1. DOS PROCEDIMENTOS ESPECIAIS SOB A ÓTICA DA TUTELA ADEQUADA
1.4. DIRETRIZES DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015
Firmadas as premissas da constitucionalização do processo e da finalidade constitucional do processo (prestar tutela de direito efetiva, adequada e tempestiva, mediante processo justo), se afigura possível compreender, agora, em qual momento histórico o Código de Processo Civil de 2015 fora debatido e aprovado, em que a República Federativa do Brasil, desde a Proclamação da República no ano de 1889, vive o seu maior período da história sob um regime de Estado Democrático de Direito103, tutelando, sobretudo, os direitos fundamentais dos cidadãos, em suas diversas dimensões.
É a partir desse aspecto cultural histórico que o Código de Processo Civil de 2015 deve ser interpretado e aplicado.
O Código de Processo de Civil de 2015 começou a ser elaborado no ano de 2009, quando o Presidente do Senado Federal nomeou uma Comissão de Juristas integrada por 11 (onze) membros para redigir um anteprojeto do referido Codex, tendo o processo legislativo iniciado no Senado em 2010, com o número do PL 166/2010.
102 Todavia, Carlos Alberto Alvaro de Oliveira salienta que “vários fatores vêm determinando, nos dias atuais, maior prevalência do valor da efetividade sobre o da segurança. Em razão da mudança qualitativa dos litígios trazidos ao Judiciário, numa sociedade de massas, com interesse de amplas camadas da população, tornam-se imperativas uma solução mais rápida do processo e a efetividade das decisões judiciais. Outro fato significativo constituiu a própria adoção dos princípios e sua constitucionalização, fenômeno iniciado após o término da Segunda Guerra Mundial. [...]. Em suma, a segurança já não é vista com os olhos do Estado Liberal, em que tendia a prevalecer como valor, porque não serve mais aos fins sociais a que o Estado se destina.” (Ob. Cit., p. 135-136).
Conforme constou na Exposição de Motivos do Anteprojeto do Código de Processo Civil104,
encaminhado ao Presidente do Senado Federal pelo presidente da Comissão, o Ministro Luiz Fux, este apresentou os pilares do novo diploma legal, e assim procedeu consoante esse novo paradigma do processo civil ora abordado, em que se busca concretizar os direitos fundamentais no seio do processo.
Segundo o Ministro Luiz Fux, os trabalhos da Comissão se orientaram, precipuamente, em alcançar cinco objetivos: (a) sintonia com a Constituição Federal; (b) processo voltado para a realidade fática (autorregramento do processo); (c) simplificação; (d) processo com o maior rendimento possível; (e) coesão no sistema.105
No que tange ao primeiro objetivo, qual seja, um processo civil em sintonia com a Constituição Federal, o legislador encampou o atual estágio do processo (formalismo- valorativo).
Com efeito, o CPC recepciona a Constituição, constitucionalizando o processo.106 Para tanto, estabelece normas fundamentais que serão a bússola interpretativa do direito processual. Normas fundamentais são normas que estruturam a aplicação do direito dentro de um determinado ordenamento, para além do texto. O espírito das normas fundamentais é dar unidade de sentido e direção à aplicação do direito.107
As normas fundamentais do Código de Processo Civil orientam e direcionam a aplicação do direito processual brasileiro, ou seja, não se restringem ao processo civil. As normas
104 https://www.senado.gov.br/senado/novocpc/pdf/Anteprojeto.pdf. Salienta-se que o Código de Processo Civil de 2015 não contém Exposição de Motivos, o qual constou apenas do Anteprojeto apresentado pela Comissão ao Presidente do Senado Federal.
105 Além desses cinco objetivos do Anteprojeto, Cândido Rangel Dinamarco acrescenta: “A esses objetivos centrais, que constituem o núcleo essencial anunciado pelos reformadores, é lícito acrescentar duas outras linhas de largo espectro e muita relevância sistemática, que são (f) a adoção de um modelo colaboracionista, com a explícita e ampla imposição às partes do dever de cooperação de cada uma delas com o juiz (art. 6º) e, ao próprio juiz, do dever de dialogar com as partes (arts. 9º, 10 etc.), e (g) a nova estrutura do próprio Código de Processo Civil.” (O novo Código de Processo Civil Brasileiro e a ordem processual civil vigente. Revista de Processo, São Paulo, v. 247, p. 63-103, set/2015)
106 “Alguns poderiam dizer que a constitucionalização já havia ocorrido em 1988, uma vez não existir direito fora da Constituição Federal. Contudo, é bom compreender o tema em uma perspectiva histórica – o processo de constitucionalização leva tempo. A expressa menção, no novo diploma legal, do dever de interpretação conforme a Constituição (art. 1.º) é um grande passo adiante, pois é sabido o impacto que a Constituição de 1988 teve no direito processual, a começar por ter tal impacto, pela primeira vez na história brasileira, ampliado alguns princípios do processo penal para o processo civil. Constitucionalizar a lei infraconstitucional é um grande passo para apagar dois grandes problemas: a) expurgar antigas soluções individualistas e privatistas extremadas de processo, decorrentes do abuso dos direitos de liberdade das partes, do formalismo jurídico e do formalismo interpretativo; b) afastar antigas soluções publicistas radicais igualmente extremadas, decorrentes do abuso do papel do Estado-juiz no processo, sem a possibilidade de efetiva influência das partes e do Ministério Público nas decisões judiciais e sem o dever de debates do juiz para com as partes e para com o Ministério Público.” (ZANETI JR, Hermes. CPC/2015: O Ministério Público como Instituição de Garantia e as Normas Fundamentais Processuais. Revista Jurídica. Corregedoria Nacional, v. 2, 2017, p. 108).
fundamentais espalham sua normatividade para todo o direito processual, seja relacionando-se aos microssistemas, seja para os outros ramos do direito processual (art. 15, CPC).
Seguindo o modelo francês (Nouveau Code de Procédre Civile) e inglês (Civil Procedure
Rules), já no limiar do CPC (art. 1º), está estampado o perfil constitucional do processo civil,
ao preconizar que o “processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código.”
Normas fundamentais processuais foram inseridas nos doze primeiros artigos (arts. 1º a 12, CPC), mas também se encontram espalhadas por todo o diploma legal, a exemplo da fundamentação hermenêutica e analítica adequada (art. 489, § 1º, CPC) e os precedentes normativos formalmente vinculantes (arts. 926 e 927, CPC).108
Concernente ao segundo objetivo do CPC, qual seja, um processo voltado para a realidade fática, extrai-se o direito das próprias partes disciplinarem juridicamente suas condutas processuais (autorregramento do processo), de forma a concretizar o princípio da autonomia da vontade, que decorre do valor liberdade previsto na Carta Magna (art. 5º, caput).109
À guisa de ilustração dessa diretriz no CPC, pode-se citar: (a) o estímulo à conciliação e mediação (art. 3º, §§ 2º e 3º; arts. 165 a 175); (b) o prestígio à arbitragem (art. 3º, § 1º); (c) a previsão de negócios processuais típicos (ex: saneamento consensual, art. 357, § 2º; calendário processual, art. 191; distribuição do ônus da prova, art. 373, § 3º) e atípicos (art. 190110, como cláusula geral).
108 Nesse sentido: “As normas fundamentais tratam da constitucionalização do direito processual (art. 1º, CPC), do acesso à justiça pela tradicional porta do Poder Judiciário, mas também através da justiça multiportas (art. 3º, §§ 1º a 3º, CPC), do processo justo (art. 2º e 8º, disciplinando o princípio da demanda, os poderes de impulso oficial, os casos em que a legislação autoriza a relativização do princípio da demanda e dos poderes de impulso oficial para atingir a finalidade do processo, a exemplo do autorregramento da vontade e dos poderes instrutórios e de gerenciamento do processo pelo juiz), do princípio da primazia do julgamento de mérito (art. 4º, CPC), da boa-fé e da lealdade processual, com o controle objetivo do abuso de direito processual (art. 5º, CPC), da cooperação ou colaboração (art. 6º, CPC), do contraditório, preferencialmente prévio, mas também diferido e eventual, compreendido não apenas como direito de ação e reação, como simples bilateralidade da audiência, mas como direito de influência e dever de debates por parte do juiz (arts. 7º, 9º, 10, CPC), da duração razoável do processo (arts. 4º e 12, CPC), do autorregramento da vontade no processo (arts. 190 e 200, CPC), da fundamentação hermenêutica e analiticamente adequada (art. 11 e 489, § 1º, CPC), dos precedentes normativos formalmente vinculantes (arts. 926, 927, 489, § 1º, V e VI, CPC) e dos casos repetitivos (rectius: questões repetitivas, de direito material e processual, que impliquem técnicas de gestão adequada para resolução conjunta).” (ZANETI JR, Hermes, Ob. Cit., p. 104)
109 DIDIER Jr, Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. ed. Salvador: JusPodivm, 2015, p. 133, v. I. E assevera: “O princípio do respeito
ao autorregramento da vontade no processo visa, enfim, à obtenção de um ambiente processual em que o direito
fundamental de autorregular-se possa ser exercido pelas partes sem restrições irrazoáveis ou injustificadas.” 110 “Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo.”
No terceiro objetivo do CPC, a saber, a simplificação do procedimento, absorvendo o pensamento da fase instrumentalista do processo, pretendeu-se uma visão do processo como um meio (instrumento), e não um fim em si mesmo.
Com efeito, o CPC revela um processo como método de solução de problemas, e não meramente uma teoria descomprometida de sua finalidade (formalismo exacerbado).111
Cristalizando esse desiderato de simplificação112, ocorrera a extinção de exceções rituais (v.g., exceção de incompetência relativa), extinção dos incidentes de valor da causa, de falsidade e de declaração incidental, bem como extinção das ações cautelares típicas (processo cautelar). No que toca ao quarto objetivo do CPC, ligado ao processo com o maior rendimento possível, fora positivado o princípio da primazia do julgamento do mérito (art. 4º), de modo que o magistrado, inclusive em grau recursal, deve priorizar o julgamento do mérito, sempre que possível. Isso redunda no dever processual de o juiz sanear vícios processuais (arts. 139, IX e 488, ambos do CPC), determinando a parte a sua correção antes de proferir sentença sem resolução do mérito (art. 317, CPC)113, mesmo em grau recursal (art. 932, CPC).
Na esteira do referido princípio, ocorrera a ampliação da autoridade da coisa julgada às questões prejudiciais, na forma legal (art. 503, § 1º, CPC114), bem como fora extirpada a
impossibilidade jurídica do pedido como condição de ação, transformando-se em matéria de mérito. Pretende-se um processo mais efetivo, e menos burocratizado, com formalidades inúteis.
Por fim, respeitante ao último objetivo (coesão no sistema), o CPC pretendeu imprimir
111 Sobre esse formalismo exacerbado (e inútil), adverte Dinamarco: “Nós, doutrinadores e operadores do processo, temos a mente povoada de um sem-número de preconceitos e dogmas supostamente irremovíveis que, em vez de iluminar o sistema, concorrem para uma Justiça morosa e, às vezes, insensíveis às realidades da vida e às angústias dos sujeitos em conflito.” (DINAMARCO, Cândido Rangel. Nova era do processo civil. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 20-21)
112 A simplificação do procedimento se insere na terceira onda renovatória apontada por Capelleti e Garth. São três as chamadas ondas renovatórias defendidas por esses juristas: a primeira, voltada para uma assistência jurídica às partes hipossuficientes; a segunda, voltada para a tutela dos chamados “interesses supra-individuais”, especialmente aqueles relacionados aos consumidores e ao direito ambiental (interesses difusos e coletivos); a terceira, correspondente ao “modo-de-ser-do processo” (simplificação e racionalização de procedimentos visando à justiça mais acessível). (CAPELLETI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Hellen Gracie Northfleet. Porto Alegre: Fabris Editor, 1988).
113 Art. 317. Antes de proferir decisão sem resolução de mérito, o juiz deverá conceder à parte oportunidade para, se possível, corrigir o vício.
114 “Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida.
§ 1º O disposto no caput aplica-se à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentemente no processo, se:
I - dessa resolução depender o julgamento do mérito;
II - a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia; III - o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão principal.
§ 2º A hipótese do § 1º não se aplica se no processo houver restrições probatórias ou limitações à cognição que impeçam o aprofundamento da análise da questão prejudicial.”
organicidade às regras do processo civil brasileiro. Nesse sentido, fora criada a Parte Geral do CPC, bem como um Livro próprio que trata dos Processos nos Tribunais. Ademais, ocorrera a realocação de algumas cautelares típicas (ex. produção antecipada de prova, que fora transportada para o processo de conhecimento, art. 381) e hipóteses de intervenção de terceiros (oposição, que agora é um procedimento especial – art. 682).
2. DO MANDADO DE SEGURANÇA COMO INSTRUMENTO DE CONTROLE