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1. DOS PROCEDIMENTOS ESPECIAIS SOB A ÓTICA DA TUTELA ADEQUADA

1.3 FINALIDADE CONSTITUCIONAL DO PROCESSO

1.3.4 Processo Justo

Do princípio do devido processo legal (art. 5º, LIV, CF)93 emerge o direito fundamental ao processo justo no direito brasileiro.94

O direito ao processo justo visa obter uma decisão justa para as partes. Justo não é qualquer processo que se limita a ser disciplinado somente no plano formal. Justo é o processo que se desenvolve respeitando os parâmetros fixados nas normas constitucionais e de acordo com os valores da sociedade.95

O processo justo (giusto processo, procès équitable, faires Verfahren, fair trial) revela um "conteúdo mínimo essencial”96, um "núcleo forte ineliminável”97, sem o qual não se está

diante de um processo justo (no aspecto formal).

93 Eis a lição de Gilmar Ferreira Mendes a respeito do devido processo legal: “Atribui-se à Carta Magna inglesa, de 1215, a origem da cláusula do devido processo legal, e, por conseguinte, ao direito ao processo justo (fair

trial), que em seu art. 39 dispunha que ‘nenhum homem livre será detido ou sujeito a prisão, ou privado dos seus

bens, ou colocado fora da lei ou exilado, ou de qualquer modo molestado e nós não procederemos ou mandaremos proceder contra ele, senão mediante um julgamento regular pelos seus pares e de harmonia com a lei do país.’ [...]. A ideia mais geral constante dessa cláusula constitucional é que, no Estado Democrático de Direito, entre o individuo e a coação estatal incidente sobre seus bens e sua liberdade deve sempre se interpor um processo, devidamente conduzido por um juiz. [...] A noção de devido processo legal significa, portanto, a exigência de um processo justo. O processo justo não é apenas aquele que está formalmente preestabelecido em lei, mas o processo previsto de forma adequada e razoável para a consecução de sua finalidade primordial no Estado Democrático de Direito, que é a garantia e proteção dos direitos fundamentais. [...] o devido processo não é apenas o processo legal, mas o processo legal, justo e adequado.” (Comentários à Constituição do Brasil. J.J. Gomes Canotilho (coord). São Paulo: Saraiva/Almedina, 2013, p. 429/430).

94 Na Europa, o direito ao processo justo encontra-se expressamente positivado na Constituição da Itália (art. 111, inserido pela emenda de 23 de novembro de 1999: “La giurisdizione si attua mediante il giusto processo regolato dalla legge”) e de Portugal (art. 20.4: “Todos têm direito a que uma causa em que intervenham seja objecto de decisão em prazo razoável e mediante processo equitativo”).

95 TROCKER, Nicolò. Il nuovo articolo 111 della costituzione e il “giusto processo” in materia civile: profi li generali. Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile, anno LV, n. 2, 2001, p. 386.

96 COMOGLIO, Luigi Paolo. La Garanzia dell’Azione ed il Processo Civile. Padova: Cedam, 1970, p. 156. Para Luigi Comoglio, atento ao modelo internacional de garantias constitucionais do processo, esse conteúdo mínimo incluiria os componentes essenciais de igualdade entre as partes perante o juiz, a independência, imparcialidade e a prévia constituição por lei dos órgãos judiciais, a publicidade das audiências e das decisões judiciais, a duração razoável do processo, a efetividade do acesso à justiça, o contraditório e a defesa técnica em juízo, e o direito à prova. (I modelli di garanzia costituzionale del processo. Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile, anno XLV, 1991, p.689.)

97 PISANI, Andrea Proto. Giusto Processo e Valore della Cognizione Piena. Rivista di Diritto Civile. Padova: Cedam, 2002, p. 267. Para Proto Pisani, o núcleo forte e ineliminável da garantia do justo processo envolve o direito de as partes poderem influenciar no convencimento do juiz, poderes de ação e defesa e instrutórios às partes, dever de debate por parte do juiz, inclusive matérias apreciáveis de ofício, e duplo grau de jurisdição.

No direito pátrio, a doutrina apresenta o seguinte perfil mínimo de um processo justo: colaboração do juiz para com as partes, em processo capaz de prestar tutela jurisdicional adequada e efetiva, em que as partes participem em pé de igualdade e com paridade de armas, em contraditório e com ampla defesa, com direito à prova, perante juiz natural, em que seus pronunciamentos sejam confiáveis e motivados, em procedimento público, com duração razoável, com direito à assistência judiciária integral e coisa julgada.98

Ora, o ideal de justiça (que decorre de um processo justo) é um valor supremo previsto no Preâmbulo da Carta Magna de 1988, e que deve permear todo o ordenamento jurídico, sobretudo no âmbito do processo, com o desiderato de se obter uma decisão justa.

Entrementes, o conceito de decisão justa não está alicerçado na concepção filosófica da palavra “justiça”, mas entende-se como decisão justa aquela capaz de tutelar os direitos de forma adequada (ao direito material e às partes), tempestiva (em tempo razoável) e efetiva (realizada no mundo real), e que observe a unidade do direito (precedentes judiciais normativos formalmente vinculantes), já que, no Estado Democrático Constitucional, a finalidade do processo é a tutela dos direitos, de forma justa, adequada, tempestiva e efetiva.99

O processo deve conferir às partes o direito a um processo justo (por meio de direitos fundamentais processuais, a exemplo do juiz natural, contraditório, publicidade etc.), mas também deve assegurar um processo efetivo. Esses dois objetivos relevam dois valores essenciais, a dizer, o da segurança (processo justo) e da efetividade (processo efetivo), os quais se encontram em permanente tensão, em uma relação proporcional, pois quanto maior a efetividade, menor a segurança, e vice-versa.100

A conformação interna do processo atenderá aos valores imperantes em cada sociedade, ora prestigiando a segurança, ora a efetividade, devendo-se, através do postulado normativo101 da

98 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Código de Processo

Civil. Teoria do Processo Civil. 2. ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 493, v. I.

99 ZANETI JR, Hermes. CPC/2015: O Ministério Público como Instituição de Garantia e as Normas Fundamentais Processuais. Revista Jurídica. Corregedoria Nacional, v. 2, 2017, p. 128.

100 OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Teoria e Prática da Tutela Jurisdicional. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 124-125.

101 Sobre a diferenciação entre normas jurídicas de primeiro grau (regras e princípios) e de segundo grau (postulados normativos), consultar obra de Humberto Ávila (Teoria dos Princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 17 ed. São Paulo: Malheiros, 2016), bem como Robert Alexy, in verbis: “Lo que hasta ahora se há descrito, el nivel de la regla y el de los principios, no proporciona un cuadro completo del sistema jurídico. Ni los principios ni las reglas regulan por sí mismos su aplicación. Ellos representan sólo el costado pasivo del sistema jurídico. Si se quiera obtener un modelo completo, hay que agregar al costado pasivo uno activo, referido al procedimiento de la aplicación de las reglas y principios. Por lo tanto, los niveles de las reglas y los principios tienen que serem completados com un tecer nível. Em un sistema orientado por el concepto de la rãzona prática, este tecer nível pude ser sólo el de un procedimiento que assegure la racionalidade. De esta maneira, surge un modelo de sistema jurídico de três niveles que pede ser clamado modelo reglas/ principios / procedimiento”. (ALEXY, Robert. El Concepto y la Validez del Depreco. Barcelona: Geias, 1997, p. 173-174)

ponderação, realizar a eficácia prometida do direito material, com a maior efetividade e segurança possíveis. 102

A ação de mandado de segurança contém o perfil mínimo de um processo justo, pois se afigura possível a colaboração do juiz para com as partes (princípio da cooperação), a participação das partes em pé de igualdade e com paridade de armas (igualdade substancial), em contraditório e com ampla defesa, com limitação (justificável constitucionalmente) ao direito à prova para ambas as partes (o que não impede a discussão completa em ação ordinária), perante juiz natural, em que seus pronunciamentos devam ser analítica e concretamente motivados, em procedimento público sumário, com direito à assistência judiciária integral e à coisa julgada (nos limites do writ), onde é prestada uma tutela de direito efetiva, adequada e tempestiva.