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PARTE II MATO GROSSO NO CONTEXTO DO PATRIMÔNIO

CAPÍTULO 2 O PATRIMÔNIO HISTÓRICO, A AGENDA DA GESTÃO

2.2 AS ESTRUTURAS NO CENARIO NACIONAL E REGIONAL

No cenário regional, convém salientar que, sob a responsabilidade do Governo Federal, ocorreram em Mato Grosso algumas ações pontuais, visando a preservação do patrimônio cultural entre os anos de 1946 a 197643. Em Cuiabá tombou provisoriamente a Catedral de Nossa Senhora do Bom Jesus, no ano de 1957, e a Igreja do Rosário teve o processo iniciado em 1957 e concluído em 1975. Em Chapada dos Guimarães, a Igreja da Sé de Santana foi tombada em 1957; e em Vila Bela da Santíssima Trindade houve a abertura do processo de tombamento das ruínas da Igreja Matriz no ano de 1973 e tombada em 1988. Até o ano de 1976, as ações de preservação eram de “responsabilidade da sede da Instituição Nacional localizada no Rio de Janeiro” (ARRUDA, 2014, p. 86).

No caso de Mato Grosso, os primeiros sinais de preservação do patrimônio, como ação do Governo do Estado, começaram a aparecer em 1975, com a criação da FCMT - Fundação Cultural de Mato Grosso, criada pela Lei nº 3.632, de 20 de junho de 1975. A entidade nasceu “com a finalidade de preservar o patrimônio cultural mato-grossense e de estimular, por todas as formas, as manifestações da cultura regional”, lembrando que, neste momento, o estado ainda não estava divido entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (SEC/MT, s/d.)44.

43 Ver Lista de Bens Tombados e Processos em Andamento (IPHAN, 1938 – 2018). 44 Ver Secretaria Estadual de Cultura - Bens tombados. Serviços. Cuiabá, s/d.

Sobre o IPHAN, chama atenção o fato de o Órgão Federal ter passado por vários formatos institucionais ao longo de sua existência45: iniciou, oficialmente, suas ações institucionais em Brasília, em 1960, com implantação de um Distrito Técnico da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), do Ministério da Educação e Cultura (MEC), e, no ano de 1976, o “Distrito foi transformado na 7ª Diretoria Regional do Dphan - depois denominada 8ª DR - cuja área de abrangência incluía os estados de Goiás, Mato Grosso e o Distrito Federal (IPHAN, s/d)46.

A década seguinte (1980) teve início com a criação do espaço de representação nacional com sede em Mato Grosso, mais precisamente no ano de 1982, vinculado à diretoria Regional em Brasília. O Órgão Nacional de Proteção ao patrimônio “passou a ter representação em Cuiabá, com a criação do Escritório Técnico da SPHAN/Pró-Memória, vinculado à 8ª Diretoria Regional” (ARRUDA, 2014, p. 87). O SPHAN/Pró-Memória resultou da junção entre a Fundação Nacional Pró-Memória um órgão público criado em 1979, “pela Lei nº 6.757, de 17 de dezembro, para funcionar como braço executivo da nova Secretaria” e da SPHAN – Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, criada no mesmo ano, a partir da fusão do “Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), criado em 1975, e o Programa das Cidades Históricas (PCH), criado em 1973”, (REZENDE et al., 2015, s/p).

A Fundação e a Secretaria que deram lugar ao SPHAN/Pró-Memória, formavam “uma organização dual” e, juntas, visam dar um maior dinamismo às políticas culturais de preservação do patrimônio. As duas instituições assumiram, a partir de 1979, a “responsabilidade pela preservação do acervo cultural e paisagístico brasileiro”. A SPHAN funcionava “como órgão normativo, de direção superior e coordenação nacional”, e a Fundação Nacional Pró-Memória, “como órgão operacional” que proporcionava à Secretaria “os meios e os recursos que permitiam agilizar” as atividades (REZENDE et al., 2015, s/p).

Importante ressaltar que a criação do Escritório Técnico em Cuiabá possibilitou o fortalecimento dos “trabalhos no Estado de Mato Grosso, sempre com a preocupação da regionalização da preservação diante dos efeitos do desenvolvimento regional” (ARRUDA, 2014, p. 87). Tudo indica que a chegada de uma representação nacional com sede em Cuiabá contribuiu para fortalecer o movimento de proteção do patrimônio histórico no estado.

45 Observo que não tenho interesse em tratar esses novos formatos detalhadamente. Farei uma breve passagem por

aqueles que diretamente provocaram mudanças na estrutura da Instituição Federal presente em Mato Grosso.

Os dados demonstram que os anos 90 também foram de intenso movimento na estrutura dos órgãos de proteção do patrimônio no cenário nacional, estadual e municipal. Iniciando pela transformação da 8ª DR, no ano de 1990, com “a reestruturação implantada no Iphan” em Brasília. A nova unidade “descentralizada passou a denominar-se 14ª Superintendência Regional (SR), com jurisdição nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Rondônia, além do Distrito Federal” (IPHAN, s/d). A nova configuração do órgão Nacional chegou à representação em Cuiabá. A mudança se deu em função da extinção das “duas instituições, a Fundação Pró-Memória e a SPHAN” por meio da “Lei nº 8.029, de 12 de abril” de 1990, que também criou o Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural - IBPC (REZENDE et al., 2015, s/p). Segundo Rezende et al. (2015, s/p), as finalidades do IBPC foram definidas no Decreto 335/1991 “nos termos da constituição”, devendo o Instituto zelar “pela promoção e proteção do patrimônio cultural brasileiro”, e especialmente,

I - formular e coordenar a execução da política de preservação, promoção e proteção do patrimônio cultural, em consonância com as diretrizes da SEC/PR [Secretaria da Cultura da Presidência da República]; [...]; IV - promover a identificação, o inventário, a documentação, o registro, a difusão, a vigilância, o tombamento, a desapropriação, a conservação, a restauração, a devolução, o uso e a revitalização do patrimônio cultural. (REZENDE et al., 2015, s/p). O novo órgão absorveu as funções dos órgãos extintos no ano de 1990. Isso fez com que o Escritório Técnico da SPHAN/Pró-Memória em Cuiabá fosse transformado em Sub- Regional. Os registros apontam para uma evolução do movimento sobre o patrimônio Histórico em Mato Grosso, na medida em que as mudanças que ocorriam no IPHAN em âmbito Nacional, chegavam no estado. Mato Grosso ganhou mais autonomia no que se refere à gestão e gerência do patrimônio cultural, dentro do seu território, e, em certa medida, fortaleceu o movimento no estado e em Cáceres, que já ganhava corpo estrutural e normativo desde a década de 80.

O movimento no âmbito federal em torno da estrutura de proteção do patrimônio se transformou com a revisão e reformulação dos espaços de preservação, dando a eles novas configurações de poder. O IBPC retornou ao nome IPHAN, através da Medida Provisória nº 610, de 08 de setembro de 1994, que definiu: “O Instituto do Patrimônio Cultural – IBPC – e o Instituto Brasileiro de Arte e Cultura – IBAC – passam a denominar-se, respectivamente, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN [...]” (REZENDE et al., 2015, s/p).

Esta reformulação provocou mudanças no interior das Regiões e Estados que possuíam patrimônio cultural. E, na medida em que a representação do órgão Nacional em Mato Grosso

foi ganhando autonomia, a estruturas no estado também avançavam no sentido de aprimorar o seu espaço e poder de gerenciamento47 das ações de tombamento e preservação. Um outro passo importante, neste sentido, no âmbito do estado de Mato Grosso, foi a transformação da Fundação Cultural do Estado em Secretaria Estadual de Cultura, criada pela Lei Complementar nº 36 de 11/10/1995:

com a competência de planejar, normatizar, coordenar, executar e avaliar a política cultural do Estado, compreendendo a pesquisa histórica, a preservação do patrimônio histórico e arquitetônico, concepção, formulação, normatização e gestão de fundos especiais destinados ao desenvolvimento da cultura no Estado, além de exercer outras atividades previstas nos termos do seu regimento. (SEC/MT, s/d).

No campo estrutural as mudanças voltaram a acontecer no estado de Mato Grosso no ano de 2009, desta vez vindas da instituição federal, com a transformação da Sub-Regional de Cuiabá em Superintendência. A criação da superintendência do IPHAN em Cuiabá trouxe mais autonomia administrativa, uma vez que esta ficou subordinada diretamente à presidência da Instituição em Brasília (ARRUDA, 2014). Vale lembrar, também, que a autonomia administrativa do órgão nacional não é sinônimo de eficiência na gestão do patrimônio tombado em todo o estado, por várias razões e, especialmente, no caso de Mato Grosso, pelo número reduzido do corpo técnico, que atua na Instituição federal. Mesmo diante de todos os desafios que isso representa, veremos adiante que esse movimento, direta ou indiretamente, contribuiu para o município de Cáceres avançar na preservação do patrimônio histórico, se não na prática efetivamente, mas, no discurso, em conformidade com os avanços que ocorriam no estado de Mato Grosso, na medida em que ele se alinhava às políticas nacionais, neste período.