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Público(s): a amplitude do discurso ideológico

No documento NATHALIA AGOSTINHO XAVIER (páginas 151-154)

CAPÍTULO 5: A A formação da identidade religiosa nos reinos suevo e de Kent: análise

5.3 Público(s): a amplitude do discurso ideológico

Em princípio há mais destinatários em um documento que o declarado ou exposto. Analisamos este ponto por meio do conteúdo e partindo do pressuposto de inserção do autor em um grupo com valores e motivações partilhadas que indicam possíveis públicos e objetivos.

Com isto, é razoável creditar às cartas gregorianas e aos escritos de Martinho de Braga uma amplitude considerável, sobretudo por conta da posição de prestígio e de associação com a monarquia que os autores ocupavam. Ao menos, é factível pressupor que em boa parte do meio eclesiástico, secular ou regular, estes escritos circularam/circulariam. Cabe ressaltar, entretanto, que nossa preocupação não é com a eficácia do discurso e sim com sua produção e possível recepção, isto é, com o que estimula a elaboração da argumentação exortativa e/ou epistolar.

Como visto, a própria descrição do outro religioso e as propostas apresentadas para a unificação religiosa dos reinos salientam o público pretendido. Assim, a apreciação de diversas heresias na carta de Martinho de Braga a bispo estrangeiro e o uso de argumentos teológicos demonstram a demarcação de uma vertente nicena como identidade da Igreja local frente outras regiões, bem como para os bispos galegos, principalmente pela possibilidade da carta servir, junto à recomendação romana prévia,15 como paradigma para execução do rito batismal local.

Igualmente, a proposição de idólatras que remontam ao Antigo Testamento e a urgência da inclusão dos anglos em um plano salvífico nas cartas gregorianas servem tanto ao serviço de recomendação dos missionários como imprescindíveis às ilhas, quanto como função de elemento didático de convencimento da nobreza pagã.

Uma assertiva é irrefutável: ambas as produções, gregoriana e martiniana, promovem uma verticalização da instituição que é centralizada na figura de um porta-voz autorizado. Destinam-se, dentre outros, a seus pares, com o intuito de fixar um esquema hierárquico, com a ressalva de, no caso dos anglo-saxões haver maior demarcação da superioridade romana.

Por esta perspectiva formulam-se modelos de combate à idolatria, de ação pastoral. O DCR e a carta enviada a Melito possuem este caráter na medida em que oferecem um conjunto de procedimentos a ser imitados e garantem certa organização na

15No caso, a carta de Virgilio de Braga recebida por Profuturo de Braga, por volta de 538. Sobre, cf.: BRAGANÇA, Joaquim O. A carta do papa Vigílio ao Arcebispo Profuturo de Braga. Bracara Augusta, Braga, v. 21, p. 65-97, 1967.

atuação eclesiástica. No entanto, a procura por uma homogeneização, analisada junto aos outros documentos, evidencia uma diferença de públicos para estes modelos.

Conquanto apresente uma prédica a cristãos batizados, o DCR pode ser entendido como uma pregação aos próprios presbíteros e bispos, partindo do pressuposto do “sincretismo” religioso, ou da ideia de prevenção de quaisquer divergências. Pode-se dizer que tem como maior objetivo a normatização da instituição a começar por seus representantes, inserindo-os no projeto de cristianização da Galiza.

Ao passo que o sermão se configura como uma manual de pregação a clérigos menores e mais distantes da esfera de influência bracarense, a epístola de Gregório não apenas cumpre o papel de relembrar sua prerrogativa, como bispo de Roma, na definição dos rumos da missão, como a ratifica, posicionando mais uma vez o erro da idolatria como um obstáculo na iminente conversão dos anglos. Em suma, a proposta pela resignificação de espaços e símbolos religiosos oferece mais à determinação dos clérigos como mediadores representantes da vontade divina que como prospecto efetivamente levado a frente.16

Os públicos, em geral, parecem divergir em um ponto relevante. A proposição de modelos de ação e normas centralizadoras na Galiza, em consonância com as atas conciliares, revela um ambiente de instabilidades internas à instituição, possivelmente de disputas entre sedes e províncias, ou mesmo dificuldade na padronização de uma normativa única para o corpo eclesiástico.

Por outro lado, a proposta modelar gregoriana, tanto para a organização de sedes quanto para a extirpação dos costumes pagãos, revela uma conjuntura de instabilidade externa à elite clerical. Não há indícios de problemas com a rigidez do esquema hierárquico entre os missionários, porém nota-se a vulnerabilidade do acordo entre monarquia e Igreja, as dificuldades em adequar outros reinos ao projeto, e possivelmente, outros bispos distantes. Tal conjuntura ocasiona a necessidade de consolidação dos resultados pastorais de Agostinho e seus colegas.

O documento destina-se diretamente aos bispos/monges e indiretamente às populações que circundam os espaços religiosos, tal qual no DCR, mas também, ao coletivo de anglos livres e nobres. Trata-se de um público de cunho volátil. Explicamo-nos. Ainda que pensadas para âmbito clerical, de acordo com seu conteúdo, algumas das

16E tendo em consideração que uma coisa não anula à outra, indícios do aproveitamento destes espaços aparecem em trabalhos de arqueólogos. Cf.: BLAIR, J. The Church in Anglo-Saxon Society. New York: Orxford University Press: 2005. p. 55-57.

cartas em meio insular podem ser constantemente observadas, ao menos no período do reinado de Ethelberto, como recomendações, isto é, como meio de legitimação da autoridade episcopal na localidade. Assim, a descrição do outro religioso e de qual tratamento este deve receber obedece a intuitos políticos de constante reafirmação da coerência do esforço de conversão, bem como visa a demarcar fisicamente, entre antigos templos e novas igrejas, a superioridade cristã. Desta maneira, a volatilidade das epístolas significa que estas sempre se estendem a público mais vasto que o intentado, de acordo própria existência material desta documentação e com as possibilidades que a comprovação do apoio romano pudessem garantir aos missionários.

São duas concepções de integração espacial: uma que promove a (re) inserção de províncias e sedes, e outra que articula a formação de um princípio de rede episcopal interligada, cuja vulnerabilidade e dependência em relação ao apoio monárquico é considerável. O auxílio do rei e a mútua legitimação entre as instituições na Galiza permitem formulação de um discurso particular à Igreja; a incipiência desta configuração político-religosa em Kent cria áreas de intercessão mais amplas, destinando todas as cartas a mais que seus públicos de fato. Ainda que o conteúdo e os argumentos mobilizados sejam referentes a interlocutores de tradição cristã17, a elementar composição de uma estrutura eclesiástica na região exige a elasticidade do discurso. Deste modo, definido o público-alvo das cartas, podemos, no caso anglo-saxão, cogitar uma maior abrangência, circulação e mobilização das sentenças gregorianas, de acordo com a característica embrionária de um plano de conversão.

Por fim, evidencia-se na Galiza que o herege e o idólatra são descritos em meio à busca por normatização da instituição e cristianização do reino, com ênfase no público eclesiástico, ainda que pudesse tocar a outros.18 A dissidência é descrita, especialmente, em oposição à homogeneização de condutas morais, a ações pastorais e litúrgicas; em consonância a tais descrições, ocorre uma esfoço de uniformização normativa e definição de atribuições aos cargos. Em síntese, a preocupação com o outro religioso é concomitante à institucionalização da Igreja.

17Como notamos na análise das cartas, em que se percebe o uso de argumentações variadas entre as enviadas para destinatários clericais e as enviadas para a realeza. Cf.: capítulo 4, subtítulo 4.2: “As cartas gregorianas”.

18O que não significa dizer que a produção de Martinho de Braga na época buscou variados públicos, a despeito da ênfase no corpo clerical que notamos na análise da DTM e do DCR. Sobre o modelo de monarca proposto, cf.: SILVA, Leila Rodrigues. Op. Cit.

Por sua vez, a conversão dos anglo-saxões, segundo a proposta gregoriana, não se restringe à atuação dos monges. O público diferencia-se por função, não em uma sociedade cristianizada, mas em uma sociedade pagã. O anúncio da idolatria como empecilho da inclusão dos anglos no plano de salvação divino, delega uma função específica de controle da idolatria a cada um dos destinatários. A monarquia também é definida na oposição ao outro religioso; a nobreza regulamentada junto a Igreja em código de leis. Tal empenho não diz respeito apenas a uma organização eclesiástica em dado reino, mas à própria redefinição deste como um todo, pela conversão. A construção de uma Igreja, e não sua organização, aparece em conjunto com a rejeição à idolatria.

No documento NATHALIA AGOSTINHO XAVIER (páginas 151-154)