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Aspectos Gerais da atividade pesqueira em Sergipe

CAPÍTULO

2. PESCANDO CONHECIMENTOS: TECENDO AS BASES TEÓRICAS

2.2 Aspectos Gerais da atividade pesqueira em Sergipe

O Brasil produz mais de um milhão de toneladas de pescado por ano, segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), o setor gera cerca de 3,5 milhões de empregos diretos e indiretos e ocupa, hoje, 800 mil profissionais entre pescadores e aquicultores (FAO, 2012). Trata-se de um setor intensivo em força de trabalho, ocupando a grande maioria dos trabalhadores do mar. A pesca realizada em pequena escala artesanal e de subsistência responde por mais de 50% do total mundial de capturas e emprega cerca de 98% dos 51 milhões de pessoas diretamente envolvidas com a coleta e processamento dos recursos marinhos (BERKES et al apud REBOUÇAS, et all 2006). No Brasil são produzidos por ano 1 milhão e 240 mil toneladas de pescado, deste total, a pesca artesanal responde por cerca de 45% (MPA, 2011).

Em Sergipe as modalidades de pesca marítima e continental/estuarina caracterizam-se da seguinte forma: na primeira, realizada em alto mar, o principal produto capturado é o camarão (CEPENE, 2007). A pesca do peixe ocorre, em menor quantidade, em razão das limitações estruturais das embarcações. A segunda modalidade é realizada em diferentes ambientes como rios, estuários, lagos, açudes e mangues. Esta variedade de ambientes contribui para uma diversificação do pescado em relação à primeira. As pescarias geralmente são diárias e dependem das marés. Utilizam como principal equipamento de captura a rede de emalhar (em diversas formas e comprimentos), arrastão de praia, tarrafa, linhas (linha de mão e pequenos espinhes, denominados grozeira) e redinha (pequeno arrasto manual) (CEPENE, 2007). Segundo estudo de Ramos (1999) a pesca continental/estuarina de pesca apresenta uma

função social altamente relevante, pois constitui a fonte de existência de inúmeras famílias no Estado envolvidas direta ou indiretamente nesta modalidade.

De acordo com o Ministério da Pesca (2012), além das referidas modalidades a produção de pescado no Estado também é proveniente da Aquicultura10, muito presente e desenvolvida na região Sul e Metropolitana, com o cultivo de camarão (principalmente) e peixe.

Sergipe possui um total de 26. 104 pescadores ativos (homens e mulheres), dos quais 25.000 são regularmente filiados às colônias. Existem 23 colônias em funcionamento das quais 06 são presididas por mulheres, a saber: Amparo do São Francisco, Barra dos Coqueiros, Itaporanda D´Ajuda, Santa Luzia, Propriá e Aracaju (MPA, 2012).

O Estado sergipano possui a menor dimensão territorial do país, entretanto esta característica não compromete a riqueza da biodiversidade local, a qual se apresenta de forma heterogênea e com características distintas de acordo com cada região: litoral, agreste e semi- árido.

A linha litorânea possui aproximadamente 163 km, apresentando em sua extensão os estuários11 dos rios São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris e Piauí/Real (ESTUDOS BIOLÓGICO E SOCIOECONÔMICO RESEX DO LITORAL SUL DE SERGIPE, 2007), além de outros

ecossistemas como manguezais12, praias e restingas13. Tais ambientes apresentam uma rica biodiversidade com a presença de crustáceos (caranguejo (Carcinus maenas), siri (Callinectes

sapidus), aratu (Goniopsis cruentata), guaiamum (Cardisoma guanhumi) e camarão), moluscos (sururu (Mytella falcata), ostra (Crassostrea rhizophorae), maçunim14 (Anomalocardia

brasiliana) e variedades de peixes). Espécies essas que apresentam importante valor para o

10 Cultivo de organismos cujo ciclo de vida em condições naturais se dá total oi parcialmente em meio aquático.

Assim como o homem aprendeu a criar aves, suínos, bovinos, bem como a planta milho e trigo, também aprendeu a cultivar pescado. Desta forma, assegurou produtos para o consumo com mais controle e regularidade. Definição extraído do site do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), www..mpa.gov.br

11Os estuários são ambientes de transição entre o oceano e o continente, ocorrendo nas desembocaduras dos

rios, resultando na diluição da água salgada. Em condições naturais, são biologicamente mais produtivos por apresentarem altas concentrações de nutrientes, favorecendo a produção primária, podendo ter ou não manguezais em seus domínios (MIRANDA et al., 2002).

12Ecossistema influenciado pelo regime da maré e descarga fluvial que apresenta formação arbustiva-arbórea de

espécies adaptadas a alta salinidade e com fauna típica associada. (ESTUDOS BIOLÓGICO E SOCIOECONÔMICO RESEX DO LITORAL SUL DE SERGIPE, 2007)

13 Tipo de vegetação localizada nas áreas de terra firme que sofrem maior influência dos depósitos arenosos

marinhos. Possui vegetação predominantemente rasteira, arbustiva e arbórea de pequeno porte (ESTUDOS BIOLÓGICO E SOCIOECONÔMICO RESEX DO LITORAL SUL DE SERGIPE, 2007)

consumo e comercialização contribuindo significativamente para o desenvolvimento da pesca na região.

O litoral sul do Estado é compreendido por cinco municípios: São Cristóvão, Itaporanga D´Ajuda, Estância, Santa Luzia do Itanhy e Indiaroba. Essa região é conhecida historicamente como a principal fornecedora de peixe e do caranguejo uça para o estado (ADEMA, 1984). Atualmente, a região vem sofrendo forte pressão sobre os recursos pesqueiros, devido à sua sobrexploração, resultante principalmente da falta de oportunidade de emprego para a comunidade local, que obtém da pesca ou coleta de mariscos a única fonte de renda possível (ESTUDOS BIOLÓGICO E SOCIOECONÔMICO RESEX DO LITORAL SUL DE SERGIPE, 2007).

Em razão da disposição do quadro natural e das limitações socioeconômicas, as populações do litoral sergipano encontram no extrativismo uma das principais estratégias de sobrevivência. Esses grupos populacionais compreendem os pescadores artesanais, marisqueiras, apanhadores de caranguejo, catadoras de mangaba e outras frutas nativas, artesãos, entre outros que encontram no extrativismo a forma de assegurar o sustento de sua família ainda que tais atividades proporcionem um baixo rendimento (MOTA; PEREIRA, 2009).

Ao analisar as estratégias de sobrevivência realizadas pelas populações rurais do Estuário do Rio Vaza-Barris, Takahashi; Pereira (1992) apud Mota; Pereira (2009), afirmam ser a pesca a atividade que ocupa o maior número de pessoas, envolvendo homens, mulheres e crianças.

Segundo informações do MPA, é importante ressaltar que Sergipe é único estado que apresenta o número de pescadoras cadastradas (54,99%) maior que o número de pescadores (45,01%) (CENSO 2009/2010). Estima-se que nos últimos dois anos tenham adentrado mais mulheres que homens para este ramo de atividade (MINISTÉRIO DA PESCA, 2012).

O desemprego, a ausência dos maridos e a necessidade de aumento da renda familiar, constituem os principais fatores que impulsionam as mulheres a adentrarem no universo da pesca15. Assim, muitas assumem o papel de chefes da casa, encontrando na pesca a única alternativa para o provimento da família. Outro aspecto importante que concorre para esta realidade, diz respeito ao quadro físico natural do Estado, que conta com extensas áreas de

15 Realidade observada no Município de Itaporanga D´Ajuda/SE, a partir de levantamento junto às pescadoras da

manguezais, além de numerosos rios e estuários favoráveis à atividade pesqueira realizada por mulheres, pois são nestes ambientes que se encontram as espécies de pescado comumente capturadas por elas, como caranguejo, aratu, siri, peixe, camarão, sururu e maçunim.