PARTE II MATO GROSSO NO CONTEXTO DO PATRIMÔNIO
CAPÍTULO 4 – O CENTRO HISTÓRICO: LINHA DO TEMPO E AS
4.5 O TOMBAMENTO III: ESTADUAL DEFINITIVO DE 2002
O intervalo que segue, entre o tombamento municipal de 1996 ao tombamento definitivo estadual realizado em 2002, não é claro quanto às tratativas iniciais para a sua efetivação. No conjunto de documentos e registros do período, disponibilizados pela SEC/MT, não há informações que demonstrem os movimentos empenhados, o que dificulta o entendimento de quem e de onde partiu a iniciativa de tombar definitivamente o centro histórico em Cáceres.
Mesmo as buscas na Prefeitura não me possibilitaram acesso aos documentos deste período, talvez porque não existam mesmo. Por outro lado, os documentos disponibilizados pela SEC/MT, após leitura minuciosa, demonstraram que não houve abertura de um novo processo, levando a crer que os encaminhamentos foram dados a partir do mesmo processo de tombamento (01/1991), mas sem a existência de ofícios, memorando ou outros documentos que comprovam se a autoria da retomada da ação partiu de um encaminhamento do município, ou se foi de interesse estadual.
Em contato realizado via telefone com a coordenação de patrimônio da SEC, no dia 04 de abril de 2019, foi confirmado que não existem documentos para além do que está posto no processo, me restando seguir a busca por fontes jornalísticas. Diante disso, uma pista do que seria a movimentação inicial para o tombamento de 2002 encontrei desenhada na matéria do jornal Diário de Cuiabá, publicada em 04 de maio de 2002, com a chamada “Patrimônio de Cáceres terá tombamento definitivo”, destacando que:
Uma reunião realizada há cerca de 20 dias começou a alinhavar estas características. Foi decidida, por exemplo, a natureza do tombamento – já que, até então, não se sabia se seria pontual ou por perímetro. Trocando em miúdos: o estado poderia optar por tombar prédios isolados, ou toda uma área. A segunda alternativa foi a preferida. A principal fatia do centro da cidade será tombada, em uma faixa em formato irregular que vai desde a margem do rio Paraguai até a rua Padre Cassemiro, junto à praça Major João Carlos. Além desse perímetro, o tombamento inclui, pontualmente, algumas casas afastadas do centro e parte do bairro Cavalhada. (DIÁRIO DE CUIABÁ, 2002)89.
Percebe-se, que uma reunião ocorrida em abril de 2002 foi decisiva para a definição da dinâmica do tombamento que seria realizado pelo estado, que acabou optando por tombar um perímetro, em vez de prédios isolados, e desta vez, um percurso maior que o primeiro realizado em 1991.
Figura 19 – Tombamento por perímetro
Fonte: Prefeitura Municipal de Cáceres (2002).
A mesma matéria, descrita acima, traz argumentos que fazem acreditar que o abandono e a destruição de um monumento no ano de 2001, alvo dos dois tombamentos anteriores na
cidade, trouxe prejuízos ao patrimônio histórico tombado, e contribuiu para a iniciativa de tombamento definitivo pelo estado. Com a ressalva de que a destruição do imóvel aconteceu com autorização da própria Prefeitura, mas sem o aval do estado:
A portaria estadual de 1991 e o tombamento municipal, assinado em 1994, não chegaram a impedir algumas perdas do patrimônio local. No começo deste ano, por exemplo, uma casa colonial foi derrubada com autorização da prefeitura, sob a justificativa de que oferecia risco de ruir. “Houve um processo dentro da Secretaria Municipal de Cultura e nomeada uma comissão, que decidiu que a casa oferecia risco”, explicou Bernadete Durães. Mas todo esse trâmite não chegou aos ouvidos da Secretaria Estadual de Cultura. “Deveríamos ter sido consultados”, apontou. Com as novas regras, segundo ela, qualquer projeto a ser realizado naquela região precisará ser aprovado pelo órgão. (DIÁRIO DE CUIABÁ, 2002)90.
Em outra matéria da mesma fonte, com o título “Prefeitura destrói casa tombada”, chama atenção para a justificativa da Prefeitura:
Segundo o secretário municipal de Obras, Pedro Paulo Ourives, não houve outra escolha a não ser derrubá-la – já que a construção estava condenada, e poderia cair a qualquer momento. “Tenho um processo formalizado que determina a demolição, que incluiu parecer favorável do Corpo de Bombeiros. A casa já não tinha telhado, e, como era de adobe, ficava mais frágil cada vez que chovia. Se caísse, poderia machucar alguém que estivesse passando pela rua”, afirmou. (DIÁRIO DE CUIABÁ, 2002)91.
A vistoria desse imóvel consta em Certidão de Ocorrência nº 001/B-3/2001 – do Comando de Bombeiros Militar do Interior, do dia 20 de janeiro de 2001. A ocorrência era referente a um imóvel que pertencia à lista de imóveis inventariados em 1988, localizado na Rua Comandante Balduino, nº 443, esquina com a Rua 6 de outubro. O imóvel era um dos monumentos tombados que estava sob a tutela do estado de Mato Grosso e do município, mas que, naquele momento, “oferecia Riscos de desabamento”. Na ocasião da visita ao monumento, pelo “Comandante da 2ª CIBM-MT”, fora chamada a presença do “Secretário interino de Obras” no Local, e foi determinado “que derrubasse a parede do referido imóvel, que estava colocando em risco a vida das pessoas que por ali transitavam [...]” (SEC-MT, Processo 01/91, 2002, fl. 43).
Com a derrubada do imóvel, nada mais sendo possível fazer para recuperá-lo e com as justificativas de ambos os lados para isenção do prejuízo, Estado e Município estreitaram as
90 Idem anterior.
relações para dar seguimento ao novo tombamento, desta vez com a promessa de maior proximidade e empenho para evitar novas demolições:
A coordenadora também concentra suas expectativas no estreitamento das relações entre estado e município, para que questões como essas não se repitam. “Como não estamos dentro do centro histórico de Cáceres, ficamos impossibilitados de realizar algumas iniciativas”, apontou Bernadete Durães. “Queremos um alinhamento de conceitos e ações com a Secretaria Municipal de Cultura e com a Fundação Cultural da cidade, para que possamos contar com apoio mútuo”, acrescentou. Ela aponta que questões relativas a tombamento exigem, muitas vezes, decisões técnicas rápidas – e nem sempre o estado está lá para dar a palavra final, o que exige interação com os especialistas locais. (DIÁRIO DE CUIABÁ, 2002)92.
Desta forma, o tombamento foi homologado através da Portaria nº 027/2002, que “Dispõe sobre o Tombamento para o Patrimônio Histórico e Artístico do Estado de Mato Grosso o Centro Histórico de Cáceres situado no Município de Cáceres/MT”, assinada em ato solene no Município, no dia 09 de julho de 2002, e publicada em DOE no dia 12 de julho do mesmo ano. Por meio desta Portaria, “RESOLVE”, no Art. 1º - “Tombar para o Patrimônio Histórico e Artístico do Estado de Mato Grosso, o perímetro denominado “Centro Histórico de Cáceres”, situado no Município do mesmo nome”. Com a determinação no Art. 3º “que seja feita a inscrição no Livro do Tombo Histórico nos termos dos arts. 4º e 5º da Lei Estadual nº 3.774, de 20 de setembro de 1976”. Como disse anteriormente, este tombamento trouxe alguns elementos que o fazem diferente do tombamento provisório de 1991, a começar pela área de abrangência que foi maior e definiu além da área tombada a área de entorno. O desenho do perímetro de tombamento e de entorno, foi dado conforme descrição na Portaria nº 027/2002, no Art. 2º:
Determinar o tombamento do Centro Histórico de Cáceres que trata o art. 1º, delimitado pelo seu perímetro: partindo da Rua Cel. Faria, segue por esta
até a Rua Prof. Rizzo, segue por esta até a Rua Riachuelo, segue por esta até a Rua Padre Casemiro, segue por esta até a Rua Cel. José Dulce, até a Rua General Osório, até a Marechal Deodoro, até a Comandante Balduíno, segue até a Rua Tiradentes, por esta até a Rua Quinze de Novembro, até a Alameda Corbelino, e fechando na Rua Cel. Faria, bem
como do seu entorno sendo designado por toda a extensão da: Rua Sabino Vieira, segue até a Rua Voluntários da Pátria, segue por esta até a Rua Antônio João, segue por esta até a Rua dos Operários, segue por esta até a rua General Osório, segue por esta até a Rua 06 de Outubro, segue por esta até a Rua Padre Cassemiro, seguindo por esta até a Rua Marechal Deodoro, segue por esta até a Rua da Tapagem, cruzando o Córrego Sangradouro, seguindo por este até a Rua Frei Ambrósio, continuando pela Rua São João, segue por esta até a Rua São Pedro, seguindo por esta até a Rua Campos Vidal, fechando o entorno no
Córrego Sangradouro e no caso de qualquer obra ou alteração nesta área, a mesma deve ser comunicada a esta secretaria de cultura. (GOVERNO DE MATO GROSSO, 2002) [grifos meus].
A Portaria ainda determina, no seu Art. 4º, “que sejam ratificadas as devidas notificações aos proprietários dos imóveis componentes do referido perímetro para os fins previstos na Lei 3.774 de 20 de setembro de 1976”. Em diálogo com servidores da Prefeitura estes confirmaram que “as notificações do tombamento de 2002, em função das dificuldades encontradas no período, não foi possível notificar os proprietários um a um por se tratar de um tombamento por perímetro, e que por esse motivo fizeram via jornal correio cacerense” (Diário de Campo, 02.10.2018).
O que chama a atenção nas notificações via jornal é a capacidade de abrangência, tendo em vista as condições de acesso a esse meio de comunicação. As consequências desse formato de ciência aos proprietários, são vistas nos capítulos empíricos.