grupais resistentes aos efeitos de certas imposições vividas no contemporâneo que anestesiam corpos, roubam a criatividade e, principalmente, nos distanciam uns dos outros, produzem solidão e diminuem a potência de presentificar-se no mundo.
Composições
Nas experimentações que venho realizando – em laboratórios, cursos e oficinas – não me satisfaz uma leitura dos acontecimentos que atravessam os corpos a partir de um para-
15 WINICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora, [1971],
1975. p. 95.
16MAXIMINO, Viviane Santalúcia. Grupos de atividade com pacientes psicóticos.
São José dos Campos: Editora da UNIVAP, 2001.
17BENEVIDES, Regina. Dispositivos em ação: o grupo. Cadernos de
Subjetividade, Núcleo de Estudos da Subjetividade em Psicologia Clínica
da PUC-SP, São Paulo, especial. jun. 1996, p.97.
18BAREMBLITT, Gregório. Compêndio de análise institucional. Rio de Janeiro:
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digma que concebe o corpo apenas em seu aspecto sensório-motor, nem a concepção do corpo prioritariamente como dimensão psicológica.
As histórias que emergem a partir de determinados exercícios e que permitem maior aproximação do sujeito consigo mesmo – por exemplo, o tocar-se ou o lentificar o próprio gesto para poder encarná-lo como ato que expressa um corpo – mostram co- mo, em algumas situações de certa abertura é possível acessar camadas muito pro- fundas do sujeito.
Em muitos momentos do trabalho de formação dos alunos e mesmo em momen- tos da clínica com diferentes populações, os participantes reanimam sensações intensas que fazem “lembrar no corpo” acontecimentos muito fortes de outros momentos da vi- da. Ou ainda retomam experiências em que se sentiam afetados e envolvidos pelo clima grupal, pela proposta e pela possibilidade de entrar em terrenos menos racionais. O cor- po se revela surpreendente, produz respostas inéditas evidenciadas por falas, assombros
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e contatos com um emaranhado de emoções que permitem ao sujeito reconhecer-se como vivo e em permanente transformação.
Sara, por exemplo, conta que pôde reviver um estado-feto, quando se sentiu acolhida pelo toque do corpo de uma outra pessoa. Sandra sente-se uma criança quando consegue cri- ar um gesto inusitado; ou ainda o grupo se emociona quando Catia fala das ligações corporais com sua irmã gêmea, mesmo estando à distância.
Para analisar esses casos, me aproximo novamente de Keleman que, em sua prá- tica clínica, observa a relação entre conflito emocional e distorção de postura corporal, posturas estas construídas a partir das experiências e contatos que se estabelecem ao longo de uma vida 19.
Em Anatomia emocional, Keleman oferece outro paradigma: “o corpo sede de to- da a experiência e a (trans) formação do organismo como uma estratégia da pulsação vi- tal em face à existência”.20Para Favre, o autor compreende o organismo não a partir dos
órgãos – o que seria restringir a compreensão sobre os processos por meio dos quais acontece uma existência em particular –, mas como uma forma que constrói forma per- manentemente na manutenção de um pulso vital. O que significa também que construí- mos e perdemos corpo ao longo de toda a vida.
Essa visão privilegia “o diálogo entre diferentes registros de experiências: o pul- sátil, o gravitacional, o aéreo, o emocional, o afetivo, o mental, que geram infinitas mo- dulações e tonalidades do sentimento de estar vivo”. 21
Ainda segundo a autora,
Keleman pensa o corpo como uma arquitetura tissular, geneticamente programada, fini- ta, em permanente construção e desconstrução, pulsando segundo afetos, com suas câ- maras e válvulas, sempre em busca de mais vida, inflando, adensando ou enrijecendo de acordo com o grau de tolerância aos ritmos da excitação gerada pelas experiências de amor e decepção, medo ou agressão, agonia ou prazer. 22
Por tudo isso, estou convencida de que se faz necessário um olhar que investigue o visível e o invisível, o perceptível e aquilo que ainda não despontou como expressão, ou seja, o corpo como um atravessamento de histórias, intensidades, afetos, formas que se desmancham e se configuram permanentemente, sempre no devir, sempre em pe- regrinação.
19Seu pensamento foi norteado pela observação e análise do que seria a força de
vontade e o papel da sociedade no desenvolvimento da personalidade, estudo de padrões, entendidos como modos de funcionamento, de movimento, sentimento e excitação e da forma somática, componentes importantes e determinantes para a leitura dos corpos. Membro do Instituto de análise Bioenergética de Alexander Lowen (1957), estudou no Instituto Alfred Adler e realizou treinamento em neurociências com Nina Bull, no Hospital da Universidade de Columbia, além de receber influência da filosofia social de Adler que dá as coordenadas para o seu modelo somático neurológico.
20Apresentação de Regina Favre do livro Anatomia Emocional de Stanley
Keleman (op. cit., p. 10).
21KELEMAN, Stanley., op. cit. p. 10.
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Para Rolnik, o sujeito apreende o mundo em diferentes dimensões a partir dos órgãos dos sentidos e da cognição: através da sensorialidade e das afetações, campos de forças, intensidades, processos interligados de trocas, de relações do sujeito e seus mundos.
A partir dessas considerações, podemos compreender o mundo como um lugar plural, palco de acontecimentos no próprio corpo, a partir das relações que se engendram no contexto espaço/tempo, permeado pelas afetações e modos de relação produzidos nos encontros. Vislumbra-se ainda o corpo como um ambiente dentro de outro que por sua vez, encontra-se dentro de um outro ambiente; camadas infinitamente entrelaçadas em redes de comunicação.
Nesse contexto, é necessário concordar com Keleman, quando ele afirma que os estudos anatômicos tendem a utilizar imagens bidimensionais, perdendo o vivido. Em contrapartida, é comum faltar à psicologia comprometida com os estudos das emoções, a compreensão anatômica. Sem anatomia, não há afetos. Os acontecimentos têm uma arquitetura somática. Portanto, pensar o corpo significa tentar tocá-lo em suas mais di- ferentes dimensões, entendê-lo como processos que procuram dar forma (sempre tran- sitórias) e corpo às intensidades e experiências.
Podemos dizer ainda que Keleman alia o estudo da biologia, do corpo-matéria às questões da vida. Do unicelular ao multicelular, um organismo compreendido como vi- vo, afetado continuamente pelo outro (humano ou não), que obriga continuamente a al- terar os mapas que orientam as formas do viver, fazer coisas, relacionar-se, criar outros modos e repertórios que, por sua vez, constituem outros mapas novamente afetados, desmanchados, reconfigurados.
Singularidades
É um primeiro dia de trabalho na disciplina Estudos do corpo, ministrada no Centro Uni- versitário São Camilo. Estão presentes alunos de vários cursos e a diversidade na forma- ção do grupo é sempre bem-vinda, pois ajuda a desmanchar certo “espírito corporativista” freqüente em nossa vida profissional.
Pergunto aos alunos como sentem que o corpo entra em contato pela primeira vez com um grupo ou frente a um novo conhecimento. As respostas, sensações e observações de cada participante são diferentes e particularmente originais, compõem com aspectos
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antes não percebidos, observados e, conseqüentemente, pouco assimilados pelo pró- prio sujeito.
Uma aluna sente que se retrai, seu corpo se fecha e sente que quer “desaparecer”; ou- tra, ao sentir meu olhar, vira o rosto, enrubesce e tampa o rosto com os cabelos: sente ver- gonha. Outras alunas sentem-se abertas, olham para o grupo atentas e curiosas; outras ainda me dizem: “eu não sei o que significa isto”; “nunca parei para pensar”; “não con- sigo me identificar”. E assim se seguem refinadas e diversas narrativas frente a uma mesma situação.
A pergunta provocativa produz certo incômodo em algumas pessoas: a surpresa aconte- ce quando deparam com seus modos de funcionamento e percebem que o corpo, mesmo
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contra a nossa vontade e a despeito da consciência, age e reage, ora se contorce, ora se enrijece, se protege com os braços ou se abre às experimentações, por meio de certa ati- tude, expressa pela voz ou pela postura corporal, pelo olhar, entre tantos e inumeráveis estados e composições.
Considerando a força com que a subjetividade impõe certos modos de funciona- mento que envolvem, entre vários aspectos, a relação do sujeito consigo, com seu cor- po frente ao outro, no âmbito individual e coletivo, o sujeito se vê muitas vezes a responder a certas demandas em relação a sua imagem no mundo. No entanto, diz Ke- leman, não há sujeito “normal” ou ideal, mas experiências singulares; e cada sujeito, en- tremeado por todas as dimensões acima mencionadas e com a tendência genética de autoformatar-se e criar corpo, realiza a sua própria existência.
Essa proposição parece teoricamente muito evidente, mas na clínica, nos grupos que acompanho, no contato com os alunos de graduação – e poderia afirmar em quase todos os lugares – parece muito distante. É como se o primeiro ou o maior passo a ser inau- gurado nas intervenções fosse a necessidade de perceber o outro, de reconhecer a mul- tiplicidade e a singularidade de corpos/vidas e modos de existência que se contrapõem às noções homogeneizantes de normatização que produzem idealizações a respeito dos modos de ser, pensar e agir no mundo, gerando às vezes um mal-estar ou sintomas diversos, quando se vive na diferença, na turbulência e, particularmente, quando nos dei- xamos afetar por tudo aquilo que nos toca na produção de vidas mais interessantes, po- tentes, mais próximas aos nossos desejos.
Assim, as formas que os corpos assumem a cada momento e em cada situação, as diferentes maneiras de participação do sujeito em uma ou outra proposta, as palavras que acompanham suas experiências constituem elementos reveladores e, ao mesmo tempo, produtores da diversidade, de realidades e de singularidades 23