• Nenhum resultado encontrado

2.5 Coment´ arios Finais

3.1.3 As gera¸c˜ oes da Teoria da Atividade

Engestr¨om (1999b) sugere a existˆencia de trˆes gera¸c˜oes na evolu¸c˜ao da Teoria da Atividade. Estas ser˜ao discutidas nas se¸c˜oes a seguir.

3.1.3.1 A primeira gera¸c˜ao da TA

A primeira gera¸c˜ao da TA, caracterizada principalmente pelos trabalhos de Vygotsky, e apoiada por trabalhos de autores como Rubinstein, Luria e Leontiev, desenvolveu-se

a partir da id´eia de media¸c˜ao. A formula¸c˜ao deste conceito surgiu quando Vygotsky buscava transcender entendimentos divergentes da Psicologia da ´epoca, desenvolvendo uma Psicologia baseada nos princ´ıpios do materialismo dial´etico.

Engestr¨om (1987) esclarece que, por volta da d´ecada de 20, havia dois entendimen- tos divergentes sobre as rela¸c˜oes entre a mente, o comportamento do ser humano e o mundo exterior ou material: as tendˆencias behaviorista e a da psican´alise. Para a tendˆen- cia behaviorista, o comportamento humano era controlado pelo mundo externo, ou seja, de fora para dentro: o indiv´ıduo reage de forma objetiva a um dado est´ımulo externo. Isto ´e, para cada est´ımulo externo haveria uma resposta imediata, determinada por in- stintos biol´ogicos e/ou regras sociais. Para a psican´alise, o comportamento do sujeito ´

e controlado de dentro para fora: os “efeitos da influˆencia externa dependem de como o sujeito as interpreta” (Leontiev, 1981a). Ou seja, para cada est´ımulo externo haveria uma resposta imediata, determinada pela raz˜ao. Desta forma, predominava em ambas as abordagens uma oposi¸c˜ao “entre motiva¸c˜ao e mundo externo” (Leontiev, 1981a). Ambas as tendˆencias possu´ıam um car´ater est´atico da rela¸c˜ao est´ımulo - resposta, excluindo o processo dinˆamico (a atividade humana), pelo qual o sujeito interage com o mundo ma- terial externo, modificando-o e sendo modificado por ele. ´E justamente este processo que os estudiosos da psicologia marxista julgavam fundamental.

´

E nesse contexto que Vygotsky (1984) diz que “o indiv´ıduo modifica ativamente a situa¸c˜ao estimuladora como parte do processo de resposta a ela”, chamando a totalidade da estrutura desta atividade de media¸c˜ao. Para Vygotsky, a media¸c˜ao ´e um elemento intermedi´ario entre o est´ımulo e a resposta, e possibilita a transforma¸c˜ao da atividade, visto que o processo pelo qual o indiv´ıduo interage com o mundo externo ´e dinˆamico. Na atividade humana, o processo se torna dinˆamico porque o indiv´ıduo, ao agir sobre o mundo, pode experimentar feedbacks dessa sua a¸c˜ao. A partir da´ı, ele pode refletir, fazer escolhas e agir novamente, de maneira criativa, controlando o seu comportamento, de modo consciente.

Engestr¨om (1999a) entende que os seres humanos podem controlar seu comporta- mento n˜ao de dentro para fora, utilizando somente os instintos biol´ogicos ou a raz˜ao, mas de fora para dentro, usando e criando artefatos culturais. Os artefatos culturais fazem a media¸c˜ao entre o sujeito e o objeto material.

Assim, podemos entender que a media¸c˜ao consiste na rela¸c˜ao do ser humano com o mundo e com os outros seres humanos. Tal rela¸c˜ao n˜ao ´e direta, mas mediada pelos artefatos culturais, isto ´e, por ferramentas que auxiliam sua atividade. Os artefatos podem ser de duas naturezas: a) f´ısica ou material (instrumentos), b) simb´olica (signos).

Os instrumentos compreendem ferramentas que s˜ao usadas como um meio de tra- balho para dominar a natureza. J´a os signos compreendem a linguagem, os sistemas de contagem, as obras de arte, os mapas, dentre outros. Oliveira (1997) esclarece que os

instrumentos de natureza f´ısica ou material s˜ao elementos externos aos seres humanos, voltados para fora dele, e tˆem como fun¸c˜ao modificar objetos e controlar processos da natureza. Os instrumentos f´ısicos auxiliam em a¸c˜oes concretas. Por outro lado, os signos correspondem aos instrumentos psicol´ogicos e s˜ao as representa¸c˜oes mentais de objetos, eventos ou situa¸c˜oes do mundo real. Os signos s˜ao direcionados para o interior do sujeito, e tˆem a fun¸c˜ao de contribuir nas a¸c˜oes psicol´ogicas, tanto do pr´oprio sujeito, como dos outros.

Tanto os instrumentos quanto os signos s˜ao criados pelos seres humanos ao longo da hist´oria da sociedade e mudam a forma social e o n´ıvel de seu desenvolvimento cultural (Vygotsky, 1984). Em outras palavras, todos os artefatos utilizados s˜ao culturalmente constru´ıdos e est˜ao em um processo de desenvolvimento cont´ınuo. Al´em disso, novos artefatos podem ser criados de acordo com as necessidades humanas. Assim, eles incor- poram os valores espec´ıficos da cultura na qual est˜ao inseridos, de modo que a atividade executada pelos indiv´ıduos que utilizam tais artefatos estar´a amoldada aos valores e tra¸cos culturais da sociedade em que eles foram criados.

Asbahr (2005) enfatiza essa id´eia ao entender que os artefatos s˜ao meios culturais pelos quais os sujeitos podem agir na estrutura social, material e psicol´ogica, transformando o objeto de modo a suprir alguma necessidade. Ao suprir essa necessidade, explica a autora, novas necessidades e novas atividades s˜ao produzidas. Para isso, novos artefatos s˜ao desenvolvidos ao longo da hist´oria. Com isso, n˜ao apenas o objeto ´e transformado, mas tamb´em a atividade e o pr´oprio homem. Por meio dessas transforma¸c˜oes, os seres humanos, suas atividades e artefatos se desenvolvem mutuamente.

Engestr¨om (1999b) ressalta que a inser¸c˜ao dos artefatos culturais nas a¸c˜oes humanas foi revolucion´aria, pois passou a relacionar o indiv´ıduo com a sociedade: o indiv´ıduo n˜ao podia mais ser compreendido sem o seu meio cultural, e a sociedade n˜ao podia mais ser compreendida sem o poder de agir dos indiv´ıduos que usam e produzem os artefatos. Os objetos se tornaram entidades culturais e a orienta¸c˜ao da a¸c˜ao ao objeto se tornou a chave para compreender a psiquˆe humana.

Em se tratando de uma atividade de aprendizagem, os signos merecem destaque, visto que os mesmos atuam como instrumentos psicol´ogicos que agem nas quest˜oes internas do indiv´ıduo. Nas palavras de Vygotsky (1998):

A inven¸c˜ao e o uso dos signos como meios auxiliares para solucionar um dado problema psicol´ogico (lembrar, comparar coisas, relatar, escolher, etc.) ´e an´aloga `a inven¸c˜ao e uso de instrumentos, s´o que agora no campo psicol´ogico. O signo age como um instrumento da atividade psicol´ogica de maneira an´aloga ao papel de um instrumento no trabalho (p.70).

Quando pensamos em um curativo, n˜ao temos na mente o pr´oprio curativo, trabalhamos com uma id´eia, um conceito, uma imagem, uma palavra, enfim, algum tipo de representa¸c˜ao, de signo, que substitui o curativo real sobre o qual pensamos. Essa capacidade de usar as representa¸c˜oes para substituir o pr´oprio real ´e que possibilita ao ser humano libertar-se do espa¸co e do tempo atual, fazer rela¸c˜oes mentais na falta das pr´oprias coisas, imaginar, planejar e ter inten¸c˜oes. Posso pensar num curativo pequeno ou grande, limpo ou sujo, oclusivo ou aberto. Essas possibilidades de opera¸c˜ao mental n˜ao consistem numa rela¸c˜ao direta com o mundo palp´avel, pois ´e determinada por uma re- la¸c˜ao mediada pelos signos internalizados, libertando as pessoas da necessidade de intera¸c˜ao concreta com os objetos de seu pensamento (p.93).

Podemos entender os signos como instrumentos de trabalho da mente humana; sendo por isso, muito importantes para a realiza¸c˜ao de uma atividade de aprendizagem.

Kuuti (1996) discute o conceito de media¸c˜ao referindo-se ao fato de que o objeto n˜ao ´

e visto e manipulado em si mesmo, mas dentro das limita¸c˜oes impostas pelos artefatos. O que se vˆe e se apreende do mundo est´a delimitado pelas significa¸c˜oes e ferramentas de an´alise que se tem; ferramentas de media¸c˜oes distintas podem conduzir a entendimentos e modos de a¸c˜ao diferenciados. Tendo por base esta id´eia, pode-se conjecturar que in- div´ıduos de culturas diferentes podem analisar ou perceber um mesmo fato de maneiras diferentes. No caso de uma atividade de aprendizagem, pode-se perceber o qu˜ao impor- tante ´e se apropriar de e utilizar artefatos adequados para que os sujeitos construam o conhecimento satisfatoriamente. Nesse contexto, o dom´ınio de conceitos torna-se essencial para a contru¸c˜ao do conhecimento.

Adotando esta perspectiva, os estudos de Leontiev fortaleceram a natureza coletiva da atividade, superando limita¸c˜oes da primeira gera¸c˜ao da TA, que Engestr¨om (1999b) descreve como o fato de a unidade de an´alise estar ainda focada no indiv´ıduo. Os trabalhos de Leontiev caracterizaram a segunda gera¸c˜ao da TA. Este autor introduziu a divis˜ao do trabalho na atividade humana, o que permitia uma diferencia¸c˜ao entre uma a¸c˜ao individual e uma atividade coletiva.

3.1.3.2 A segunda gera¸c˜ao da TA

Como j´a antecipado, o segundo momento de desenvolvimento da T.A. acontece atrav´es dos estudos do psic´ologo sovi´etico Aleksei Nikolaevich Leontiev (1903-1979). Segundo o pr´oprio Leontiev, al´em das influˆencias marxistas, seu trabalho d´a continuidade aos estudos inicialmente desenvolvidos por Vygotsky, sistematizando alguns conceitos, como o de atividade. De fato, ´e nos trabalhos desenvolvidos por Leontiev (considerado o principal te´orico sobre a Teoria da Atividade) que podemos encontrar os conceitos fundamentais para a compreens˜ao da estrutura e fun¸c˜ao da atividade. Leontiev ´e o respons´avel por trˆes

conceitos/caracter´ısticas da atividade: 1)a orienta¸c˜ao a objetos, 2) a estrutura (n´ıveis) da atividade e 3) significado e sentido. Esses conceitos s˜ao discutidos a seguir.

Leontiev ressalta como caracter´ıstica b´asica da atividade a orienta¸c˜ao ao objeto. Uma atividade se move em dire¸c˜ao ao objeto de sua necessidade e termina quando essa neces- sidade ´e satisfeita. Uma necessidade s´o pode ser satisfeita quando encontra um objeto, e a este Leontiev denomina motivo. O motivo articula uma necessidade a um objeto, sendo, portanto, o fator impulsionador da atividade. Para a psicologia hist´orico-cultural, a necessidade ´e o que dirige e controla a atividade concreta do sujeito em um mundo objetivo. Mas apenas a necessidade n˜ao ´e capaz de provocar nenhuma atividade de modo definido. Para que a necessidade oriente e controle a atividade ´e necess´aria a existˆencia de um objeto que corresponda a essa necessidade, isto ´e, que seja idealmente capaz de satisfazˆe-la. Objetos e necessidades isolados n˜ao produzem atividades; a atividade s´o pode existir se houver um motivo (Leontiev, 1983). A atividade ´e, assim, considerada como uma atividade objetiva. O que distingue uma atividade de outra ´e o seu objeto. ´E esse objeto que d´a `a atividade a sua dire¸c˜ao. O objeto da atividade ´e a sua pr´opria motiva¸c˜ao. (Leontiev, 1981a).

Nas palavras do pr´oprio Leontiev (1978):

A primeira condi¸c˜ao de toda a atividade ´e uma necessidade. Todavia, em si, a necessidade n˜ao pode determinar a orienta¸c˜ao concreta de uma atividade, pois ´e apenas no objeto da atividade que ela encontra sua determina¸c˜ao: deve, por assim dizer, encontrar-se nele. Uma vez que a necessidade encontra a sua determina¸c˜ao no objecto (se“objetiva” nele), o dito objeto torna-se motivo da atividade, aquilo que o estimula. (p. 107-108)

Leontiev (1983) d´a um exemplo que favorece o entendimento da orienta¸c˜ao ao objeto: imagine que um sujeito est´a com fome, ou seja, ele tem a necessidade de comer. Uma forma de satisfazer a essa necessidade ´e buscar a comida, isto ´e, o objeto. Tal sujeito estar´a motivado para a atividade de buscar comida quando sentir a necessidade de comer e conseguir idealizar um objeto que poder´a satisfazˆe-lo. S´o ent˜ao ele ir´a pensar em o que poder´a fazer (a¸c˜oes) para satisfazer sua necessidade. As a¸c˜oes poss´ıveis ir˜ao depender das condi¸c˜oes hist´oricas e culturais de vida desse sujeito. ´E na busca da satisfa¸c˜ao da necessidade, e mediante um motivo, que se desenvolve a atividade.

Leontiev distingue a a¸c˜ao individual da atividade coletiva, organizando a atividade em trˆes n´ıveis distintos, por´em interdependentes: a atividade, a a¸c˜ao e a opera¸c˜ao.

A atividade ´e coletiva e definida pela necessidade e orientada para seu objeto ou motivo, conforme mencionado nos par´agrafos anteriores. N˜ao existe atividade se n˜ao existir um motivo. Motivos distintos determinam atividades distintas.

As a¸c˜oes s˜ao individuais. Indiv´ıduos do grupo que conduz a atividade realizam a¸c˜oes distintas, com metas individuais, estabelecidas a fim de se suprir a necessidade que gerou a atividade. Leontiev (1981a) explica que s˜ao as a¸c˜oes que traduzem a atividade em re- alidade, ou seja, a atividade humana existe somente na forma de uma a¸c˜ao ou de uma corrente de a¸c˜oes. As a¸c˜oes que constituem a atividade s˜ao direcionadas a determina- dos objetivos. Nesse sentido, uma atividade ´e normalmente desenvolvida por meio do agrupamento de a¸c˜oes que, por sua vez, s˜ao subordinadas a objetivos parciais.

Cada a¸c˜ao apresenta ainda o seu car´ater operacional, ou seja, o como algo deve ser feito. Os meios pelos quais uma a¸c˜ao ´e desenvolvida s˜ao chamados de opera¸c˜oes. E´ preciso fazer a distin¸c˜ao entre a¸c˜oes e opera¸c˜oes: as a¸c˜oes tˆem a ver com os objetivos e as opera¸c˜oes com as condi¸c˜oes, os meios (Leontiev, 1981a). As opera¸c˜oes tamb´em s˜ao individuais e dependem diretamente das condi¸c˜oes ou ferramentas sob as quais um objetivo concreto pode ser alcan¸cado. Uma mesma a¸c˜ao pode ser realizada em condi¸c˜oes materiais e com m´etodos ou ferramentas diferentes, isto ´e, por meio de opera¸c˜oes distintas. Al´em disso, as opera¸c˜oes s˜ao consideradas como procedimentos automatizados ou inconscientes, ao contr´ario da atividade e das a¸c˜oes, que s˜ao consideradas procedimentos conscientes.

Daniels (2003) transcreve dois exemplos fornecidos por Leontiev (1983), que nos aju- dam a entender os n´ıveis da atividade. O primeiro deles refere-se `a atividade de ca¸ca, realizada pelos membros de uma tribo:

Quando est˜ao ca¸cando, os membros de uma tribo tˆem, individualmente, metas separadas e est˜ao encarregados de diversas a¸c˜oes. Alguns est˜ao afugentando um bando de animais na dire¸c˜ao de outros ca¸cadores que abatem as feras, e outros membros tˆem outras tarefas. Essas a¸c˜oes tˆem metas imediatas, mas o real motivo est´a al´em da ca¸cada. Juntas, essas pessoas tˆem em vista obter comida e roupa - permanecer vivas. Para entender porque as a¸c˜oes separadas s˜ao significativas, ´e preciso compreender o motivo por tr´as da atividade como um todo. A atividade ´e guiada por um motivo. (p. 115-116)

Este exemplo evidencia a distin¸c˜ao entre motiva¸c˜ao e metas, (ou entre a atividade - motivo e as a¸c˜oes - objetivos), e a liga¸c˜ao entre esses dois n´ıveis da atividade. Considere, por exemplo, a a¸c˜ao de afugentar os animais. Se analisada isoladamente, tal a¸c˜ao n˜ao tem significado numa atividade de ca¸ca, pelo contr´ario, parece ser at´e mesmo contradit´oria ao objetivo (como vamos capturar um animal se o afugentarmos?). Mas em conjunto com a outra a¸c˜ao, ca¸cadores `a espera dos animais afugentados a fim de mat´a-los, ela adquire sentido para o sujeito. S´o ´e poss´ıvel compreender os significados das a¸c˜oes dentro do contexto da atividade e de seu motivo. Al´em disso, a atividade depende do sucesso das a¸c˜oes. Se uma das a¸c˜oes n˜ao se realiza, a atividade n˜ao pode se concretizar.

um carro, na atividade de dirigi-lo (Daniels, 2003):

No in´ıcio, toda opera¸c˜ao, como mudar as marchas, ´e formada com uma a¸c˜ao subordinada especificamente a essa meta e tem sua pr´opria base de orienta¸c˜ao consciente. Em seguida, a a¸c˜ao ´e inclu´ıda em outra a¸c˜ao, por exemplo, mudar a velocidade do carro. Mudar as marchas torna-se um dos m´etodos para atingir a meta, a opera¸c˜ao que efetua a varia¸c˜ao da velocidade, e mudar as marchas cessa agora de ser realizada como um processo orientado para uma meta: sua meta n˜ao ´e isolada. Para a consciˆencia do motorista, mudar as marchas em circunstˆancias normais ´e como se n˜ao existisse. Ele faz algo mais: ele tira o carro de um lugar, sobe ladeiras ´ıngremes, dirige o carro em alta velocidade, p´ara em determinado lugar etc. Na verdade, essa opera¸c˜ao [de mudar de marchas] pode, como se sabe, ser totalmente retirada da atividade do motorista e executada automaticamente. Em geral, o destino da opera¸c˜ao torna-se, mais cedo ou mais tarde, a fun¸c˜ao da m´aquina. (p. 116-117)

Este exemplo faz referˆencia ao terceiro n´ıvel da atividade, que ´e a opera¸c˜ao. Leontiev sugere que toda opera¸c˜ao primeiramente ´e exercitada conscientemente, no n´ıvel da a¸c˜ao, e tende a se tornar autom´atica. Ou seja, ap´os formada, a opera¸c˜ao passa a ser executada de maneira inconsciente pelo sujeito, como mencionado no exemplo: o motorista treinado, ao dirigir seu ve´ıculo, preocupa-se em conduzir o carro de acordo com seus objetivos, e n˜ao mais se lembra de que est´a mudando as marchas, como quando come¸cou a aprender a dirigir um carro. Este procedimento torna-se autom´atico.

A an´alise da estrutura da atividade em n´ıveis permite a compreens˜ao das suas re- la¸c˜oes internas e permite, ainda, a compreens˜ao das transforma¸c˜oes que surgem no de- senvolvimento da pr´opria atividade. ´E importante notar que a atividade ´e um processo caracterizado por constantes transforma¸c˜oes: uma atividade pode perder a motiva¸c˜ao que a inspirou; uma a¸c˜ao pode adquirir uma for¸ca energizante independente e tornar-se uma atividade em seu pr´oprio direito; ou uma a¸c˜ao pode, ainda, ser transformada em meios para que se alcance o objetivo, tornando-se uma opera¸c˜ao. A mobilidade interna do sis- tema de atividade acontece devido ao fato de que cada uma das suas unidades pode se fracionar ou ainda, de forma contr´aria, pode se agrupar a outras unidades, que inicial- mente eram independentes. Como pode ser observado, no curso de se alcan¸car um objetivo isolado, outros objetivos intermedi´arios podem ser identificados. Da mesma maneira, uma a¸c˜ao inicial pode ser separada em diversas a¸c˜oes sucessivas (Leontiev, 1981a).

O exemplo da ca¸cada, mencionado anteriormente, evidencia dois conceitos desen- volvidos por Leontiev: significado e sentido. O significado ´e atribu´ıdo `a atividade, sendo, portanto, coletivo. O sentido ´e atribu´ıdo `as a¸c˜oes, sendo, assim, individual. Leontiev (1978) diz que “as significa¸c˜oes s˜ao a cristaliza¸c˜ao da experiˆencia humana, representam

as formas como o homem apropria-se da experiˆencia humana generalizada.” Em out- ras palavras, como diz Asbahr (2005), a significa¸c˜ao ´e hist´orica e social, e est´a presente em todo o conjunto de representa¸c˜oes de uma sociedade, como sua ciˆencia e sua l´ıngua. Quando um sujeito nasce, ele j´a encontra um sistema de significa¸c˜oes pronto, e lhe atribui sentidos. De acordo com os sentidos pessoais que atribui ao mundo ´e que o indiv´ıduo se apropria ou n˜ao de suas significa¸c˜oes.

Leontiev (1978) diz que nos prim´ordios da hist´oria da humanidade, significa¸c˜ao social e sentido pessoal estiveram unidos e eram, de certa forma, coincidentes. Na sociedade de classes, por´em, significa¸c˜oes e sentidos n˜ao apenas deixam de ser coincidentes, como podem at´e mesmo tornar-se contradit´orios. ´E o que acontece, por exemplo, com muitos trabalhadores hoje: embora o significado social de seu trabalho seja produzir determinados produtos, o sentido de trabalhar ´e outro - obter um sal´ario, pois ´e sua ´unica forma de sobreviver. No contexto escolar, podemos exemplificar esta situa¸c˜ao com a realiza¸c˜ao de uma prova. O significado social da prova ´e o de verificar, aferir a aprendizagem do aluno; mas para muitos alunos, fazer a prova tem o sentido de obter nota (ainda que por meios il´ıcitos, que n˜ao demonstrem uma aprendizagem), visto que essa ´e a ´unica maneira pela qual ele pode ser aprovado no curso. A esta n˜ao coincidˆencia entre significado e sentido, (Leontiev, 1978, 1983) chamou de aliena¸c˜ao. Para este autor, tal ruptura entre significa¸c˜ao e sentido pode levar a contradi¸c˜oes e/ou `a realiza¸c˜ao de uma atividade alienada.

Luria (1987) complementa a defini¸c˜ao de Leontiev dizendo que o significado se refere ao “sistema de rela¸c˜oes que se formou objetivamente no processo hist´orico e que est´a encerrado na palavra. [...] ´e um sistema est´avel de generaliza¸c˜oes, que se pode encontrar em cada palavra, igualmente para todas as pessoas.” Ou seja: as significa¸c˜oes de um povo est˜ao consolidadas em sua linguagem, ou seja, nas palavras. O significado de cada palavra deve ser universal para determinada cultura. Como elucida Bernardes (2004), uma palavra possui um significado que a insere nas rela¸c˜oes s´ocio-hist´oricas e que lhe atribui uma caracter´ıstica pr´opria diante da atividade humana. O significado de uma palavra ´e