Apartir das cenas clínicas escolhidas e das falas aqui apresentadas, procuro delinear algu- mas experiências importantes e pontuais que me serviram como matéria-prima. São elas:
Experiência com um grupo de mulheres no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas na ala feminina, 1982 a 1984.
O trabalho com o grupo composto por cerca de oito mulheres com transtornos mentais era realizado a portas fechadas e foi um momento inaugural das propostas de abordagem do corpo. Nesta experiência pude observar como modos de subjetivação dominantes se inscrevem e determinam modos de fazer com os corpos.
Mais do que a análise dos procedimentos utilizados, esse grupo foi fonte trans- parente para observar e testemunhar os efeitos de uma subjetividade capitalística dominante nos corpos. As respostas a qualquer proposta mais criativa e livre eram de automatismo e repetição das coreografias observadas na televisão. Era como se os cor- pos obedecessem a todo o tipo de investida do social. O corpo-academia, o corpo- obediente, o corpo-impregnado, o corpo-domesticado.
Grupo de dança e abordagens corporais no Centro de Convivência Parque do Carmo – Zona Leste (PMSP), durante gestão de Luiza Erundina na Prefeitura do Municí-
pio de São Paulo, 1989 a 1990.
O trabalho durou um ano e seis meses e envolveu portadores de deficiência físi- ca, na maioria homens adultos que já haviam passado por vários tratamentos e acompa- nhamentos (fisioterapia, fonoaudiologia e T. O., entre outros).
Nesse grupo a proposta era pautada pela criação do gesto, pela possibilidade de conhecer o corpo em suas potencialidades inventivas e em sua capacidade de experimen- tar o gesto, o lúdico, as mudanças posturais nas coreografias e pelo exercício de compar- tilhar as ressonâncias das descobertas, ansiedades e dúvidas acerca do território corporal.
No grupo havia cadeirantes, amputados, participantes com problemas ligados a dificuldades de comunicação verbal, dentre outras. No entanto, o trabalho funcionou como uma alternativa aos tratamentos tradicionais voltados à reabilitação, que enfa-
Aberturas aos procedimentos
tizam a funcionalidade e a realização das tarefas da vida diária como vestir-se, comer, realizar mudanças posturais e higiene do modo mais autônomo possível. Em nossa pro- posta esses objetivos eram indiretamente contemplados na realização de experimen- tações corporais e de dança.
Grupo de dança realizado no Centro de Convivência Bacuri, durante a gestão de
Luíza Erundina, na Prefeitura do Município de São Paulo, 1990 a 1992.
O trabalho aconteceu durante este período, interrompido com a entrada de Pau- lo Maluf na Prefeitura de São Paulo, por ocasião da implantação do PAS (1995/1996). O grupo era formado por portadores de deficiência física e/ou mental, pessoas com sofri- mentos psíquicos e população em geral (crianças, adolescentes e adultos). As propos- tas eram variadas, mas basicamente foi enfatizada a produção de diferenças e a diversidade.
As vivências de diferentes danças do mundo – balinesas, africanas, brasileiras, en- tre outras – e a aproximação com diferentes culturas, por meio de depoimentos de pes- soas que viajaram, permitiam experimentar gestualidades e expressões corporais diversas. Abordamos também os conhecimentos dos participantes no campo da dança e do corpo. As oficinas organizadas e ministradas pelos próprios participantes, com tra- balhos de diferentes linguagens como desenhar, contar histórias e diversos exercícios de improvisação vinculados ao tema em pauta, propiciaram trocas importantes.
Além disso, foram convidados profissionais que propunham vivências em diferen- tes técnicas: Eutonia, Laban, entre outras. Realizávamos estudos teóricos sobre modos de conceber o corpo e a dança em diversas concepções e culturas.
É importante ressaltar ainda que o grupo funcionava numa dinâmica aberta; qual- quer pessoa poderia participar, caso manifestasse interesse pela proposta daquele dia.
Grupo de dança e abordagens corporais realizado com mães e acompanhantes
de crianças e adolescentes da Estação Especial da Lapa (E.E.L.)10, instituição que per-
tence ao Fundo Social de Solidariedade.
Essa experiência durou cerca de dois anos, entre 1999 e 2000, foi realizada quan- do estive comissionada no Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo e contou com a participação de estagiárias da T. O. Muitas fotografias utilizadas neste tra-
10A EEL, segundo documentos institucionais, é um Centro de Convivência e
Desenvolvimento Humano que atende prioritariamente pessoas portadoras de deficiência, maiores de 14 anos. A instituição é mantida pelo Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, através de contribuições da iniciativa privada.
Delicadas coreografias: instantâneos de uma terapia ocupacional
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balho registram momentos dessa experiência. 11
O grupo era composto por cerca de 25 mulheres, formado a partir de uma procu- ra espontânea e tinha como objetivo oferecer escuta e atenção, por meio de um trabalho com abordagens corporais, relaxamento e dança em T. O. A partir das respostas a um questionário entregue no início da proposta, pudemos traçar um perfil das participantes: • Faixa etária entre 42 e 72 anos; em sua maioria donas de casa – mães, duas eram avós e uma irmã. Todas tinham na família portadores de deficiência.
• Quanto à classe social, registrou-se heterogeneidade: havia desde uma catadora de pa- pelão até uma moradora de um condomínio de classe alta de São Paulo. A maioria des- sas mulheres não tinha qualquer experiência anterior com trabalho corporal ou dança e muitas trabalhavam como voluntárias na EEL.
Workshop realizado no Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo sobre o danceability, coordenado por mim, pela terapeuta ocupacional Marisa Sa-
mea e a arte-educadora alemã Bárbara Von Trote12, 1995.
Essa experiência contou com 50 participantes, portadores e não portadores de de- ficiência física e/ou sensorial, estudantes e profissionais de T. O., áreas afins e interes- sados no tema do corpo e da dança. 13
Experimentações realizadas nas Disciplinas Atividades e Recursos terapêuticos ministradas por mim, no Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Pau- lo e como docente na Universidade de Sorocaba entre 2001 e 2004, na disciplina Corpo,
abordagens corporais e dança no Curso de Terapia Ocupacional do Centro Universitário São Camilo, nos últimos seis anos.
Nessas disciplinas são realizados laboratórios, seminários teórico-práticos, estudos, vivências, propostas que tematizam o corpo, abordagens corporais e dan- ça em campo.
São enfatizadas as dinâmicas grupais e sua potencialidade, por meio dos recur- sos corporais que permitem alinhavar, a partir das experiências, a implicação desses re- cursos na clínica e os sentidos do corpo na observação e atuação do terapeuta ocupacional.
Esses laboratórios têm se mostrado um espaço privilegiado para a elaboração, dis- cussão e utilização desses recursos nos efeitos e nas ressonâncias de propostas centra- das no corpo. Os aportes teóricos em composição com o compartilhar, registrar e pensar
11LIBERMAN, Flavia e VOGEL, Beatriz. Trabalho corporal e dança em terapia
ocupacional grupo de mães e familiares/Bodywork and dance in occupational therapy group mothers and relatives. Rev. Ter. Ocup. (Revista Terapia Ocupacional USP), 11(2/3) 2000, p. 63-67.
12Bárbara é cadeirante. Realizou também o treino em danceability no Oregon. 13O artigo Uma pesquisa do corpo em Terapia Ocupacional: o método de
danceability, por LIBERMAN, Flavia e SAMEA. Marisa, publicado na Rev. de Ter.
Ocup. da Universidade de São Paulo, v. 9, n. 3, p. 125-32, set/dez, 1998. Neste artigo apresentamos e analisamos especificamente a experiência do Workshop realizado em 1997, no Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo.
13 O foco desta disciplina é o vínculo terapêutico e a análise de procedimentos
Aberturas aos procedimentos
sobre o vivido potencializam ainda mais as observações realizadas por mim nos dife- rentes contextos e intervenções até agora realizados e em andamento.
Diversos cursos e workshops realizados em São Paulo e em outros Estados,com
variação de locais, número de participantes, tipos de propostas, ritmos e durações. Vale mencionar oficinas e cursos para estudantes e profissionais de T. O., áreas da saúde, bailarinos e interessados no tema do corpo, abordagem corporal e dança.
Trata-se de propostas realizadas em períodos variáveis – 4,8,12 ou mais encontros, ou durante toda uma semana –, em sua maioria vivenciais com espaço para reflexão e tro- ca. Os grupos são compostos por participantes bastante heterogêneos em relação à idade, formação ou experiências no campo da dança ou trabalho corporal. Essa diversi- dade, longe de ser impeditiva para a realização das propostas, é desejável, pois permi- te a troca entre diferentes graus de afetação, conhecimentos prévios, disponibilidades e/ou formação 14.
Grupo de Estudos de corpo e prática clínica realizado há três anos com estudan-
tes e profissionais interessados no tema corpo/clínica.
Neste contexto são discutidos textos teóricos e realizadas vivências para possibi- litar a experimentação, elaboração e discussão teórico-práticas. Os grupos têm de 8 a 12 participantes. Algumas fotografias selecionadas para este trabalho foram realizadas nesse espaço de estudo e pesquisa.
Uma característica importante na configuração do grupo foi a heterogeneidade dos participantes em relação à sua formação universitária, momentos e escolhas rela- cionadas à atuação profissional, mas principalmente à presença de um desejo de expe- rimentação e troca no campo do corpo, da dança e das abordagens corporais na clínica. Durante o trabalho, muitas de minhas idéias são compartilhadas, articulações são produzidas pelos participantes e os efeitos dos procedimentos pensados e analisa- dos. Ao longo do período de escritura da tese foi possível observar ressonâncias dessa ação. Os grupos funcionaram (e funcionam) como suporte e espaço de interlocução a res- peito de muitas problemáticas abordadas neste trabalho.
Cenas do treino em Danceability realizado no Oregon (USA), sob a coordenação
do bailarino Alito Alessi, durante três semanas.
Foram registrados vários momentos do trabalho que explorou a linguagem corpo-
14Este aspecto ficará mais claro quando apresentarmos as dinâmicas e os
exercícios que se fundamentam no interjogo entre o coletivo, o singular, momentos individuais e/ou em grupo. A variação permite o enriquecimento das propostas e de seus efeitos.
Delicadas coreografias: instantâneos de uma terapia ocupacional
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ral entre portadores e não portadores de deficiência física e/ou sensorial. Esse método foi bastante inspirador para a criação de procedimentos que utilizo. Muitos dos funda- mentos do danceability estão em consonância com idéias e propostas de minha clínica e serão explicitados ao longo da apresentação e análise das séries de procedimentos.
Workshop Composição, improvisação e o poder da imaginação, realizado com
a bailarina e performer Lisa Nelson15em São Paulo, no Estúdio Nova Dança, com a pre-
sença de bailarinos, terapeutas e interessados em dança, janeiro de 2000.
As idéias centrais propostas por Lisa Nelson – tais como a importância do olhar nas improvisações e o poder da imaginação na criação – serviram como referência para a compreensão e elaboração de exercícios que utilizo na clínica.
Experiência com um grupo de mulheres da periferia de Sorocaba (Bairro dos
Morros), quando docente de uma disciplina prática ministrada para alunos do terceiro e quarto semestre do Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de Sorocaba.
A proposta era realizar uma intervenção em campo utilizando as abordagens cor- porais e a dança. O trabalho durou cerca de um ano e originou monografias e artigos so- bre o processo, durante o qual foram realizados ensaios fotográficos que também compõem o presente trabalho.
Seminários sobre a obra Anatomia Emocional, de Stanley Keleman, sob coorde-
nação de Regina Favre, iniciado em janeiro de 2005.
O eixo desses seminários é a leitura da obra aliada a intervenções clínicas e vivên- cias dos participantes. 16
Intervenções em T. O. realizadas na Creche Nossa Senhora do Rosário (em an- damento), pertencente ao Centro Social Nossa Senhora do Rosário, Pompéia, São
Paulo.
O CEI (Centro de Educação Infantil) é conveniado à Prefeitura do Município de São Paulo e conta com 160 crianças. Nesse espaço acontece também a supervisão de está- gios de alunos do sétimo e oitavo semestres do Curso de Terapia Ocupacional do Centro Universitário São Camilo.
Atualmente supervisiono um grupo de 4 a 6 estagiários que realizam ações em es- paço socioeducativo com o objetivo de detectar problemáticas em sala de aula e realizar encaminhamentos e intervenções.
15Lisa Nelson nasceu em Nova York. Estudou na Julliard School na década de 60 e
na década seguinte passou a integrar o Workgroup, companhia de Daniel Nagrin. É coreógrafa, improvisadora e professora. Realiza trabalhos em parceria com Steve Paxton, criador do contact improvisation, uma técnica de improvisação na dança que implica a comunicação entre dois ou mais corpos pelo toque e pelo peso do corpo, considerando a relação com a gravidade.
16Este grupo será mencionado com mais detalhes ao longo da apresentação e
Aberturas aos procedimentos
Particularmente no berçário, enfatizamos o corpo e as relações afetivas entre be- bês, crianças e os ambientes. A partir dos estudos da obra Os gestos cotidianos, de Ma- dame Beziéres, os estagiários orientam os educadores, as mães e cuidadores. As imagens do livro são utilizadas como disparadores para as vivências e reflexões.
A observação e convivência com as crianças e bebês potencializaram nossas pes- quisas sobre o corpo e suas afetações.
Delicadas coreografias: instantâneos de uma terapia ocupacional
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Ambientação
Antes de iniciar a apresentação, os relatos e elaborações construídas nesta tese, pare- ce-me fundamental delinear alguns alicerces presentes na clínica aqui discutida.
Em primeiro lugar, é preciso considerar a construção de uma ambientação para que as experiências nos laboratórios, independentemente dos contextos, variações e tona- lidades possam acontecer. Consideremos, então, algumas de suas dimensões.
A primeira delas está relacionada ao aspecto espaço-temporal que abrange mo- dalidades extensivas da clínica, uma vez que as vivências exigem espaço para a experi- mentação dos exercícios e uma temporalidade variável, necessária para a efetuação das propostas nos corpos.
As convivências entre corpos, mais ou menos intensas, interferem nas proble- matizações grupais. Isso não quer dizer que um grupo que trabalhe mais tempo, ne- cessariamente tenha maior elaboração, assimilação ou compreensão do vivido; apenas aponta variações possíveis que, junto a outros aspectos, interferem nas for- matações e configurações registradas e vividas pelo participante em cada configura- ção grupal.
Em relação aos espaços, tratamos da fisicalidade do ambiente, e/ou de uma atmosfera17que vai além das paredes, portas, janelas e permite estabelecer aproxima-
ções com a fisicalidade dos corpos. 18
Uma segunda dimensão dessa questão está relacionada ao tempo para formar o que quer que seja (um gesto, uma imagem, um pensamento, linguagem), a partir das pro- postas clínicas.
Os efeitos detectados ou as sensações experimentadas podem nos afetar/provo- car/tomar forma de imediato ou exigir um tempo de aquecimentos, ebulições, caos e/ou silêncios antes de virem à tona na formatação dos corpos e de camadas detectáveis.
Para Keleman e Favre, esse aspecto, fundamental para a compreensão dos proces- sos de “desmanchar e fazer corpo” ao longo de uma vida em particular, exige o que de- nominam de um tempo formativo.
Numa outra dimensão do problema, podemos falar da construção de um ambien-
te confiável e suficientemente “seguro” para que as experiências possam acontecer. Is-
so depende dos trabalhos realizados nos grupos, ao facilitar contatos, ações e observações permanentes daquilo que pode emperrar ou paralisar os processos enten- didos como metaequilíbrio, sempre em risco de sucumbir, derivar e vingar em múltiplas
17As atmosferas serão abordadas na série Olhar.
18Em alguns exercícios do Aquecer o encontro entre a fisicalidade dos corpos e
Aberturas aos procedimentos
direções. Os acompanhamentos – próximos, sensíveis e delicados – constituem fatores essenciais para a produção singular de acontecimentos.
É importante assinalar também os sentidos e lugares do coordenador/terapeuta, de estudos e experiências em manejo e dinâmicas grupais.
Nessa direção, os estudos, vivências em/de grupos presentes em todas as inter- venções balizam estratégias e a escolha das propostas.
Cabe ainda ressaltar a necessidade de um olhar articulador, voltado para o singu- lar e para o coletivo em permanente ação, que garanta um pulso possível para o desdo- bramento das propostas e invenções.
Dados os primeiros passos, abertas as lentes e focos para os procedimentos, con- vidamos o leitor a entrar e deixar-se afetar pelo emaranhado de questões que aqui se apresentam.