Para dar prosseguimento à análise de outros procedimentos, partirei de exercícios já apresentados em outras séries e que são desencadeados pelo sentido da visão, brin- cando com propostas de abrir e fechar os olhos, afirmando mais uma vez a amplitude do nosso conceito sobre o olhar.
Como vimos, não é possível purificar as experiências, mesmo aquelas impulsio- nadas ou desencadeadas pelo sentido do ver (no contato com uma imagem, com o ou- tro, com uma cena clínica), pois os olhos estão em ação num corpo complexo, aberto, envolvendo o que chamei de ambientes corporais 39, onde aquele que vê com os seus
olhos, vê com o seu corpo inteiro.
Nessa discussão abordei o mesmo procedimento apresentado na série Fotogra-
far no qual em duplas um dos pares faz uma forma com o seu corpo e o outro olha es- ta forma de diferentes modos.
Quando sugiro esse exercício está em jogo a produção de formas/fotografias iné- ditas que procurem romper trilhas habituais de construção para exercitar leves e quase invisíveis variações.
Um outro aspecto daquele procedimento, e que agora nos interessa, é quando o parceiro é chamado a olhar a forma construída de diferentes modos 40; para tanto,
o participante, ora se afasta, ora se aproxima, olha de diferentes ângulos, detalha, exercita um olhar mais panorâmico, entre tantos outros criados e experimentados pelas duplas.
Novamente proponho a questão:
Como aquela forma me afeta? Como meu corpo, responde a esta afetação? Como a mi- nha forma afeta o outro ao olhá-lo de diferentes modos?
Margeando tais procedimentos, podemos dizer que entramos no que chamarei de
jogos entre corpos que se olham 41experimentando diferentes focos e lentes, conecti-
vidades e sensações a cada novo “enquadramento”.
As aproximações e afastamentos do olhar/formas geram comentários que mere- cem atenção, pois delimitam campos diversos para a nossa análise.
“Me senti muito mal ao ser olhada, fiquei extremamente constrangida com a
39Paradoxalmente não é possível dizer sobre procedimentos do olhar com os
olhos, mas é o corpo todo que olha, por isso é possível falar de um “olhar com um corpo”. Eu não olho só com os olhos. É aí que reside toda a questão. É todo o corpo que se põe em ação: produção de gestos, emoções, pensamentos, imagens, posturas etc.
Delicadas coreografias: instantâneos de uma terapia ocupacional
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proximidade do contato”. (Sueli)
“Lembrei que na rua todos me olham e parece que a primeira coisa que vêem é o meu defeito”. (Jorge)
“Estou acostumada, sou olhada o tempo inteiro, desde pequena: pelas pessoas da rua, pelos meus pais, pelos terapeutas”. (Madalena)
“Quando as pessoas olham para mim no ônibus eu logo desvio o meu olhar, acho chato”. (Cinthia)
“Não estamos acostumadas com este jeito de ficar olhando uns para os ou- tros. É cultural”. (Silvana)
Nesses comentários podemos observar as dificuldades e ressonâncias de uma proposta que proporciona e oferece uma aproximação corporal.
No caso de Jorge o foco estava na sua deficiência, como algo que ele sente que cap- tura o olhar do outro. De fato, no workshop que Jorge realizou junto a participantes não portadores de deficiência, às vezes ficava nítida a predominância de um olhar do outro que ora focava, ora desviava seus olhos da parte deficiente do corpo.
A tentativa naquele trabalho foi proporcionar outros olhares para o gesto criado por Jorge: viver a interação entre dois corpos que dançam, que ora se aproximam e se afas- tam, problematizando, por exemplo, o olhar envolto e referendado por padrões de bele- za/feiúra; familiaridade/estranhamento que constroem um modo não somente de olhar, mas de ser olhado na relação com o outro.
A partir da fala de Madalena, também portadora de uma deficiência, surge também a percepção sobre os olhares para o seu corpo. Ela dizia não se incomodar com esta aten- ção “maciça” que sempre recebeu desde pequena.
Paradoxalmente, outros participantes que não eram portadores de deficiência expressavam incômodo e desconforto intenso ao serem olhados, o que mostra a impor- tância das experiências vividas na produção de modos de olhar e ser olhado.
Na fala de Cinthia e Silvana surge o aspecto referente às influências das formas cul-
turais que constroem os corpos: lugares onde não cabe um olhar mais diretivo, olhares
que procuram outro olhar em determinado ambiente social trazem à tona uma discussão sobre os modos de olhar e se comportar predominantes em cada época, em cada
Série Olhar
contexto que constrói e faz parte do repertório comportamental. A esses comportamen- tos, observamos as mais singulares respostas: olhar mesmo que não seja permitido; adequar o corpo e o olhar às normas vigentes; sentir vergonha de olhar; olhar justamen- te para se opor à norma, entre outras respostas que cada corpo pode produzir em dife- rentes situações, momentos, contextos, ambientes.
“Ao contrário, eu fico olhando para todo mundo e percebo como algumas pes- soas se incomodam e tentam desviar o olhar”. (Leila)
“Me incomoda o tanto que você me olha.” (Ismael)
“Quando olho de muito perto meu parceiro, sinto-me muito invasiva. Sinto que estou invadindo meu parceiro e sinto certo desconforto.” (Karen).
“Eu levei a proposta como uma brincadeira. Me diverti afastando e me aproxi- mando do meu parceiro.” (Marcos)
“Eu fiquei tão longe que perdi o contato com o meu parceiro.” (Talita) “Eu fiquei olhando cada detalhe, cada lugarzinho do corpo.” (Suzana) “Eu presto mais atenção aos olhos do meu parceiro. Ao jeito dele me olhar.”
(Márcia)
Observo que não é possível padronizar uma única resposta para quem olha e tam- pouco para aquele que está sendo olhado.
Noto ainda que cada contexto produz um tipo de conversa corporal, determinada pelas forças presentes no encontro.
Carlos, Márcia, Suzana, por exemplo, poderiam viver uma sensação diferente se experimentassem o trabalho com outra pessoa. Podemos dizer que as trajetórias e narrativas são muito específicas e que nas falas captamos algumas sutilezas e possi- bilidades.
Em muitas oficinas observo também as diferentes velocidades com que os olha- res acontecem. Às vezes as “lentes” são trocadas muito rapidamente, outras vezes
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permanecem no mesmo foco por mais tempo; alguns se deslocam mais, outros perma- necem próximos ao corpo do parceiro, alguns ainda preferem ficar no lugar de quem olha, outros no lugar de quem é olhado.
Observo também que essas variações têm a ver com muitos elementos: histó- rias e experiências singulares, graus de intensidades presentes nos contatos, momen- tos do processo grupal, questões que habitam cada participante e o grupo, vínculos, maturidade dos corpos, coordenação do trabalho e inúmeros outros aspectos que serão nomeados nas cenas e nas narrativasapresentadas.
Para Lima (2004), a
construção do olhar não se dá em isolamento, pois é atravessada por um campo simbóli- co no qual cada um de nós está imerso e que nos oferece ferramentas para realizá-los. Is- to faz com que a percepção visual não seja somente uma ação fisiológica, mas seja também cultural e subjetiva42.
Por outro lado, também somos afetados por “visões” e experiências que não necessariamente fazem parte de nosso repertório, perturbam de tal modo nossos contornos que podem tornar-se inassimiláveis, produzir um corpo que reage àquilo que lhe é excessivo.
Assim, não podemos, a partir da perspectiva apontada por Keleman, trabalhar com um conceito de visão sempre controlado pelo nosso campo de visibilidade, pois, co- mo vimos, os acontecimentos são efetuados no campo das invisibilidades.
Aqui se insinua novamente, na observação clínica, a diferença entre certa idéia de visão e uma outra que vai se construindo em relação ao olhar. A despeito desse olhar, afir- ma Gil (1996) que a “linguagem não-verbal do olhar não usa signos ou, se o emprega, é para acto contínuo os dessemiotizar: visa constituir atmosferas para melhor lançar e captar forças”. 43