• Nenhum resultado encontrado

Vivenciando a Ilha do Beto: conhecendo a realidade

Este capítulo está estritamente relacionado à análise dos resultados obtidos por meio das observações in locus e das entrevistas realizadas com 13 (treze) pescadoras residentes na

3.13 Vivenciando a Ilha do Beto: conhecendo a realidade

Conforme foi observado, a prática pesqueira constitui o principal motivo para a permanência das pescadoras na Ilha, mas não somente isto. A atividade constitui o fator responsável para o desenvolvimento do “gosto” dos moradores pelo lugar, é o que se pode constatar nos fragmentos a seguir

Gosto daqui porque é o local da minha maré, local que vivo, é perto, é muito bom, é o local que vivo e trabalho, se não fosse aqui eu tava era morrendo de fome! (P. F. 46 anos)

Aqui é muito bom, todo mundo gosta, acostuma, é dia a dia, quando não podia vir ficava doidinha em casa. Eu me sinto bem aqui não só por causa do

bem estar, mas porque aqui sempre tô fazendo alguma coisa. Aqui a gente pesca, busca lenha, água tudo a gente faz aqui (P. V. 53 anos)

Gosto porque aqui tem uma coisinha, tem outra, e aqui tem sempre como levar alguma coisa pra casa! (P.C. 43 anos).

Eu sou feliz e sinto prazer de tá aqui, porque é daqui que tiro o meu pão! (P. N. 54 anos).

Outras características do lugar como a tranqüilidade e as relações de amizade estabelecidas entre os indivíduos foram apontadas como importantes elementos para o desenvolvimento do gosto pela Ilha.

Gosto daqui porque é alegre, os amigos aqui é tudo é amigo mesmo, uma família! (P. JO. 54 anos).

Gosto daqui, se eu pudesse trazia todo mundo pra cá, porque aqui tem uma paz, um sossego! (P. VH. 45 anos).

Viver aqui na Ilha é muito bom, não tem lugar melhor pra gente viver do que aqui, é muita tranqüilidade! (P. AL. 69 anos).

A satisfação expressa nos relatos foi observada in locus durante o período de trabalho de campo. À noite ou à tarde, por exemplo, mesmo que os pescadores e as pescadoras não saiam para a atividade, compartilham o hábito de ficar nas portas dos barracos conversando e ouvindo música. Chama atenção a conversa, as risadas e a animação, este comportamento sem dúvida, constitui uma característica particular de sociabilidade do grupo.

A Ilha desperta também um forte interesse nos jovens, filhos de pescadores, que diferentemente dos pais, buscam o lugar para o lazer e diversão durante os finais de semana, atraídos pelo banho de rio, o caranguejo e as aventuras quando saem à procura de frutas na mata, é desta forma que os jovens usufruem e aproveitam a Ilha

As meninas vêm pra Ilha principalmente no final de semana pra tomar banho, comer caranguejo. A gente sai também atrás de manga e adicuri. Quando tem muita gente a gente fica até tarde da noite conversando, jogando baralho e ouvindo música. Aqui é bom! (Filha de pescadores).

Por constituir-se o lugar onde encontram alimento, trabalho e renda, as pescadoras manifestam o curioso desejo de não deixar definitivamente a Ilha, mesmo que não necessitem

mais sobreviver da pesca após a conquista da aposentadoria, conforme enfatiza esta passagem.

Não penso em sair daqui, porque não penso em parar de pescar. Quando me aposentar, venho pra cá nem que seja de vez em quando! (P. JO. 54 anos).

O apego em relação ao lugar está fortemente associado à atividade pesqueira, como pode ser verificado nestes relatos “[...] não penso em sair daqui, porque aqui dá pra viver da pesca” (P. G. 44 anos), ou ainda “[...] eu já me acostumei aqui, e além do mais, é daqui que a gente sustenta a família” (P.C. 43 anos), “[...] só me sinto bem aqui, não quero sair desse lugar, nasci e me criei pescando (P. AL. 69 anos)”, [...] esse lugar é tudo pra mim é o meu sustento e onde me sinto bem (P. V. 53 anos).

Todavia, é interessante observar que as pescadoras apontam outros elementos como relações de amizade, a paz, o sossego e a beleza das paisagens como fatores responsáveis pela manifestação do sentimento de afeição ao lugar. Os laços afetivos são também identificados no entusiasmo ao falar do lugar ou dos elementos que compõe a paisagem. As formas como as pescadoras se referem à maré, ou a emoção quando alcançam êxito na pesca, constituem bons exemplos a este respeito, como elucidam os relatos abaixo

Eu gosto mais daqui do que minha casa em Itaporanga, porque aqui é sossegado, todo mundo é amigo, este lugar é uma paz para o pescador, aqui tem uma natureza que é muito importante e bonita (P. JU. 57 anos).

Ah minha filha quando você (pescadora se referindo à pesquisadora) vier passar uns dia aqui, você vai ver que maravilha que é! Da próxima vez que você vier, me avise que eu pego você lá em Itaporanga, pra gente vim de barco lá por cima pra você ver como é bonito isso aqui! (P. V. 53 anos). Já vem ela... Oh mulher deixa a gente ficar só mais um pouquinho (expressões utilizadas pelas pescadoras ao perceberem a maré enchendo, durante a coleta do muçunim) (Diário de Campo).

É bonito quando você ver a redinha cheia de camarão... é bonito! (P. N. 54 anos).

Era tanto camarão, coisa mais linda ver eles com os olhinho tudo brilhando! (P. S. 44 anos).

Outras pescadoras também expressaram a preferência pela Ilha em detrimento à cidade Itaporanga, mesmo em períodos de feriado prolongados e festas, como ressaltam os relatos, desta forma a Ilha assume o significado também de alegria

Quer ver animado aqui é nas festas, carnaval, São João, final de ano. Esse carnaval aqui mesmo, foi gente que não cabia (P. C 43 anos).

Tem feriado que muita gente prefere de tá aqui mesmo do quê em Itaporanga, a Ilha nunca fica só! (P. AL. 69 anos)

Depreende-se a partir do exposto que a pesca constitui o principal fator para o desenvolvimento de sentimentos e afetividade para com o lugar. Assim, a Ilha do Beto corresponde não somente ao local onde é possível atender as necessidades de trabalho e renda, mas também o lugar onde são estabelecidas importantes relações afetivas entre os indivíduos, e entre estes e o entorno.

Pode-se afirmar que os predicados atribuídos à Ilha pelas pescadoras admitem tanto significados objetivos como o trabalho e a subsistência possibilitados a partir do desenvolvimento da pesca artesanal, quanto significados subjetivos, os quais se destacam por sua multiplicidade como a alegria, o prazer, o sossego, a paz, a afetividade, as interações entre os indivíduos e as experiências e vivências daqueles em relação ao lugar. Tais elementos sem dúvida devem ser valorizados para compreensão dos grupos sociais, como assinalam Martins e Silva (2011), assim como das interações destes com o entorno socioambiental.