CAPÍTULO
2. PESCANDO CONHECIMENTOS: TECENDO AS BASES TEÓRICAS
2.7 O ingresso da mulher na pesca: diferentes razões
As pescadoras aparecem como novos atores a partir das discussões sobre a Constituinte da Pesca, movimento realizado em 1988, que contou com a participação de representantes de colônias, principalmente das regiões norte e nordeste, cujo objetivo
consistiu em reivindicar seus direitos sociais a fim de que fossem assegurados pela nova Constituição Federal (RAMALHO, 2012; RODRIGUES, 2012).
Quando se faz referência ao trabalho feminino na exploração dos recursos pesqueiros, trata-se geralmente da confecção e reparo dos apetrechos de pesca, beneficiamento do pescado, coleta de crustáceos e mariscos nas proximidades de casa tudo isso associado a outras tarefas em terra (ÁLVARES; MANESCHY, 2011).
O ingresso da mulher na pesca pode assumir diferentes razões a depender do contexto econômico e social no qual está inserida. Neste sentido, observa-se que não há uma homogeneização de sua atuação neste setor uma vez que ela pode se mostrar mais expressiva em um determinado segmento da atividade que em outro.
No norte e nordeste do país, por exemplo, algumas mulheres ingressam no setor pesqueiro após a morte de seus maridos. A mariscagem19 é a atividade que mais emprega mulheres, contribuindo para o aumento da renda familiar. Em muitos casos, além de trabalharem no processamento primário do pescado, são responsáveis também pela venda da produção na praia (VASCONCELLOS et al, 2007).
Ramalho (2006) explicita em seu estudo20 que o processo de inserção da mulher se deu inicialmente de forma indireta, ou seja, a ela cabia a responsabilidade da comercialização dos produtos capturados por seu companheiro, o reparo dos artefatos utilizados para a captura do pescado e a introdução dos seus filhos na atividade pesqueira. Faz-se necessário observar, que mesmo quando a mulher estava diretamente envolvida com a pesca, realizando a catação ou a mariscagem, isto se dava, sobretudo, para complementar a alimentação da família.
Posteriormente, o aumento do desemprego e a queda do poder aquisitivo familiar atuaram como fatores preponderantes para que o trabalho feminino assumisse outra conotação. As
mulheres tiveram que buscar novas alternativas de geração de renda, levando-as a adentrarem no ramo da pesca, passando a assumir importante participação na formação da renda familiar.
19
Prática de captura e/ou coleta de mariscos e moluscos realizada em estuários, rios, mangues, entre outros ambientes a depender da região.
20 O trabalho de Ramalho não trata diretamente da questão de gênero na pesca artesanal, mas, das estratégias de
reprodução social adotadas por pessoas que têm na pesca artesanal sua principal fonte de sobrevivência em duas comunidades no Estado de Pernambuco. Todavia, devido ao fato do autor tecer comentários sobre a razão pela qual a mulher adentrou na pesca artesanal na localidade estudada (Itapissuma/PE), fez-se, então, necessário fazer referência a sua obra.
Outra razão para a participação da mulher na pesca é apontada por Woortmann (1992), que ao analisar a relação da mulher com a pesca artesanal no Rio Grande do Norte, discute sua inserção neste setor a partir da perda de seu espaço/ambiente. Este processo ocasionou transformações no espaço, alterando, por conseguinte, as formas de atuação da mulher nos mesmos.
Para a autora o espaço admite formas diferenciadas de apropriação e utilização. Nessa perspectiva, o mar corresponde ao domínio dos homens, enquanto a terra é domínio de trabalho das mulheres. Assim, cabia a elas a responsabilidade com a casa, e com o sítio onde cultivam frutas e criavam animais. Ainda sob sua incumbência inscreve-se a preparação de insumos utilizados na atividade masculina da pesca, além disto, compete a ela o tratamento do pescado, por meio da secagem e salga, para o consumo doméstico e/ou comercialização. Somente nos períodos em que o mar não rendia o suficiente, é que sua participação na pesca acontecia de forma direta, assim, recorria-se ao mangue e por meio da coleta de crustáceos e moluscos conseguia-se o alimento destinado para o consumo familiar e em pequena escala à venda. Era neste período que o trabalho da mulher era posto em evidência quanto à função de suprir as necessidades da família (WOORTMANN, 1992).
Esse contexto, porém, foi significativamente modificado a partir dos anos 1950 do século XX, quando foi instaurado o princípio de mercado, responsável pela alteração do ambiente natural/social e da condição da mulher. A transformação social é acarretada principalmente em razão da perda de espaço no qual as mulheres realizavam suas atividades. As terras gradativamente vão se tornando privadas, restando-lhes apenas áreas de difícil acesso ou pouco adequadas ao cultivo, diminuindo inicialmente e se extinguindo posteriormente as possibilidades da mulher produzir alimentos e insumos.
Dessa forma, concretiza-se a transformação do espaço tradicional da mulher, imprimindo assim uma brusca inversão de tarefas, pois se antes a terra era o espaço de trabalho da mulher, agora se tornou espaço de trabalho do homem, ou seja, “[...] de espaço autônomo voltado para a subsistência, a terra se tornou espaço de trabalho assalariado, subordinado e voltado para o mercado” (WOORTMANN, 1992, p. 37).
O estudo implementado pela supracitada autora revela que o processo de alteração de espaço promoveu também alterações nas relações de gênero no que confere ao grupo social aqui referenciado. Se antes a mulher alimentava a família com os produtos da roça, assim como ajudava na manutenção da atividade de pesca do seu companheiro, a partir dos
instrumentos que produziam para a coleta/captura do pescado, agora elas assumem um papel de dependência do marido, seja do peixe que ele traz para casa, como alimento, seja do dinheiro auferido pela venda do pescado.
Outra alteração que concerne ao processo de mudanças iniciados nos anos 1950 e completado nas décadas posteriores, diz respeito à forma de utilização do ecossistema manguezal, se antes os produtos coletados eram destinados à alimentação da família em períodos de escassez, agora a captura de tais produtos tem como finalidade primordial a comercialização, obrigando as mulheres a buscarem os mangues como alternativa de sustento e renda.
Pode-se inferir que o processo inicial de atuação do gênero feminino na pesca é marcado pela modificação de suas funções, pois, se antes conforme elucidam Maneschy e Álvares (2010), sua participação estava restrita às fases pré e pós-captura, ligadas a confecção dos instrumentos e a conservação do pescado, hoje sua atuação abrange os diversos segmentos que envolvem esta atividade, seja trabalhando diretamente nas margens de rios, estuários e manguezais na captura de crustáceos e moluscos (marisqueiras), na confecção e reparo das redes (tecedeiras) e/ou outros apetrechos utilizados na captura do pescado, no beneficiamento para a conservação dos produtos, assumindo papéis na diretoria, presidência ou como membro de colônias ou associações, além de exercerem suas responsabilidades no seio familiar com o cuidado com a casa, o marido e os filhos (SANTANA, 2009). Desta forma, observa-se que de diferentes modos as mulheres desempenham papéis imprescindíveis para a manutenção de suas comunidades e perpetuação da pesca artesanal.
Depreende-se a partir do exposto, que o processo de inserção da mulher no universo da pesca não constituiu um processo fácil, haja vista as diferentes razões que as levaram a adentrarem neste ramo, em decorrência da ausência dos seus companheiros como destaca Vasconcellos et al (2007), do desemprego e do baixo rendimento familiar como bem coloca Ramalho (2006), ou da perda de seu espaço de trabalho conforme esclarece Woortmann (1992). O que se pode observar a partir dos estudos levantados, é que, de diferentes formas as mulheres assumiram (e ainda assumem) importantes funções no universo da pesca, seja trabalhando diretamente na captura do pescado, na confecção e reparo dos apetrechos, no beneficiamento do pescado ou na comercialização deste. É desta forma que elas garantem não somente a produção de alimento e geração de renda para sua família, mas também a manutenção da própria atividade pesqueira mediante manipulação dos recursos, introdução
dos filhos e transmissão de conhecimentos, apesar das condições adversas enfrentadas na profissão.