• Nenhum resultado encontrado

As condições objetivas e subjetivas da pesca artesanal

CAPÍTULO

2. PESCANDO CONHECIMENTOS: TECENDO AS BASES TEÓRICAS

2.4 As condições objetivas e subjetivas da pesca artesanal

Considerando-se que a pesca artesanal constitui o meio de trabalho do grupo social a que esta pesquisa se direciona, faz-se necessária uma discussão acerca das características, especificidades, bem como das condições sociais e culturais dos trabalhadores e trabalhadoras envolvidos nesta modalidade.

A pesca artesanal é realizada em todo o litoral brasileiro, tal atividade pode representar maior ou menor importância de acordo com as características do núcleo populacional onde é realizada, como por exemplo, o nível de organização social e de trabalho do grupo, a demanda pelo produto gerado, a tecnologia empregada entre outros aspectos (ANDREOLI, 2007).

Nesse sentido, pode-se inferir que a referida modalidade de pesca exerce significativa importância em termos de produção pesqueira, geração de emprego e fornecimento de alimentos, pois, ao longo de toda a costa ou em águas interiores encontram-se indivíduos ou famílias, que a partir da realização da pesca artesanal articulam as condições objetivas de sua reprodução, como o acesso à alimentação e renda, como também condições subjetivas, como o conhecimento tradicional sobre o meio natural e o trabalho fortemente condicionado por dinâmicas ambientais (PASQUOTTO; MIGUEL, 2004).

Deste modo, a pesca configura-se não somente como uma atividade econômica, mas também como modo de vida. O cotidiano dos indivíduos envolvidos nesta prática mostra-se repleto de ensinamentos e aprendizagens. Por participarem ativamente deste ofício, os pescadores demonstram conhecimento sobre a biodiversidade local, assim como da utilização de artefatos e técnicas para a captura do pescado. Este conhecimento chamado tradicional

garante a obtenção da renda e da subsistência das famílias ao mesmo tempo em que possibilita a conservação dos ecossistemas. A realização destas estratégias de sobrevivência contribui para a manutenção de suas comunidades (ALBUQUERQUE; FISCHER, 2011).

Para Diegues, a pesca encontra-se descrita no ramo da produção mercantil de caráter familiar ou de vizinhança, ele define a pesca artesanal como sendo

aquela que os pescadores autônomos sozinhos ou em parcerias participam diretamente da captura, usando instrumentos relativamente simples. A remuneração é feita pelo sistema tradicional de divisão da produção em “partes” sendo o produto destinado preponderantemente ao mercado. Da pesca retiram a maior parte da sua renda, ainda que sazonalmente possam exercer atividades complementares (DIEGUES, 1983, p. 57).

Para sua realização utilizam-se embarcações de pequeno e médio porte, motorizada ou não, algumas construídas pelos próprios pescadores por meio da utilização de matérias primas-naturais. São simples os apetrechos e insumos utilizados, geralmente comprados nos comércios locais (MALDONADO apud ANDREOLI, 2007). De um modo geral, utilizam equipamentos básicos de navegação, sendo embarcações geralmente de madeira ou fibra de vidro. A simplicidade dos instrumentos (apetrechos) utilizados contribui para minimizar os efeitos dos impactos ambientais, possibilitando condições mais favoráveis de sustentabilidade dos recursos pesqueiros.

Outro ponto característico diz respeito às relações de parentesco e de amizade que se estabelecem. Os vínculos entre parentes e amigos possibilitam muitas vezes a introdução de homens e mulheres na atividade garantindo desta forma e manutenção da pesca artesanal nas comunidades. De fato, esse comportamento também pôde ser constatado na comunidade investigada pela presente pesquisa. Em relato, as pescadoras revelaram a preferência pelo trabalho com os familiares “Eu gosto de pescar com minha cunhada e meu marido, minha parentela”.

Sobre este aspecto Ramalho observa que

Os laços de parentela e amizade constituem uma das mais representativas características da pesca artesanal. Neste sentido, ingressar no mundo da pescaria desenvolvida artesanalmente por um grupo de trabalho embarcado é entrar num terreno frequentado por pessoas próximas, por gente conhecida, que já compunha o cotidiano desses indivíduos, facilitando os acordos a serem construídos no processo de trabalho, principalmente quando se estar no ambiente aquático (RAMALHO, 2006, p.139).

Por todos os aspectos mencionados, a pesca artesanal representa uma valiosa fonte de renda, alimentação, trabalho e conhecimento sobre as águas e os pescados, e por essa razão, pescadores e pescadoras fazem dos rios, estuários e mar, lugares de trabalho para sua sobrevivência.

Essa forma de exploração dos recursos pesqueiros não é apenas importante para os que dela retiram seu sustento, representando também um relevante papel na produção de alimentos, na conservação de ecossistemas, como os estuários e manguezais, e na proteção da biodiversidade marinha e ribeirinha.

A modalidade de pesca supracitada é praticada pelos chamados pescadores artesanais, definidos como aqueles que na captura e desembarque do pescado trabalham de forma autônoma ou utilizam força de trabalho familiar, com meios de produção próprios ou mediante contrato de parceria, utilizando diversas artes de pesca para a captura do pescado e embarcações de pequeno porte. Consideram-se ainda como fases desta atividade os trabalhos de confecção e reparos dos apetrechos de pesca, os reparos realizados em embarcações de pequeno porte e o processamento do pescado.18

Para Diegues o pescador artesanal é aquele que vive exclusivamente ou quase exclusivamente da sua profissão, ele passa a viver e a reproduzir suas condições de existência na pesca, voltada fundamentalmente para o comércio. Segundo o autor “[...] o mercado é o objetivo de sua atividade, ainda que o balaio ou cesto de peixe seja religiosamente separado antes da partilha, constitua uma das bases de sua sobrevivência e de sua família” (1983, p. 155).

Ainda conforme o mencionado autor, o pescador artesanal não é somente aquele que vive da pesca, mas que sabe dominar plenamente os meios de produção da pescaria, ou seja, “[...] possuem controle de como pescar e do que pescar, em suma, o controle da arte de pesca” (DIEGUES, 1983, p. 28). Saberes que são adquiridos através do aprendizado perceptivo e contribuem para superação dos desafios encontrados pelos pescadores no cotidiano da

profissão.

O conhecimento aprofundado sobre os ciclos naturais e a oralidade na transmissão desse conhecimento são características importantes na definição dessa cultura. Sobre estes conhecimentos Andreoli e Silva (2008) definem como um conjunto de saberes simbólicos e

práticos sobre o comportamento, a reprodução e os hábitos das espécies, bem como dos ciclos naturais. Tais conhecimentos muitas vezes podem constituir uma rica fonte de informações, de como manejar, conservar e utilizar os recursos naturais de uma maneira sustentável. Desse

modo, à medida que as populações se ambientaram em determinadas regiões, foram consolidando os conhecimentos sobre o meio, seus limites e potencialidades, que implicaram na elaboração de técnicas adaptadas, estruturação de dietas e sistemas produtivos diversificados, relacionados à dinâmica dos ecossistemas.

Além de produzir conhecimento que garante o sustento da família, a relação do (a) pescador (a) com ambiente constitui também uma expressão do modo de vida das comunidades de pescadores (as). É o que revela o trabalho de pesquisa realizado por Nunes (2010), que buscou analisar o modo como uma comunidade do Povoado Mosqueiro, Aracaju/SE, que vive da pesca, tem se relacionado com a natureza (o mangue, o rio, o estuário), dando sentido e significado ao Mosqueiro enquanto um povoado de pescadores, ao mesmo tempo em que a cidade em processo de expansão impõe um modo de vida urbano e novas necessidades. Diante do referido contexto, o estudo indica que a pesca viabiliza o desenvolvimento de uma identidade que permite que os pescadores permaneçam na profissão apesar das dificuldades que lhes são inerentes. Do mesmo modo, ao desenvolver a atividade

pesqueira aqueles sujeitos estão também determinando a identidade do local onde vivem. Assim, o desenvolvimento da pesca possibilita a afirmação de um conjunto de saberes e práticas que define a identidade não só dos pescadores, mas também dos locais onde vivem e trabalham.

O agir da comunidade é característico de sua visão de mundo e se fundamenta na leitura da natureza construída com o tempo em torno da intuição, percepção e vivência. Conforma assim, uma maneira de apropriação dos espaços e recursos naturais que, segundo Diegues (2002), resulta na proteção, conservação e potencialização da diversidade biológica.

Portanto, a pesca artesanal constitui uma prática circunscrita às comunidades tradicionais. Segundo Diegues (2005), as comunidades tradicionais correspondem a grupos de populações que sobrevivem da dependência direta com meio natural, de seus ciclos e de seus produtos, o que se configura enquanto principal fator para a produção e reprodução de seu modo de vida.

A relação das comunidades tradicionais com a natureza apresenta uma série de normas e critérios de uso comum da terra, da água, das florestas, da extração e plantio desenvolvidos

no contexto sociocultural que tem como base a solidariedade e a partilha. Tais grupos sociais apresentam uma organização econômica e social com reduzida acumulação de capital, mediante desenvolvimento de uma produção de pequena escala mercantil em uma relação direta com ambiente natural. Os meios de produção como a pesca, a agricultura, o artesanato, o extrativismo, entre outros, são, em vários contextos, desenvolvidos concomitantemente, traçando um perfil de diversificação das atividades econômicas vinculadas aos ciclos ecológicos (CANDIDO, 1964; DIEGUES, 2000).

O extrativismo vegetal, a pesca, a agricultura itinerante, a pecuária extensiva estão entre as atividades econômicas mais importantes de grande parte desses grupos que mantiveram com a sociedade global e o mercado relações de maior ou menor intensidade, quase sempre garantindo parte de sua alimentação com produtos de suas terras, rios e mares.