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PARTE II MATO GROSSO NO CONTEXTO DO PATRIMÔNIO

CAPÍTULO 4 – O CENTRO HISTÓRICO: LINHA DO TEMPO E AS

4.6 O TOMBAMENTO IV: TOMBAMENTO FEDERAL DE 2010

Os caminhos para a elaboração da narrativa sobre o tombamento federal em Cáceres foram trilhados por entre documentos, Laudos, Ofícios, Memorandos, Relatórios e Atas, que formam o Processo do Tombamento Federal, acrescidos de matérias de jornais e diálogos com pessoas que atuaram na pasta do patrimônio municipal na ocasião do tombamento e que ainda hoje atuam. Isso permitiu chegar à gênese do tombamento nacional, que teve início no ano de 1993, e compreender os meandros que marcaram a trajetória do tombamento realizado pelo IPHAN na cidade, no ano de 2010. Essa, é uma leitura necessária para a compreensão dos conflitos territorializados no centro histórico de Cáceres.

Os fatos demonstram que o processo que deu origem a esse tombamento não é recente; como disse, teve início em 1993, e o tempo decorrido desde o início das primeiras tratativas, foi de quase duas décadas, até ser concretizado. Percebe-se que o interesse em tombar o patrimônio histórico em Cáceres, a nível federal, foi materializado no intervalo entre o tombamento estadual provisório realizado em 1991 e o tombamento municipal de 1996. Ocasião em que começou a tramitar, na Superintendência Regional em Cuiabá-MT no antigo IBPC – Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural, um pedido formalizado pelo Prefeito Antônio Fontes que, solicitou o tombamento de 42 imóveis, através do Ofício 1949/93 – GP93 de 01 de dezembro de 1993, com a seguinte justificativa:

93 Oficio 1949/93 – GP de 01 de dezembro de 1993. Assinado pelo Prefeito Antônio Carlos Souto Fontes,

Ao cumprimentar cordialmente V. Sª., encaminhamos-lhes os documentos referentes ao levantamento da parte mais expressiva do patrimônio edificado urbano do município de Cáceres, e vimos solicitar desse respeitável Órgão, seja viabilizado estudo com vistas a efetivação do tombamento a nível federal de um conjunto de 42 (quarenta e dois) imóveis que, além de serem individualmente expressivos quanto a sua arquitetura, compõem um conjunto íntegro e harmonioso. Justificativas históricas não faltam. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl).

Embora teve, por parte do município, a sugestão de tombamento de 42 imóveis, a própria gestão dava ênfase à importância histórica do município, sobretudo no contexto da consolidação das fronteiras. O documento fazia uma alusão às questões de fronteira no período colonial, mas, além disso, o caso em específico da fronteira Brasil e Bolívia, fato confirmado ainda no Ofício 1949/93 – GP:

O município representa a consolidação das fronteiras brasileiras na região mais ocidental do Pantanal mato-grossense. Fundada às margens do Rio Paraguai, Cáceres, enquanto núcleo urbano, possui como um de seus bens culturais mais representativos o complexo urbano ora apresentado. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 200, fl. 1).

A justificativa de que o núcleo urbano de Cáceres reunia bens culturais formando um complexo urbano, somada a um conjunto de outras justificativas comprovadas por estudos e diagnósticos realizados no âmbito do IPHAN, resultaram no tombamento do “Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico de Cáceres” no centro histórico da cidade, e não apenas dos monumentos sugeridos pela gestão municipal na época. Os argumentos do município são subsidiados pelo relato da Fundação Cultural de Cáceres por ocasião do Inventário Cadastral de 1988, anexo ao processo de tombamento federal. Consta no documento a descrição do perímetro orientado por ruas onde se deu a identificação dos monumentos, predominando os exemplares com elementos estéticos. A fundação cumpriu, na ocasião, a atribuição que lhe foi dada pela Prefeitura Municipal, conforme consta no relatório, que devia esta, “identificar os principais monumentos remanescentes no sítio urbano dentro dos critérios de representatividade histórico arquitetônico e do nível de preservação da planta original” (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 2).

O conjunto de documentos mostra que o processo foi marcado por idas e vindas de estudos, orientações e sugestões por parte das instâncias responsáveis dentro do IBPC e

de Patrimônio Cultural – Cuiabá-MT. In: Processo nº 01450.003851/2007-53, de 01 de março de 2007, integrando a Série Histórica “Processos” de nº 1.542-T-07. Superintendência do IPHAN em Goiás.

direcionadas à gestão municipal de Cáceres. E, no período entre 1993 a 1994, foram realizadas visitas à cidade, por representantes do órgão federal, para realizar estudos e levantamentos de dados, o que resultou numa série de documentos, relatórios, registros fotográficos, laudos, pareceres, memorandos, todos no sentido de subsidiar e dar a consistência necessária para o tombamento. Mesmo diante de todo esse esforço por parte do Município e da 18º SR. II do IBPC, um parecer técnico vindo de Brasília, em 1994, chamou a atenção porque, ao mesmo tempo que orientava a reunir documentos, enaltecia o empenho do município, que se mostrou contrário ao tombamento federal94:

Historicamente, ao longo de mais de meio século da existência da SPHAN/IPHAN/Pró-memória, o Governo Federal sempre tombou os Centros Históricos com o intuito, além do cumprimento da legislação, de preservá-lo por seus diversos valores, urbanos, arquitetônicos, históricos, culturais, etc., mas nem sempre, ou quase nunca, com apoio, consciência e vontade dos habitantes e dirigentes municipais ou estaduais. [...].

Cáceres já possui uma legislação para proteção, a prefeitura está trabalhando na preservação, mas a legislação fatalmente necessita de uma revisão, os moradores, por desinformação modificam distribuições e alteram fachadas, quando não demolem edificações.

Que benefício poderia trazer para a cidade o tombamento federal? O Governo Federal está exaurido de seus recursos financeiros, ainda mais para investimentos na área da cultura. A fiscalização que ele deveria efetuar fatalmente será eficiente e recorrerá a Prefeitura para auxiliá-lo, arcando esta com o ônus. O apoio técnico que o IBPC está exercendo, deverá estreitar-se, através de mais visitas, onde surgirão debates, palestras, orientações já que estamos trabalhando para um mesmo fim que é a preservação, tanto fazendo se é protegido por lei federal, estadual ou municipal. O importante é a população, ali residente, ter interesse, consciência que vale a pena manter este patrimônio cultural. [...]. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 133-134). Com o parecer negativo naquele momento, restou ao Engenheiro civil reforçar as recomendações da Arquiteta responsável pelo IBPC – SR. II- MT para que pudesse “rever a legislação municipal, apoio técnico que a Prefeitura necessite do IBPC para continuar a preservação de Cáceres” dizendo ser este “o caminho correto para atingirmos o nosso objetivo”. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 134). Sobre a orientação para que o IBPC continuasse a contribuir revendo a legislação municipal, importa reforçar que isso já ocorria. O movimento entre município, estado e IBPC, que ocorreu entre os anos de 1993 e 1994, está comprovado nos processos de tombamento estadual e pelo Órgão Federal, e o resultado desse movimento foi a publicação do Decreto nº 185/1994, já mencionado no capítulo anterior.

94 Parecer Técnico tombamento a nível Federal do Centro Histórico de Cáceres-MT. Brasília, 1994. In: Processo

nº 01450.003851/2007-53, de 01 de março de 2007, integrando a Série Histórica “Processos” de nº 1.542-T-07. Superintendência do IPHAN em Goiás (fls. 133-134).

Pouco movimento seguiu a partir deste parecer, sendo o processo de tombamento Federal paralisado a partir de agosto de 199495. Posterior a esse momento, não encontramos registros que comprovem a movimentação do processo até o final do séc. XX e início do séc. XXI. Evidentemente, houve no município uma estagnação do movimento para o tombamento federal, após o ano de 1994. A paralisação do movimento em Cáceres se deve, em grande medida, aos interesses que permearam a administração pública neste período, situação que é comum aos municípios brasileiros que, na medida em que muda a gestão administrativa, paralisam ou extinguem da pauta temas que não fazem parte da sua agenda de prioridades.

A retomada do movimento para o tombamento federal se deu efetivamente em 2007, com a superintendência em Cuiabá reabrindo o processo e reencaminhando para a sede nacional do IPHAN, motivada pelos interesses que reacenderam em Cáceres na gestão administrativa do Prefeito Tulio Fontes que, em matéria publicada no sitio da Prefeitura, “[...] lembrou das várias viagens que fez a Cuiabá e a Brasília, levando documentos fundamentais para o tombamento. ‘Estamos felizes porque o trabalho de toda uma equipe deu resultados e trará benefícios para nossa cidade’, [...]96”. Os trâmites seguiram sustentados por estudos que embasaram a decisão de prosseguir com o tombamento, resultando na abertura, em 01 de março de 2007, do Processo Administrativo nº 01450.003851/2007-53 e do Processo de Tombamento número 1542 -T-0797 denominado “Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico da cidade de Cáceres-MT”. Entre os documentos que constam no Processo de Tombamento número 1542 -T-07, chamou a atenção o Memorando 21/2007, de 10 de dezembro de 2007, de encaminhamento do “Parecer Técnico”, realizado pela Arquiteta Santos (2007)98. O documento apresenta justificativas de grande relevância para o tombamento do sítio urbano99 da cidade, por

95 O último documento se trata do Memo 075/94. In: Processo nº 01450.003851/2007-53, de 01 de março de 2007,

integrando a Série Histórica “Processos” de nº 1.542-T-07. fl. 135.

96 Cáceres é tombada como Patrimônio Cultural Nacional. ASCOM/Prefeitura de Cáceres. Publicada em

28/06/2012.

97 Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Processo nº 01450.003851/2007-53. Data de

abertura 01/03/2007. Interessado: Superintendência do IPHAN em Goiás. Assunto/Descrição: Dossiê de Tombamento/Processo de tombamento nº 1542-T-07, referente ao bem denominado “Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico da Cidade de Cáceres. Estado de Mato Grosso”. IBS: o referido processo foi aberto em 2007com a numeração correspondente a Série Histórica do Arquivo Central [...].

98 Memorando 21/2007 de 10 de dezembro de 2007. De: Helena Mendes dos Santos - Arquiteta da Gerência de

Proteção-GEProt-DEPAM. Assunto – Processo de Tombamento Nº 1.542-T-07 _ Conjunto Arquitetônico Urbanístico e Paisagístico da Cidade de Cáceres-MT (fl. 142-144).

99 A expressão sítio urbano, em alguns momentos mencionada, não será adotada como categoria de análise; o uso

neste texto será em função da referência dada na Ata 66 do Conselho Consultivo do IPHAN (2010, p. 15), como conceito para justificar a delimitação das poligonais de tombamento e de entorno em Cáceres, dizendo que “O aspecto que suscitou mais atenção, durante essa fase, foi o da delimitação da área a ser tombada: qual a configuração do “Centro Histórico” a ser protegido e o que, portanto, deveria ser tombado? Esse tema ensejou diferentes propostas de abordagens: a aplicação do conceito de sítio urbano como testemunho de um processo de organização social, a ser considerado como documento histórico; a utilização da categoria sítio histórico e outras perspectivas”.

considerar que ele contém um conjunto de bens que possui valores culturais. Esta leitura a fez sugerir o uso do “conceito de sítio urbano como testemunho de um processo de organização social abordando-o como documento histórico” (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 144).

Esta leitura representa o entendimento do IPHAN, que pode ser verificada no Inventário Nacional de Bens Imóveis/ Sítios Urbanos Tombados, que utiliza a categoria sítio urbano como:

resultado do processo histórico de apropriação do território, que define a consolidação de um espaço, integrando fenômenos que o relacionam a um contexto geográfico mais amplo - procura abranger a maioria dos tombamentos de áreas urbanas do IPHAN. Incluem-se nessa categoria não só as cidades e centros históricos, mas também trechos de cidades como conjuntos arquitetônicos, ruas e praças, valorizados a partir de sua inserção no contexto urbano maior, independentemente das suas dimensões ou do modo como estão descritas na denominação de tombamento. (IPHAN - INBI-SU, 2007, p. 17).

Esta definição, reflete a realidade encontrada em Cáceres. Como já vimos anteriormente, a cidade guarda fortes elementos do passado, que vão além das arquiteturas consideradas monumentos, o traçado das ruas estreitas, o fato de ser uma cidade do período colonial e ser uma cidade de fronteira, e especialmente por ter o núcleo central, que foi desenhado na fundação da cidade, ainda integralmente preservado e recortado pelo rio Paraguai. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007). Somam-se a esses elementos as riquezas imateriais, como as rezas e festas religiosas tradicionais, que também fazem parte dos argumentos para o tombamento Federal, reforçando que, para “além dos valores materiais, o patrimônio cultural imaterial de Cáceres também possui grande significado”:

Nas inúmeras festas que constam do calendário cultural e turístico de Cáceres, é possível verificar a riqueza da cultura imaterial de sua população. Seja na apresentação de grupos de Siriri e Cururu, a exemplo dos grupos Tradição e Guató; nos grupos folclóricos como o grupo Chalana; nas festas religiosas como a de São Sebastião, comemorada em janeiro, ou de Santo Antônio que é reverenciado por suas irmandades, durante os treze primeiros dias do mês de junho com rezas e procissões, jantares, bailes e tantos pedidos e agradecimentos por graças alcançadas. Assim, um conjunto de testemunhas materiais e de elementos do patrimônio imaterial dá sentido e significado à vida que aí se derrama. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 215). Ao fazer a leitura das referências culturais presentes na cidade o IPHAN prosseguiu reafirmando que a valiosa soma do conjunto de bens, material e imaterial, existentes em Cáceres, formava um conjunto favorável ao tombamento e que, com isso, a cidade e o seu patrimônio poderiam ter mais atenção no âmbito federal:

a certeza de que a cidade pantaneira de Cáceres é possuidora de um valioso conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico, que uma vez tombado no âmbito federal poderá receber maiores atenções. Desta forma se fará jus não só à relevância de seu significado histórico, mas ao fato de se constituir num testemunho material das inúmeras mudanças pelas quais passou a cidade, desde a sua fundação e que, ainda assim, se mantem na atualidade, em muitos aspectos, preservado. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 216). Ao longo do processo de tombamento, como disse, é possível identificar várias justificativas para o tombamento federal do sítio urbano da cidade, a exemplo do que consta na “Ata da 66ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural”, que confirma alguns dos argumentos considerados relevantes para a delimitação da poligonal a partir do núcleo central que originou a cidade na época de sua fundação, com os seguintes argumentos:

o conjunto urbano, assim representado por arquitetura de tipologia diversa, é harmonizado pela escala e volumetria parcimoniosa em que se mantiveram as edificações, bem como pela qualidade da concepção arquitetônica e da técnica construtiva, herdadas, tanto das determinações feitas por Luis de Albuquerque ainda no século XVIII por ocasião da fundação da Vila Maria, quanto da riqueza gerada, ao menos para as classes abastadas, pela navegação nas primeiras décadas do século XX. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 142).

Evidentemente que a forte presença, no traçado urbano, de ruas estreitas e do conjunto arquitetônico compondo a paisagem na área central, confirma que o centro é remanescente do processo de criação da cidade, portanto é um centro histórico. Esse desenho é visível não somente para a população local, mas para qualquer visitante, e favorece o reconhecimento e a diferenciação entre uma área central historicamente construída de outra com arquiteturas e traçados que caracterizam a cidade contemporânea. Para fechar o rol das justificativas presentes no processo de tombamento, transcrevo uma síntese da leitura realizada pela gerência do DEPAM, que está presente no Parecer nº 030/2010 PF/IPHAN/SEDE/GM da Procuradoria Federal/IPHAN, endereçado à Superintendência do IPHAN/MT. Este documento reúne os elementos e os argumentos reveladores dos valores culturais que sustentaram o tombamento, e que diga se de passagem, estão exaustivamente abordados no processo:

35 - Impende salientar que a gerente de Proteção do DEPAM indicou o tombamento federal do Conjunto Urbanístico e Paisagístico do Município de Cáceres, Estado de Mato Grosso, sintetizando os seus principais valores a ensejar o tombamento:

1) – históricos – pelo papel que desempenhou desde a implantação do núcleo setecentista de Vila Maria do Paraguai (primeira designação do núcleo) para a definição de fronteiras entre terras brasileiras e bolivianas, representando

importante documento da história urbana do país; e no incremento da comunicação entre vila Bela da Santíssima Trindade e Cuiabá e, pelo Rio Paraguai, com a Capitania de São Paulo;

2) – urbanísticos – pela forma urbana assumida como precipitação espacial da estratégia portuguesa de expansão da colônia para oeste, e pela função que cumpriu como entreposto fiscal;

3) – paisagístico – como testemunho do intercâmbio entre os processos naturais e sociais, em que o Rio Paraguai se destaca acentuadamente na configuração do sítio urbano e como principal elemento que marca e interage com a paisagem urbana. (IPHAN - Processo nº 1542-T-07, 2007, fl. 222). A soma de todos esses valores contribuiu para a definição do conjunto tombado pelo IPHAN em 2010. Foi a partir deste entendimento que se deu a demarcação de uma área extensa, equivalente a 47,4 ha, envolvendo todo o centro histórico dentro da poligonal de tombamento, e um total de 142,6 ha na área de proteção no entorno. Importante observar que o tombamento federal envolveu uma área muito maior como poligonal de tombamento e de entorno, que os tombamentos anteriores. O tombamento federal ocorreu aproximadamente 17 anos após o início da tramitação do processo. A decisão foi selada com a reunião do Conselho Consultivo, conforme “Ata da 66ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural”, reunido em 09 de dezembro de 2010, no Rio de Janeiro, sendo a homologação realizada pelo Ministério da Cultura através da Portaria nº 85 que “Homologa o tombamento do Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico da Cidade de Cáceres, Município de Cáceres, Estado Mato Grosso”, publicada em 22 de junho de 2012.

Desta forma, foi tombado o sítio urbano, orientado pela definição de uma poligonal de tombamento e uma poligonal de entorno e não apenas os monumentos, como se pretendia inicialmente. Essa observação é importante porque as justificativas do tombamento federal vão muito além das narrativas criadas por agentes públicos em Cáceres e assimiladas por alguns moradores no centro histórico, em torno dos argumentos que levaram aos tombamentos dos monumentos isolados, como se acredita ter sido realizado nos tombamentos anteriores.

É importante destacar que, no caso do tombamento federal, ao tombar o sítio urbano a compreensão diante dos tombamentos anteriores se tornou confusa para muitas pessoas no centro histórico, que estão dentro da poligonal tombada. Para os mais esclarecidos, nem tanto, mas para muitos que assimilaram a ideia do tombamento individual, ficou a dúvida se o imóvel, especialmente para aqueles caracterizados por serem uma construção contemporânea, estariam tombados, e quais seriam sobre eles os impactos do tombamento, que na prática só vai se tornando legível quando necessitam ou têm interesse em fazer ações que envolvam projetos e aprovações nas instâncias competentes, município e IPHAN.

Diante disso é possível afirmar que foi a partir do tombamento federal que a população no centro histórico de Cáceres passou a sentir a necessidade de ter uma normatização do patrimônio histórico tombado que atenda aos seus interesses, mas que também atenda aos critérios rigorosos de intervenção e preservação do IPHAN. Esta questão necessita ser explorada, e por este motivo é detalhada no Capítulo 5. É a partir da necessidade de uma normatização do patrimônio, atualizada, que as pessoas passaram a ter maior clareza sobre os efeitos do tombamento nacional para a preservação e intervenção no bem tombado.

Por fim, resta dizer que a trajetória vista neste capítulo, embora complexa, ilustra o que é lidar com os tombamentos, especialmente para os que vivem cotidianamente no centro histórico. O efeito prático de cada um deles na vida dos sujeitos que vivem na área tombada, assim como os efeitos dessa complexidade entre os órgãos gestores do patrimônio é a descrença na gestão estatal, que para os proprietários e locatários aparece como opaca, incompreensível, contraditória, injusta.