4. UTILIZAÇÃO DAS TÉCNICAS PROCESSUAIS DIFERENCIADAS DO
4.2 DA TÉCNICA PROCESSUAL PREVISTA NO ART 327, § 2º, DO CPC
4.2.2 Art 327, § 2º, do Código de Processo Civil
278 O STF já se manifestou: “[...]. Direitos e garantias fundamentais devem ter eficácia imediata (cf. art. 5º, § 1º); a vinculação direta dos órgãos estatais a esses direitos deve obrigar o Estado a guardar-lhes estrita observância.” (STF, Ext 986, Rel. Min. Eros Grau, j. 15.08.2007). Nesse mesmo sentido, José Afonso da Silva: “Então, em face dessas normas, que valor tem o disposto no §1º do art. 5º, que declara todas de aplicação imediata? Em primeiro lugar, significa que elas são aplicáveis até onde possam, até onde as instituições ofereçam condições para seu atendimento. Em segundo lugar, significa que o Poder Judiciário, sendo invocado a propósito de uma situação concreta nelas garantida, não pode deixar de aplicá-las, conferindo ao interessado o direito reclamado, segundo as instituições existentes. (Comentário Contextual à Constituição. 7. ed. São Paulo: Malheiros, 2010, p. 181). Outro não é o entendimento de Flávia Piovesan: “Atenta-se ainda que, no intuito de reforçar a imperatividade das normas que traduzem direitos e garantias fundamentais, a Constituição de 1988 institui o princípio da aplicabilidade imediata dessas normas, nos termos do art. 5º, § 1º. Esse princípio realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos, liberdades e garantias fundamentais, prevendo um regime jurídico específico endereçado a tais direitos. Vale dizer, cabe aos Poderes Públicos conferir eficácia máxima e imediata a todo e qualquer preceito definidor de direito e garantia fundamental.” (PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 91/92)
279 SARLET, Ingo Wolfgang; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito
Constitucional. 6. ed. revista e atualizada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017, p. 370. Com esse mesmo
pensar, Carlos Alberto Alvaro de Oliveira afirma: “por um lado, principalmente em matéria processual, os preceitos consagradores dos direitos fundamentais não dependem da edição de leis concretizadoras. Por outro, na Constituição brasileira, os direitos fundamentais de caráter processual ou informadores do processo não tiveram sua eficácia plena condicionada à regulação por lei infraconstitucional.” (O processo civil na perspectiva dos direitos fundamentais. Revista de Direito Processual Civil. Curitiba: Gênesis, 2002, n. 26, p. 653-664). Vale registrar, ainda, a observação de Canotilho: “Aplicação direta não significa apenas que os direitos, liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. Significa também que eles valem directamente contra a lei, quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição.” (CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. Coimbra: Almedina, 2002, p. 186).
O art. 327, caput, do Código de Processo Civil280, possibilita a cumulação objetiva de
pedidos, em um único processo, ainda que entre eles não haja conexão (afinidade substancial).281
A cumulação objetiva de pedidos pode ser própria ou imprópria. Na cumulação própria, o autor apresenta mais de um pedido, e pretende o acolhimento de todos eles. De outro lado, na cumulação imprópria, apesar de o autor apresentar mais de um pedido, ele sabe que apenas um de seus pedidos será acolhido.
A cumulação própria se divide em simples e sucessiva. A cumulação própria simples se dá quando as pretensões são autônomas, de forma que não há precedência lógica de análise entre os pedidos (v.g., pedido de condenação em dano material e em dano moral). A cumulação própria sucessiva ocorre quando há precedência lógica na análise dos pedidos, de forma que o segundo pedido apenas será analisado se acolhido o primeiro pedido (v.g., pedido de declaração de inexigibilidade de relação tributária e condenação à repetição do indébito). De outro giro, a cumulação imprópria se divide em eventual e alternativa. Na cumulação imprópria eventual (também conhecida como subsidiária), o segundo pedido apenas será apreciado caso não acolhido o primeiro pedido, de modo que há relação de preferência entre os pedidos formulados (art. 326, caput, CPC). Acolhido o pedido principal, dispensar-se-á o exame do pedido secundário (v.g., pedido de declaração de inconstitucionalidade da multa e pedido de redução do valor da multa). Por fim, na cumulação imprópria alternativa, o autor apresenta mais de um pedido, sabendo que apenas um dele será atendido, mas não aponta relação de preferência, tal como prevê o no art. 326, parágrafo único, CPC (v.g., pedido de substituição do produto defeituoso ou restituição do valor gasto).
O art. 327, § 1º, do CPC, preconiza que são requisitos de admissibilidade da cumulação que: i) os pedidos sejam compatíveis entre si; ii) seja competente para conhecer deles o mesmo juízo; iii) seja adequado o tipo de procedimento para todos os pedidos.
280 Art. 327, caput: “É lícita a cumulação, em um único processo, contra o mesmo réu, de vários pedidos, ainda que entre eles não haja conexão.”
281 O STJ admite também a cumulação subjetiva de pedidos, desde que configurada hipótese de conexão: “[...]. 2. É assente nesta Corte a possibilidade de cumulação de pedidos, nos termos do art. 292 do Código de Processo Civil, quando houver na demanda ponto comum de ordem jurídica ou fática, ainda que contra réus diversos. 3. A expressão "contra o mesmo réu" referida no art. 292 do CPC deve ser interpretada cum grano salis, de modo a se preservar o fundamento técnico-político da norma de cumulação simples de pedidos, que é a eficiência do processo e da prestação jurisdicional. 4. Respeitados os requisitos do art. 292, § 1°, do CPC (= compatibilidade de pedidos, competência do juízo e adequação do tipo de procedimento), aos quais se deve acrescentar a exigência de que não cause tumulto processual (pressuposto pragmático), nem comprometa a defesa dos demandados (pressuposto político), é admissível, inclusive em ação civil pública, a cumulação de pedidos contra réus distintos e atinentes a fatos igualmente distintos, desde que estes guardem alguma relação entre si. [...].” (AgRg no REsp 953.731/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, j. em 02.10.2008). Nesse mesmo sentido: STJ, CC 128.277/RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, j. em 23.10.2013; STJ, REsp 1202556/MG, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe 02.02.2011.
Em primeiro lugar, mister se faz que os pedidos sejam compatíveis entre si. Pedidos compatíveis são aqueles que não se excluem mutuamente.282 Caso os pedidos sejam incompatíveis, cabe ao magistrado intimar o autor para emendar a inicial, dando-lhe a opção de escolher um de seus pedidos. Não se exige compatibilidade de pedidos para a cumulação imprópria (eventual ou alternativa), pois o autor pretende o acolhimento apenas de um dos pedidos (art. 327, § 3º, do CPC).
Em segundo lugar, o juízo deve ser absolutamente competente para examinar todos os pedidos cumulados. Logo, tratando-se de incompetência absoluta, deve o juiz julgar apenas o pedido do qual é competente, extinguindo-se em relação ao qual não é competente.283 Na hipótese de incompetência relativa, se houver conexão entre os pedidos, inexistirá óbice para a cumulação, em razão da modificação legal da competência (art. 55, CPC).284 E, mesmo ausente conexão, os pedidos poderão ser apreciados conjuntamente pelo mesmo juízo, caso não alegada a incompetência relativa em preliminar de contestação pelo réu, o que acarretará a prorrogação da competência (art. 65, CPC).
Por derradeiro, impõe-se que o procedimento seja adequado para a tramitação de todos os pedidos cumulados. Caso o procedimento seja inadequado para todos os pedidos, cabe ao magistrado intimar o autor para emendar a inicial, dando-lhe a opção de escolher o pedido que seja adequado àquele procedimento por ele optado.
Quando se tratar de pedidos sujeitos ao procedimento especial (mesmo que previsto em legislação extravagante285) e ao procedimento comum, afigura-se possível a cumulação de pedidos, desde que seja adotado o procedimento comum, que, por ser mais amplo, possibilita maior ampla defesa por parte do requerido, inexistindo prejuízo ao mesmo286, conforme estatui o art. 327, § 2º, do CPC.287
Contudo, nem todo procedimento especial pode ser convertido ao procedimento comum, pois os procedimentos especiais apresentam-se como facultativos ou cogentes. Tratando-se de
282 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Código de Processo
Civil Comentado. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 419.
283 Enunciado n. 170 da Súmula do STJ: “compete ao juízo onde primeiro for intentada a ação envolvendo acumulação de pedidos, trabalhista e estatutário, decidi-la nos limites da sua jurisdição, sem prejuízo do ajuizamento de nova causa, com o pedido remanescente, no juízo próprio.”
284 Enunciado n. 289 do Fórum Permanente de Processualistas Civis: “Se houver conexão entre pedidos cumulados, a incompetência relativa não impedirá a cumulação, em razão da modificação legal da competência.” 285 Enunciado n. 506 do Fórum Permanente de Processualistas Civis: “A expressão ‘procedimentos especiais’ a que alude o §2º do art. 327 engloba aqueles previstos na legislação especial.”
286 Nesse mesmo sentido: STJ, AgRg no REsp 1563983/ES, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, j. em 26.04.2016; STJ, Resp. 413.685, 4ª Turma, Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, j. 05.10.2006. 287 “Quando, para cada pedido, corresponder tipo diverso de procedimento, será admitida a cumulação se o autor empregar o procedimento comum, sem prejuízo do emprego das técnicas processuais diferenciadas previstas nos procedimentos especiais a que se sujeitam um ou mais pedidos cumulados, que não forem incompatíveis com as disposições sobre o procedimento comum.”
procedimentos especiais facultativos, em que o ordenamento jurídico possibilita que pedidos sujeitos a procedimentos especiais sejam também formulados via procedimento comum, não há óbice à regra do art. 327, § 2º, do CPC, aplicando-se a conversibilidade do procedimento especial em procedimento comum. À guisa de exemplo, cite-se a ação de mandado de segurança, a ação possessória e a ação monitória.
De outro lado, cuidando-se de procedimentos especiais cogentes, em que os procedimentos são criados para atender interesse público, sendo obrigatório e inderrogável pela vontade das partes, não se lhes afigurando possível optar pelo procedimento comum, não se lhes aplica a regra do art. 327, § 2º, do CPC. São exemplos a ação de inventário, a ação de interdição e a ação de desapropriação.288
Na verdade, a possibilidade de cumulação objetiva de pedidos que correspondem a tipos diversos de procedimentos, adotando-se o procedimento comum, tal como estampada no art. 327, § 2º, do CPC/2015, já estava prevista no art. 292, § 2º, do CPC/1973, nos seguintes termos: “quando, para cada pedido, corresponder tipo diverso de procedimento, admitir-se-á a cumulação, se o autor empregar o procedimento ordinário.”
Entrementes, o novel art. 327, § 2º, do CPC/2015 inovou, ao permitir que no procedimento comum sejam empregadas “as técnicas processuais diferenciadas previstas nos procedimentos especiais a que se sujeitam um ou mais pedidos cumulados, que não forem incompatíveis com as disposições sobre o procedimento comum.”
Vale dizer: o art. 327, § 2º, do CPC/2015, além de autorizar a cumulação objetiva de pedidos que correspondem a tipos diversos de procedimentos, tal como já previa o art. 292, § 2º, do CPC/1973, foi além, permitindo-se que sejam empregadas as técnicas processuais diferenciadas previstas nos procedimentos especiais, desde que não sejam incompatíveis com as disposições sobre o procedimento comum.
Comentando essa inovação legal, vale transcrever o magistério de Fredie Didier Jr:
288 Com esse mesmo raciocínio: DIDIER JR, Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. ed. Salvador: JusPodivm, 2015, p. 575-576, v. I. Assim também já decidiu o Superior Tribunal de Justiça: “[...]. De acordo com o art. 292, § 1º, III e § 2º, do CPC, a cumulação de pedidos se sujeita, entre outros requisitos, à identidade de procedimento ou à possibilidade de que todos os pedidos sejam processados pelo rito ordinário. - Em nosso sistema processual prevalece a regra da indisponibilidade do procedimento, segundo a qual as partes não podem alterar a espécie procedimental prevista para determinada situação litigiosa. Todavia, há situações em que o ordenamento jurídico possibilita que pedidos sujeitos a procedimentos especiais sejam também formulados via procedimento comum, como é o caso das ações possessórias e monitórias. - Dessa forma, a partir de uma análise sistemática do CPC, conclui-se que a regra do art. 292, § 2º, não se aplica indiscriminadamente, alcançando apenas os pedidos sujeitos a procedimentos que admitam conversão para o rito ordinário. [...].” (REsp nº 993.535/PR, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, j. em 06.04.2010). Nesse mesmo diapasão: STJ, Resp n. 1.277.041/RR, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, decisão monocrática, DJ 07.03.2016.
Se os pedidos corresponderem a procedimentos diversos, ainda assim a cumulação será possível, se puderem ser processados pelo procedimento comum. Neste caso, o legislador, corretamente, determina que se adapte o procedimento comum, de modo a inserir técnica processual diferenciada que com ele não seja incompatível (art. 327, § 2º, CPC). Por exemplo: a técnica da cognição limitada no procedimento possessório (irrelevância da alegação de domínio) pode ser inserida no procedimento comum, caso se cumulem pedidos possessório e de resolução de contrato. Se isso ocorrer, o procedimento seria o comum, mas a cognição, em relação ao pedido possessório, seria limitada. Esse dispositivo, cujo alcance ainda precisa ser dimensionado, é muito rico. Dele pode-se extrair a conclusão de que o procedimento comum é adaptável, maleável, flexível; de que ele é receptivo à incorporação, ainda que episódica, de técnicas diferenciadas pensadas para procedimentos especiais. O procedimento comum passa a ser território propício para a imigração de ajustes procedimentais desenvolvidos para a tutela de determinados direitos. Essa cláusula geral pode ser a fonte normativa da reafirmação e do desenvolvimento do princípio da adequação do procedimento. 289
A nosso ver, não se trata de aglutinação de duas espécies de procedimentos (especial e comum) em uma única ação, sob o procedimento comum, combinando as técnicas de ambos procedimentos (especial e comum). A cumulação é de pedidos (não de procedimentos), de modo que o procedimento é único, qual seja, aquele sob o procedimento comum, porém, afigura-se possível invocar as técnicas processuais diferenciadas dos procedimentos especiais, se compatíveis.
Dito de outra forma: mesmo que aplicáveis as técnicas processuais diferenciadas dos procedimentos especiais, se compatíveis, o procedimento permanece sendo o comum, e não uma junção do procedimento especial e do procedimento comum. A compatibilidade é das técnicas processuais, e não dos procedimentos.
Essa premissa é de grande relevância, pois influencia a forma como se interpretará a compatibilidade, ou não, das técnicas processuais diferenciadas dos procedimentos especiais no procedimento comum.
A inovação legal do art. 327, § 2º, do CPC, vem ao encontro, diretamente, do objetivo do processo: prestar tutela de direito de forma efetiva, adequada e tempestiva.
A efetividade significa a realização do direito material através do processo, até porque direito existe para ser realizado290. A propósito, quadra rememorar o clássico postulado da “máxima
289 Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. ed. Salvador: JusPodivm, 2015, p. 575, v. I.
290 “O direito existe para se realizar. A realização é a vida e a verdade do direito, é o próprio direito. O que não se traduz em realidade, o que está apenas na lei, apenas no papel, é um direito meramente aparente, nada mais do que palavras vazias. Pelo contrário, o que se realiza com direito é direito, mesmo quando não se encontre na lei e ainda que o povo e a ciência dele não tenham tomado consciência”. (JHERING, Rudolf Von. Géis dês römischen
Rechts auf den verschiedenen Stufen seiner Entwicklung, Teil 2, Abteilung 2, Unveränderter Neudruck der 5.
[lezten veränderten] Auflage Leipzig 1898, Aalen, Scientia Verlag, 1968, n. XXXVIII, p. 32, t. III, n. 43, p. 17, da edição espanhola de 1910, trad. Enrique Príncepe y Satorres, Madrid, Editorial Bailly-Bailliere, apud OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Do Formalismo no processo civil. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 244)
coincidência” de Chiovenda, segundo a qual "o processo deve dar a quem tem um direito, na medida do possível, tudo aquilo e precisamente aquilo que ele tem direito de conseguir".291 Em outras palavras: a efetividade está voltada aos resultados do processo292, já que este tem como fim prestar a tutela jurisdicional de direitos.293 Pretende-se, assim, no âmbito da efetividade, extrair do processo o maior rendimento possível, que é uma das diretrizes do Código de Processo Civil de 2015, pois de nada adianta possibilitar a cumulação de pedidos, em um único processo, que correspondem a tipos diversos de procedimentos, se inaplicáveis as técnicas processuais diferenciadas dos procedimentos especiais.
A par disso, o processo tem de ser adequado para prestar a tutela dos direitos, ou seja, capaz de promover a realização do direito material (meio idôneo para promover o fim)294. A
adequação aponta a necessidade do exame do direito substancial controvertido para, só então, estruturar-se um processo dotado de técnicas processuais idôneas para o fim. Portanto, afigura-se possível definir a adequação da tutela jurisdicional como a aptidão desta para realizar a eficácia prometida pelo direito material, com a maior efetividade e segurança possíveis (conciliação desses dois valores).295
Do direito à tutela adequada, exsurge o princípio da adequação jurisdicional. Conforme já assinalado, os procedimentos especiais, criados abstrata e previamente pelo legislador, não são suficientes, em todas os casos, para atender um dos objetivos do processo: prestar tutela jurisdicional de direito de forma adequada. Posta assim a questão, o dever de prestar tutela adequada desloca-se do legislador para o juiz. Logo, hodiernamente, o processo não deve apenas ser estruturado, prévia e legalmente, para atender às necessidades do direito material,
291 “Il processo deve dare per quanto è possibile praticamente a chi há um diritto quello e proprio quello ch’egli há diritto di conseguire.” (CHIOVENDA, Giuseppe. Dell’azione nascente dal contrato preliminare. Saggi di
diritto processuale civile (1894-1937), Milano: Giuffrè, 1993, p. 110, v. I).
292 “O processo civil de hoje é necessariamente um processo civil de resultados, porque sem bons resultados, e efetivos, o sistema processual não se legitima. A nova era que se anuncia inclui a visão atualizada da figura do Juiz no processo, com deveres de participação e diálogo e com empenhada responsabilidade pelo modo como sua atividade repercutirá na vida dos usuários do sistema.” (DINAMARCO, Cândido Rangel. Nasce um novo
processo civil. Reforma do Código de Processo Civil. Coord. Sálvio de Figueiredo Teixeira, São Paulo: Saraiva,
1996, p. 51)
293 "Hoje não se discute mais sua independência e autonomia (processo). Debate-se, todavia, a respeito da sua efetividade, que, em última análise, significa que o processo deve proporcionar a total proteção ao direito substancial. Isto é, somente se pode falar em efetividade do processo se o seu resultado for socialmente útil, proporcionando ao titular de um direito, em cada caso concreto, o acesso à ordem jurídica justa. (BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Direito e Processo. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 56)
294 Andre Proto Pisani realça a necessidade do direito processual fornecer tutela jurisdicional adequada para a proteção de situação específica: “Specificando, quindi, quanto detto poco fa, é possibile ora dire che il diritto sostanziale - sul piano della effettività, della giuridicità, non della sola declamazione contenuta nella carta stampata – esiste nella misura in cui il diritto processuale predispone procedimenti, forme di tutela giurisdizionale adeguate agli specifici bisogni di tutela delle singole situazioni di vantaggio affermate dalle norme sostanziali.” (Lezioni di diritto processuale civile. Napoli: Jovene, 1994, p. 6)
295 OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Teoria e Prática da Tutela Jurisdicional. Rio de Janeiro: Forense, 2008.
mas deve também conferir às partes e ao juiz ajustar os procedimentos às particularidades da demanda, no caso concreto.296
Esse é o espírito do novel art. 327, § 2º, do CPC, ao permitir a cumulação de pedidos que correspondem a diversos tipos de procedimentos, mantendo-se, todavia, as técnicas processuais diferenciadas relativas aos procedimentos especiais, quando compatíveis, de forma que o procedimento se torna flexível, adaptável à causa em concreto.
O referido dispositivo legal também está em consonância com a duração razoável do processo (art. 5º, inciso LXXVIII, CF). O clamor por uma Justiça mais célere é um anseio de todo o cidadão, em toda a parte do mundo, que “bate às portas” do Poder Judiciário buscando a tutela jurisdicional de seus direitos. Como muitas das tutelas processuais diferenciadas previstas nos procedimentos especiais visam, precipuamente, a tempestividade do processo, a exemplo da eficácia imediata da sentença na ação de mandado de segurança, conclui-se que o art. 327, § 2º, do CPC contribuirá para esse desiderato.
4.3 UTILIZAÇÃO DAS TÉCNICAS PROCESSUAIS DIFERENCIADAS DO MANDADO