CAPÍTULO
2. PESCANDO CONHECIMENTOS: TECENDO AS BASES TEÓRICAS
2.1 Origem e peculiaridades da atividade pesqueira
A pesca é uma das atividades produtivas mais antigas da humanidade. Em períodos anteriores ao aparecimento da agricultura, ela representou uma importante fonte de alimento para as sociedades primitivas.
No Brasil, o desenvolvimento desse ofício antecede a chegada dos navegadores portugueses. Os indígenas já capturavam peixes, moluscos e crustáceos, que constituíam parte importante de sua dieta alimentar. Este trabalho continuou a se desenvolver no Brasil Colônia e deu origem a inúmeras culturas litorâneas ligadas à pesca, entre as quais se destacam a dos jangadeiros, em todo litoral nordestino, a dos caiçaras, no litoral entre Rio de Janeiro e São Paulo, e a dos açorianos no litoral de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (DIEGUES, 1999).
Tais grupos societários tiveram origem com a miscigenação entre índios, europeus e negros, originando, assim, uma cultura6 particular que os diferenciam de outras comunidades
6 A cultura corresponde ao conjunto dos comportamentos, saberes e saber-fazer característico de um grupo
do interior e centros urbanos do país. Da cultura indígena, as populações litorâneas herdaram o preparo do peixe para a alimentação, o feitio das canoas e jangadas, as flechas e os arpões; da cultura portuguesa, herdaram os anzóis, pesos de metal, redes de arremessar e de arrastar; e da cultura negra, herdaram a variedade de cestos e outros utensílios utilizados para a captura dos peixes (DIEGUES, 1983).
Em Sergipe, as comunidades pré-históricas, denominadas de Cultura Canindé ou Xingó, Tradição Aratu e Tradição Tupi-Guarani salvo as peculiaridades inerentes ao seu modo de vida, compartilharam traços comuns, como, por exemplo, a forma de apropriação do espaço e a realização da pesca como principal atividade. O primeiro grupo pertencente à Cultura Canindé ou Xingó, ocupou áreas hoje identificadas como terraços e ilhas, atraídos pela presença abundante de água. Desenvolveram caça, coleta e a pesca/catação de mariscos. Já o segundo grupo (Tradição Aratu) encontrava-se por toda a faixa litorânea, suas aldeias localizavam-se próximo a riachos afluentes e em área de floresta (mata atlântica), tendo como principal trabalho a caça e a coleta. O terceiro agrupamento (Tradição Tupi-Guarani) também localizado em áreas litorâneas próximo às bacias dos rios São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris, Piauí e Real. Realizavam a pesca, a caça e a agricultura como principais atividades. Acerca disso, cabe destacar que diferentemente dos anteriores, eram hábeis em construir canoas para facilitar a locomoção (SANTOS, 2012).
Seja enquanto fruto da herança sociocultural desses povos indígenas, seja decorrentes de suas identidades, outros grupos tiveram sua fonte de subsistência assentada na pesca, como outras tribos indígenas, quilombolas e aqueles que eram exclusivamente pescadores, cujo fazer cultural foi construído a partir de uma intrínseca relação com os recursos hidrográficos sergipano. Por esta razão, fazem-se necessárias discorrer algumas considerações acerca destas populações (SANTOS, 2012).
Os Xocós constituem a única etnia indígena remanescente do Estado7, localizada na Ilha de São Pedro, município de Porto da Folha às margens do Rio São Francisco. A pesca era praticada no Rio São Francisco e lagoas existentes na região, constituindo, além de fonte de alimento, uma importante fonte de renda, pois o excedente do pescado era comercializado. Atualmente, em razão da construção de hidrelétricas e de obras destinadas a contenção de transmitida ao conjunto de seus membros (Kroeber apud Laplantine, 2007, p. 120). Esta constitui uma das cinqüenta definições do termo cultura elaboradas por Kroeber um dos mestres da antropologia americana.
7 Existiram em Sergipe mais de dez tribos indígenas, destas, muitas foram expulsas do território sergipano,
enchentes, houve o desaparecimento de importantes espécies de peixe, fato que contribuiu para uma diminuição significativa das pescarias. A pesca só não desapareceu por completo graças à existência de uma complexa rede de lagoas e tanques que oferece a esta comunidade indígena a possibilidade de exploração da piscicultura em cativeiro (FUNAI, 2012).
Já as comunidades quilombolas ocuparam (e ainda ocupam) áreas rurais do Estado banhadas por rios e marés, obtendo da pesca artesanal e da agricultora suas principais formas de sobrevivência, associadas em alguns casos, ao artesanato (SEMARH, 2010).
Mas são os pescadores que constituem o principal grupo que depende e que produziu formas ricas de apropriação dos recursos pesqueiros. Essas populações se formaram ainda no período colonial, desenvolvendo relações sociais e de subsistência, com modos de vida particular, que garantiam o manejo sustentável dos recursos naturais, resultado do conhecimento de várias gerações. A identidade com o lugar expressa e é a expressão dos laços culturais. Os pescadores constituem um grupo que, também, na sua luta pela subsistência, conjuga essa atividade com outras, como a agricultura e a produção de artesanato, em algumas localidades. No estado de Sergipe, estas comunidades tradicionais de pesca são representadas pelas 24 colônias de pescadores existentes tanto no litoral como no interior do Estado (SEMARH, 2010).
Diante do exposto, depreende-se que a exploração dos recursos pesqueiros, assumiu importância não somente econômica, mas também cultural e simbólica. Sociedades inteiras em determinados períodos históricos dependeram quase que exclusivamente desta atividade para a reprodução social de seus membros (Diegues, 2004). Esta dependência se deu não apenas no passado, atualmente inúmeras populações das mais diversas regiões do mundo encontram na pesca sua fonte de subsistência e renda.
No Brasil a atividade pesqueira assume formas diferenciadas, haja vista a combinações dos fatores produtivos, das relações sociais que se estabelecem e as particularidades naturais de cada ambiente pesqueiro. A esse respeito Diegues (1983), discute três categorias essenciais, a saber: a pesca de autossubsistência ou primitiva, pesca de pequena produção mercantil e a pesca capitalista.
A pesca de autossubsistência é desenvolvida por pequenos agrupamentos humanos,
onde a atividade é somente uma dentre outras de subsistência. Ela é realizada em sociedades nas quais a produção de valores de uso é central, com reduzida mediação da moeda nas trocas
existentes. Já a pesca de pequena produção mercantil, o produto final, ou seja, o pescado é uma mercadoria. Dentro desta forma de organização, encontram-se duas sub-formas: a produção dos pescadores-lavradores8 e a produção dos pescadores artesanais9. Por fim, a produção capitalista, caracteriza-se pela realização da pesca por empresas organizadas em diversos setores (captura, industrialização e comercialização) visando somente à produção de mercadorias em que há separação entre trabalho e capita (DIEGUES, 1983)
A pesca constitui uma atividade complexa. Além dos fatores socioculturais e econômicos anteriormente mencionados, sua realização pode diversificar-se ainda em razão das variedades de habitats, ecossistemas e espécies de pescado, inibindo uma forma homogenia de expressar-se em todos os lugares e regiões. Tais aspectos contribuem para utilização de uma multiplicidade de apetrechos de pesca, no sentido de melhor adaptar a atividade aos tipos de habitats, de correntes e marés, tipos de fundo, comportamento dos peixes, crustáceos e moluscos, além das peculiaridades inerentes ao modo de vida dos pescadores (VASCONCELLOS, et al, 2007).
A exploração dos recursos pesqueiros é realizada nos mais diversos ecossistemas aquáticos. A pesca marítima ou oceânica se caracteriza pela separação da terra com o mar. Neste ambiente, a pesca é caracterizada pela mobilidade das espécies, sobretudo, o peixe, razão que obriga os pescadores estarem sempre migrando de um ambiente para outro (DIEGUES, 1995).
A pesca realizada em rios, estuários, mangues, praias, baías e lagos é denominada estuarina, continental ou de águas interiores. Os recursos pesqueiros provenientes deste tipo de pesca destacam-se em qualidade e em volume, devido à diversidade dos tipos de corpos d´água existentes (RAMOS, 1999). Sobre esta modalidade, Ramalho (2006) acrescenta ainda a forte dependência do meio natural, sua realização é orientada pelas fases lunares, pelo ritmo das marés e a existência de cardumes. Isto significa dizer que o horário e a duração do
8 A produção dos pescadores-lavradores é uma atividade ocasional, a propriedade típica de produção é a
doméstica (familiar e/ou grupo de vizinhança), o pescado é tanto para o consumo quanto para a venda constituindo-se umas das principais fontes de dinheiro disponível para a compra de algumas mercadorias essenciais. Assim, a pesca corresponde a uma atividade complementar destinada a produzir valor de troca (DIEGUES, 1983, p. 161).
9 Aqui a pesca deixa de ser uma atividade complementar para tornar-se a principal fonte de produção de bens
destinados à venda. A atividade pesqueira passa a ser a principal fonte de renda, propiciando, em determinadas situações, uma maior produção de excedentes. Esse novo tipo de pesca caracteriza por explorar ambiente marinhos e costeiros, exige conhecimentos mais específicos que os utilizados pelo pescador-lavrador. É somente neste estágio que surge o pescador artesanal como tal, que passa a viver exclusivamente ou quase exclusivamente da sua profissão (DIEGUES, 1983, p. 155).
trabalho dos pescadores é determinado pelo ciclo das águas e das condições naturais de cada habitat. Por esta razão, as pessoas que se ocupam do trabalho pesqueiro possuem um modo de vida diferenciado dos demais grupos, como os agricultores, pois, de acordo com Ramalho (2006) existem aspectos que fazem da pesca uma atividade singular, dentre eles, o desenvolvimento de estratégias que permitem aos pescadores lidarem com a inconstância do mar. A este respeito Skinner e Turekian teorizam que “[...] quando lançada ao mar, nunca se sabe o que, nem o quanto ou a qualidade do produto que uma embarcação trará à terra, nem tampouco em que espaço de tempo” (apud RODRIGUES; GIUDICE, 2011, p. 120).