A legislação cearense de incentivo à cultura, contrariamente ao que faz a respectiva legislação federal, não revela textualmente os fins para os quais o mecanismo em apreço – o FEC – foi criado, cabendo ao intérprete encontrar, pelos diversos meios investigativos, as aludidas finalidades.
Cremos que somente podem acorrer aos recursos do Fundo Estadual de
Cultura aqueles projetos que, por uma circunstância material ou legal não podem, em condições de igualdade, valer-se do mecanismo do mecenato. Embasamos esta convicção em alguns fatores. O primeiro deles é a equivalência com o Fundo Nacional
da Cultura, que tem esta e disciplina. Outros fatores podem ser deduzidos intrinsicamente da própria Lei Jereissati. Dentre tais fatores sobressai o rol das pessoas
habilitadas a recorrer ao FEC. Quem são elas? Responde o Art. 3º da LJ: “O Fundo Estadual de Cultura (FEC) destina-se ao financiamento de projetos culturais
apresentados pelos 1) órgãos municipais; 2) órgãos estaduais de cultura; ou 3) por entidades culturais de caráter privado, sem fins lucrativos”.
Para simplificar a compreensão de quem pode se valer do FEC,
observemos, inicialmente, os que dele estão excluídos. Dentre os entes públicos, pelo princípio de federalismo cooperativista, afastam-se os de natureza federal.
Também os estaduais, de qualquer outro estado que não o Ceará e, da mesma forma, os pertencentes a municípios que extrapolem nossas divisas, estes dois últimos por motivos diferentes: não pode o Estado do Ceará renunciar ao recebimento de tributos
para o benefício de um de seus pares (CUNHA FILHO,2002).
As questões levantadas por Cunha Filho, demonstram muito bem uma das críticas fundamentais à LJ, qual seja, a falta de espaços democráticos e permanentes para a utilização dos recursos e a legitimação de critérios que sejam discutidos, não somente pelos interessados no assunto, mas por toda a sociedade organizada. E acrescenta ainda CUNHA FILHO:
Também não podem pleitear recursos do FEC as empresas,
sociedades civis e quaisquer entidades com fins lucrativos. Estas não estão desamparadas do incentivo à cultura, uma vez que podem recorrer ao mecenato estadual, como será aprofundado adiante.
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Do ponto de vista afirmativo, a análise minimamente atenta da relação
de beneficiários expressamente mencionados comporta possíveis limitações ou extensões, fazendo denotar que a interpretação puramente literal é insuficiente para compreender-lhe as dimensões. Vejamos.
1) Quando a lei fala dos órgãos municipais de cultura, neste espectro devem ser compreendidos os da administração direta (secretarias e/
ou departamentos ou similares) e indireta (fundações institutos ou similares), que podem recorrer ao FEC porque suas atribuições são, geralmente, de interesse público e sem fins lucrativos. Somente nestes casos podem se valer das verbas do fundo: o legislador visou a distribuir recursos para a cultura em todo o território do Estado.
2) Os órgãos estaduais de cultura não gozam de qualquer limitação explícita de acesso aos recursos do FEC; contudo, tanto do ponto de vista lógico, como do ponto de vista ético, tais limitações existem, e mais uma vez são decorrentes da deficiente estruturação da
normatividade. Observemos os seguintes aspectos: a) não há limites de acesso por beneficiário às verbas ora examinadas; b) o FEC
completamente gerido por servidores do Estado, incluindo o secretário da Cultura. Destas circunstâncias, vê-se que todo projeto apresentado por órgão estadual de cultura é praticamente imbatível perante os demais. Assim, não é demasiado concluir que se deve entender restritivamente o acesso dos órgãos estaduais de cultura aos recursos do FEC, sendo admissível, quando muito, “aqueles da administração indireta, pois a SECULT dispõe (ou deveria dispor) de verbas
orçamentárias para a sua atuação .
3) As entidades culturais de caráter privado, sem fins lucrativos que representam um enigma no confuso mundo jurídico nacional. São, em princípio, as associações de pessoas que disponham, em seus estatutos, a realização ou o atendimento de finalidades culturais. Também aquelas de natureza patrimonial – como as fundações – estão habilitadas.
Exatamente o caso das fundações a questão se torna complexa, pois no direito brasileiro elas constituem um gênero, de que são espécies as fundações públicas e as fundações privadas. Estas últimas são, via de regra, criadas por um instituidor privado, mas o gênio sincretista nacional permitiu que também pudessem ser criadas pelo poder público. Além 68
deste caso, e seguindo o espírito neoliberal, com o intuito de fugir da chamada malha burocrática, o estado vem criando outras entidades, formalmente de direito privado, mas em essência públicas, para lhe fazer as vezes. Destas, sublinham-se as organizações sociais, mas conhecidas pela sigla O.S. ainda outras entidades são originariamente criadas por particulares, mas com o passar do tempo tem suas atividades completamente dirigidas e financiadas pelo Estado, sendo, por
conseguinte substancialmente estatais.
Neste emaranhado, que entidades podem efetivamente recorrer ao FEC?
A prática demonstra que todas – mas a preferência deveria recair sobre aquelas efetivamente privadas e sem fins lucrativas, que já não dispõem de recursos públicos,
que por força do orçamento, que em virtude de repasse. Isto porque não há (embora devesse haver) a fixação de um percentual de aporte de recursos para cada tipo de pessoa jurídica que pode ser beneficiada com recursos do Fundo Estadual de Cultura (CUNHA FILHO,2002).
A falta de critérios públicos, como já foi colocado anteriormente, assim
como um processo permanente de avaliação quantitativa e qualitativa das políticas públicas e recursos envolvidos, torna muito mais complexa nossa tarefa, como sociedade, civil e do governo na avaliação das metas e resultados a obter com investimentos públicos na área de cultura.
Quadro comparativo dos objetivos estabelecidos pela legislação federal, cearense e fortalezense de incentivo à cultura para os respectivos fundos
FEDERAL (FNC) CEARENSE(FEC) FORTALEZENSE
• Dividir recursos de forma regionalizada
• Valorizar a produção regional. Favorecer o intercâmbio entre Estados
• Capacitar recursos humanos
• Preservar e proteger o patrimônio cultural
• Apoiar projetos de interesse coletivo
• Estimular o pluralismo cultural
• Estimular a criatividade
• Promover a difusão internacional da cultura brasileira FONTE: CUNHA FILHO,2002.
Não especifica Não existe fundo da cultura
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Quadro comparativo das modalidades de financiamento estabelecidas pelas legislações federal, cearense e fortalezense de incentivo à cultura para os respectivos fundos
FEDERAL (FNC) CEARENSE (FEC) FORTALEZENSE A fundo perdido .A fundo perdido Não existe fundo da cultura Empréstimo
FONTE: CUNHA FILHO,2002.
Quadro comparativo das pessoas que podem ser beneficiárias de empréstimos reembolsáveis de recursos oriundos dos fundos federal, cearense e fortalezense de incentivo à cultura
FEDERAL (FNC) CEARENSE(FEC) FORTALEZENSE Pessoas físicas Não contempla Não existe fundo da
cultura
Pessoas jurídicas de direito privado e natureza cultural, com ou sem fins lucrativos
FONTE: CUNHA FILHO,2002.
Quadro comparativo das pessoas que podem ser beneficiárias de empréstimos a fundo perdido de recursos oriundos dos fundos federal,
cearense e fortalezense de incentivo à cultura
FEDERAL (FNC)
Pessoas físicas (bolsa, passagem e ajuda de custo)
Pessoas jurídicas de direito privado e natureza cultural, sem fins lucrativos Pessoas jurídicas de direito público e natureza cultural
CEARENSE (FEC)
Pessoas jurídicas de direito privado e natureza cultural, sem fins lucrativos Pessoas jurídicas de direito público e natureza cultural
FORTALEZENSE Não existe fundo da cultura FONTE: CUNHA FILHO,2002.
A previsão de arrecadação em âmbito pessoal previsto na lei federal
poderia ser muito útil, tanto nos impostos estaduais como municipais facilitando a captação desses recursos.
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