Entra em cena agora um outro conceito cunhado por Stern (1992) que facilitará a nossa compreensão do que acontece não somente nas interações olho a olho, mas no encon- tro entre corpos: a sintonia de afetos.
A principal hipótese formulada e desenvolvida por Reis é que a sintonia afetiva 32
se funda na dimensão das pequenas percepções, de onde emana, como já dissemos, uma superfície de contato entre os corpos.
Para ela, algumas propostas – e eu diria em alguns procedimentos utilizados na clínica que mobilizam os corpos para o contato – nos remetem a experiências muito precoces.
Em consonância, para Stern só é verdade histórica aquilo que faz parte da lingua- gem verbal; para ele, os bebês são psiquicamente ativos desde o início da vida, com uma relativa autonomia mental, afetiva e cognitiva que os leva a participar da construção de seu mundo ambiente.33
O desenvolvimento dessas capacidades inatas e sociais implica uma elaboração
32Grifo meu.
33Termo cunhado pelo etólogo Jacob Von Uexküll que corresponde “ao mundo
experimentado, com suas cores e formas, seus sons e aromas, as suas dores e seus prazeres” (Uexküll, 1933: 9).
Delicadas coreografias: instantâneos de uma terapia ocupacional
148
subjetiva constante, relacionada a organizações de diferentes domínios do relacionar-
se, denominados pelo autor sensos do eu e do outro.34
Esses sensos do eu são maneiras de estar no mundo compostas por sensações de um corpo único, experienciador dos sentimentos, realizador de intenções, tradutor do vivido em linguagem, comunicador e compartilhador do conhecimento pessoal.
O que nos interessa é que essas organizações são domínios de sensos do eu que se sucedem em categorias cada vez mais complexas, que permitem ao bebê relacionar- se e criar seu mundo ambiente em possibilidades cada vez mais refinadas e que perma- necem ao longo de toda a vida.
Para Stern são quatro os sensos do eu: emergente, nuclear, subjetivo e verbal. Quando trabalhamos com o não-verbal e buscamos experienciar um olhar que capta at-
mosferas, ativamos capacidades que correspondem essencialmente aos dois primeiros
sensos, às primeiras formas de experiência subjetivanão-verbal e, como diz Eliana Schue- ler, envolvem a dimensão corpórea e sensória.35
Tomando a discussão anterior sobre as pequenas percepções que emanam dos corpos, podemos aproximá-la do conceito de afetos de vitalidade proposto por Stern. Se- gundo o autor, o domínio do senso do eu emergente é regido principalmente por afetos
de vitalidade que, tal como nas pequenas percepções, não são regidos por qualidades
definíveis que implicariam uma categorização formal e conceitual dos estados afetivos. Por meio de suas narrativas a respeito de experiências vividas por bebês muito no- vos, Stern nos coloca imediatamente frente à potência dos recém-nascidos que, segundo ele, permanece em nós ao longo da vida como capacidade importante e ativa, os afetos de
vitalidade que exprimem a potência de vida de um afeto, uma “força de afirmação”.
Para Stern, estas sensações podem ser apreendidas, no limite, apenas como afe- tos categoriais, macroscópicos como alegria, medo, surpresa, mas modulados pelo que o autor denomina de potência vital, que está no campo da virtualidade, inapreensível à nossa capacidade perceptiva.
Com isso, o autor afirma uma outra qualidade de experiência que pode surgir dire- tamente no encontro com pessoas: afetos de vitalidade,qualidades de sensações que não se ajustam ao léxico ou à taxionomia de afetos existentes. Para Stern, essas qualidades indefiníveis são mais bem capturadas por termos dinâmicos, cinéticos, tais como “surgin- do”, “desaparecendo”, “passando rapidamente”, “prolongando” e assim por diante.
São essas sensações, tão presentes nos bebês, que procuramos acessar em al- guns procedimentos, pois são “formas de sensações envolvidas com todos os processos
34STERN, Daniel. O mundo interpessoal do bebê. Porto Alegre: Editora Artes
Médicas, 1992.
Série Olhar
vitais da vida, tais como respirar, ficar com fome, eliminar, adormecer e acordar, ou sen- tir o ir e vir das emoções e pensamentos.” 36.
Em muitas vivências que possibilitam os contatos corporais e prescindem das palavras, fica claro que estamos ativando modos do relacionar-se muito precoces, refi- nados e bastante potentes nas interações entre os sujeitos/corpos.
Cabe ainda pontuar que os afetos de vitalidade ocorrem tanto na presença quan- to na ausência dos afetos categóricos como alegria, tristeza e assim por diante. O que os diferencia é a sua qualidade ou, podemos dizer, a intensidade do que Stern denominou de “sobrecarga”. Como exemplo, o autor sugere imagens: uma inundação de luz perce- bida; uma seqüência acelerada de pensamentos; uma imensurável onda despertada por uma música, entre outras.
Observo que em alguns momentos na clínica, os afetos de vitalidade funcionam como um rompante de determinação, expressos num determinado encontro com uma música, com uma proposta, no encontro de um corpo com outro, com uma dança, com uma fala, sem recorrer à trama ou aos sinais categóricos dos quais os afetos de vitalida-
Delicadas coreografias: instantâneos de uma terapia ocupacional
150
Stern explica ainda que os afetos de vitalidade estão presentes antes da consuma- ção de certo padrão, como é o caso do bebê que inicia as suas tentativas de colocar o po- legar na boca e é acompanhado por uma grande excitação até que o ato consumado diminua a excitação e torne-se assimilável. Este hiato, intervalo, ensaio ou preparação não deve ser desconsiderado nas vivências, mesmo que seja extremamente difícil dar um con- torno a esses processos presentes em cada experimentação, em cada exercício.
Para Gil, os afetos de vitalidade referidos por Stern, não são nem discretos nem ma- croscópicos, mas microscópicos e contínuos, ou seja, estão numa dimensão da invisibi- lidade, relacionados a campos de forças que atravessam os corpos 37. O outro olhar aqui
estudado e impossível de apreensão parece estar banhado por estes afetos de vitalida- de que fogem de qualquer categorização.
A partir dessas considerações, o olhar que nos interessa é fecundado por movi- mentos objetivos, ou seja, por aquilo que é possível ver e codificar pela consciência e si- multaneamente por esse outro olhar atmosférico que comporta uma potência vital e prescinde dos olhos abertos, atentos para sua efetuação nos corpos. Para Stern, os pro- cessos afetivos e cognitivos não podem ser separados. A aprendizagem, ela própria, é mo- tivada e carregada de afetos. Da mesma forma, em um momento intensamente afetivo, a percepção e a cognição continuam. 38
Assim, nesta concepção do olhar navegamos novamente por regiões de fluxos intensivos, campos de força ou excitações expressas por estados de presença que se atualizam nas formas dos corpos apenas provisoriamente estabilizadas.
Em concordância com Reis, parece-me possível associar as pequenas percep- ções aos afetos de vitalidade, pois ambos seguem registros muito próximos, definidos por forças intensivas fora do registro da visibilidade ou da linguagem. Essa correlação nos permite ainda dizer que a sintonia afetiva se funda na dimensão das pequenas percep- ções, das quais emana uma atmosfera que permite o contato entre os corpos na sutile- za que buscamos viver e explicitar.
É nesta modalidade que pensamos quando sugerimos, nas oficinas, contatos muito próximos e delicados entre os participantes.
37Ibid., p. 87. 38Ibid., p. 37.
Série Olhar