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Argumentos adicionais verificados nas notas explicativas

4 RESULTADOS

4.1 Argumentos verificados nas notas explicativas para o registro dos

4.1.1 Argumentos adicionais verificados nas notas explicativas

Não obstante, as justificativas apresentadas na seção anterior para o registro dos híbridos no PL foram encontradas durante a análise das notas explicativas, relevantes alusões acerca do tratamento empregado pelas empresas, bem como dos fatores que levaram a emissão desses títulos. Dessa forma, considerou-se relevante apresentar de forma sucinta tais menções, a fim de expressar o alinhamento entre os imperativos relacionados à emissão dos híbridos dispostos na seção 2 – Fundamentação Teórica – com indícios advindos das divulgações corporativas.

Segundo informações divulgadas pela Telekom Austria, os pagamentos dos juros pertinentes aos instrumentos híbridos são registrados nas demonstrações contábeis individuais como despesa financeira. Esse tratamento decorre da possibilidade de se deduzir tais valores dos tributos incidentes sobre o lucro. Com relação ao tratamento aplicado nas demonstrações consolidadas, isto é, em IFRS, tais valores são registrados como dividendos pagos. Essa menção encontra-se mais próxima do racional empregado nas hipóteses 4 e 4.1.

De acordo com as notas explicativas das companhias Eurofins Scientific, Genting Singapore e SSE, a emissão dos instrumentos híbridos teve por finalidade reforçar a estrutura de capital, permitindo a viabilização de novos investimentos. Já com base nas notas explicativas da Wienerberger Austria a emissão dos híbridos também visou fortalecer a estrutura de capital, todavia com o objetivo de manter os ratings produzidos pelas agências de avaliações em determinados patamares, provavelmente condizentes as covenants que a companhia se encontra sujeita. Tais divulgações mostram-se correlatas às hipóteses 3 e 3.1.

Outro item recorrente nas notas explicativas das organizações sobre o tratamento dado aos híbridos pelos agentes de mercado (e.g., Orange e KPN) foi a menção de que agências de avaliação, tais como Moody’s, Standard & Poors e Fitch, de forma arbitrária, dividem esses títulos em metades iguais e ajustam seu registro no balanço analisado, considerando 50% no PL e 50% no passivo. Esse ajuste promovido pelo analista expressa em certo grau uma relevante sinalização por parte dos agentes de mercado, qual seja: reconhecer a inexistência de um elemento técnico convicto que determine a natureza patrimonial estrita desses papéis. Essa verificação encontra-se alinhada às hipóteses 1 e 1.1, as quais visam analisar a maneira como os preços e retornos das ações respondem ao registro dos híbridos no PL.

Duas empresas, cujas notas foram analisadas, realizaram menções textuais em seus documentos, que embora não se relacionem com nenhuma das hipóteses listadas nessa tese, possuem valor analítico cabível de destaque, essas organizações são: Alpiq e EDF.

Conforme explicações presentes nas notas da Alpiq, é possível verificar que a empresa emitiu dois títulos híbridos, sendo: um de forma privada e outro por meio de colocação pública. Com relação ao primeiro papel, a organização afirma que havendo a decisão de suspender os juros remuneratórios não permanecerá a obrigação de liquidar tais cupons no futuro. Tal característica, embora presente somente no título de colocação privada, reflete um importante avanço no que se referem às condições necessárias para aceitação desses títulos como instrumentos patrimoniais genuínos.

Por fim, foi verificada nas notas explicativas da EDF, companhia do setor de eletricidade da França, a informação de que o reconhecimento dos instrumentos híbridos junto ao patrimônio líquido encontrava-se em linha com a orientação técnica emitida pela Ordem dos Experts em Contabilidade42 desse país de 28 de julho de

1994.

De acordo com a Commission des études comptables (2015, p. 3)43:

[...] O Parágrafo 3.4 da exposição de motivos do Parecer nº 28 da Ordem dos Contabilistas diz respeito à interpretação do artigo 248.8 (h) do Código Comercial (atual artigo R. 233-10 8º) que permite a classificação no capital próprio nas contas consolidadas somente dos contratos emitidos que não preveem o resgate por iniciativa do credor, ou remuneração obrigatória em caso de ausência ou insuficiência de renda. (Grifos adicionados).

Destaca-se a menção ao código comercial francês, sendo utilizado como base para determinação dos itens elegíveis à titulação de patrimônio líquido.

Segundo o Plano Contábil Geral44 francês, os híbridos, denominados como TSSDI,

deverão ser reconhecidos como outras participações na classe 1 do referido documento: Contas de Capital.

Interessante notar que o argumento utilizado para determinação do registro contábil desses papéis foi provindo do código comercial francês em uma decisão arregimentada em 1994, cerca de 11 anos antes da primeira publicação de demonstrações contábeis em IFRS por empresas francesas com ações listadas em bolsa. Nos documentos analisados acerca das discussões sobre o assunto, não foram notadas menções nem sobre a IAS 39, nem sobre a IAS 32, dando mostras, ainda que intuitivas, de que a jurisdição considerou em sua análise, basicamente elementos do sistema jurídico local.

42 Tradução livre de: Odre des Experts Comptables.

43 Tradução livre de: Le paragraphe 3.4 de l’exposé des motifs de l’avis n°28 de l’ordre des experts-comptables

a pour objet l’interprétation de l’article 248.8(h) du code de commerce (devenu l’article R. 233-10 8°) qui offre la possibilité de classer en capitaux propres, dans les comptes consolidés uniquement, les contrats d’émission ne prévoyant pas de remboursement à l’initiative du prêteur, ni de rémunération obligatoire en cas d’absence ou d’insuffisance de bénéfice.

Outro relevante aspecto a ser mencionado é o fato de a França possuir um plano de contas nacional, o qual visa estabelecer as contas contábeis a ser utilizadas no processo de escrituração dos eventos de natureza econômico-financeira, método pouco usual comparativamente a outras nações.

Ressalta-se que a incursão por essa particularidade francesa pode explicar em muito o fato de arredondados 51% da amostra de empresas formadoras do grupo de interesse, com emissões que totalizam mais de 24 bilhões de dólares, serem provindas dessa jurisdição. Principalmente quando se considera a existência de vis- à-vis jurisprudências que garantem o ingresso de tais valores junto às rubricas patrimoniais.

Tais achados ratificam os argumentos apresentados por Nobes (2013) de que a adoção das IFRSs não superou determinadas diretrizes provindas dos ordenamentos contábeis locais. Mais especificamente, no contexto desta tese, verifica-se que a ausência de maiores clarificações por parte do IASB, acerca da classificação contábil de instrumentos híbridos, torna o assunto campo profícuo para emissão de pronunciamentos idiossincráticos a cada localidade, acarretando severas distorções na comparabilidade das demonstrações contábeis de organizações situadas em diferentes domicílios.