2.5 Coment´ arios Finais
3.1.4 Os princ´ıpios da Teoria da Atividade segundo Engestr¨ om
De acordo com Engestr¨om (2001), a TA possui cinco princ´ıpios fundamentais, a saber: 1)Contexto e unidade de an´alise; 2)Multivocalidade do sistema de atividade; 3)A histo- ricidade da atividade humana; 4) Contradi¸c˜oes internas como fonte de mudan¸ca; 5)A aprendizagem expansiva. A seguir, abordarei cada um dos cinco princ´ıpios.
3.1.4.1 Contexto e unidade de an´alise
Na perspectiva da TA, entende-se por contexto a atividade em estudo (Engestr¨om, 1993). O contexto de an´alise ´e a atividade ou sistema-atividade, que ´e coletiva. Ao analisar a atividade deve-se levar em considera¸c˜ao a divis˜ao do trabalho para a realiza¸c˜ao da atividade e as regras que cada participante do sistema deve observar.
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E importante ressaltar, por´em, que uma atividade n˜ao existe isoladamente. Ela se relaciona com outras atividades. De fato, um indiv´ıduo, ao longo de sua vida, participa de mais de uma atividade (trabalho, escola, fam´ılia, etc.), seja simultaneamente ou n˜ao. Uma atividade se relaciona com outras por meio da conex˜ao entre seus elementos, tais como sujeitos, objetos, instrumentos, etc.
Assim, para fins de estudos, seleciona-se a atividade que ser´a o foco da an´alise, sem desconsiderar a existˆencia de outras atividades interligadas a essa, e que podem, inclusive, interferir nela.
3.1.4.2 Multivocalidade do sistema de atividade
Para Engestr¨om (2001), o “sistema-atividade ´e constitu´ıdo por pontos de vista, tradi¸c˜oes e interesses m´ultiplos.” Em uma atividade coletiva existem diversos sujeitos, dotados de experiˆencias e hist´orias de vidas diferentes. Da mesma forma, os artefatos tamb´em s˜ao impregnados de hist´oria e valores.
Quando os sistemas-atividades est˜ao em intera¸c˜ao, as m´ultiplas vozes se multiplicam. Assim, a multivocalidade pode gerar problemas, ou pode, por outro lado, ser alterna- tiva de inova¸c˜ao. Como observado por Kawasaki (2008), cabe aos sujeitos da atividade compreenderem as diferentes vozes e articularem os diferentes pontos de vista, visando ao desenvolvimento da atividade pelo grupo, que inclui negocia¸c˜ao de regras e divis˜ao de pap´eis.
3.1.4.3 A historicidade da atividade humana
Conforme mencionado no in´ıcio deste cap´ıtulo, a TA tem suas bases na psicologia hist´orico-cultural, que tem como um de seus princ´ıpios a historicidade da atividade hu- mana. As atividades se constituem em um espa¸co e tempo, inseridos em uma dada cultura.
E se transformam ao longo do tempo. Assim, uma determinada atividade ser´a melhor compreendida mediante o entendimento de sua evolu¸c˜ao ao longo do tempo. As a¸c˜oes, problemas e resultados de uma atividade podem ser melhor compreendidos se analisados em seu contexto hist´orico.
3.1.4.4 Contradi¸c˜oes internas como fonte de mudan¸ca
De acordo com Engestr¨om (1999b), a id´eia de “contradi¸c˜oes internas como a for¸ca motriz da mudan¸ca e desenvolvimento do sistema-atividade” ´e uma das principais id´eias da TA em sua terceira gera¸c˜ao. A atividade ´e um sistema dinˆamico, que se encontra em constante transforma¸c˜ao. ´E natural que contradi¸c˜oes internas surjam e impulsionem o desenvolvimento da atividade, por meio de inova¸c˜oes e mudan¸cas. As contradi¸c˜oes s˜ao s˜ao acentuadas por transi¸c˜oes cont´ınuas e transforma¸c˜oes entre os componentes do sistema- atividade (sujeito, objeto, artefatos, regras, comunidade e divis˜ao do trabalho) e entre os n´ıveis da atividade coletiva (atividade, a¸c˜ao e opera¸c˜ao).
Contradi¸c˜oes s˜ao desequil´ıbrios ou tens˜oes que aparecem sob a forma de problemas dentro do sistema de atividade. Elas podem gerar dist´urbios e conflitos, e com isso, provocar o questionamento das pr´aticas por parte dos sujeitos. A tentativa de superar tais dist´urbios e conflitos pode causar rupturas, que por sua vez podem trazer mudan¸cas dentro da atividade, por meio de inova¸c˜oes propostas. Quando tais contradi¸c˜oes s˜ao superadas ´e que acontece o desenvolvimento. S˜ao as contradi¸c˜oes que impulsionam as mudan¸cas e o desenvolvimento da atividade (Engestr¨om, 1987).
Engestr¨om (2008) define dist´urbios como sendo “desvios do curso normal dos eventos no processo de trabalho, sendo normal o que ´e definido por planos, regras e instru¸c˜oes expl´ıcitas, ou tradi¸c˜oes assumidas tacitamente.”(p.24) Os dist´urbios podem ocorrer na rela¸c˜ao entre pessoas e objetos do mundo material, e s˜ao manifestados sob a forma de obst´aculos, dificuldades, fracassos, desacordos e conflitos.
O autor acredita ainda que estudar os pontos de tens˜ao de uma atividade ´e muito importante para compreendˆe-la. A percep¸c˜ao das contradi¸c˜oes ´e um ind´ıcio de mobili- dade e de capacidade de desenvolvimento do sistema de atividade. Analisar um sistema de atividade se refere a encontrar problemas, falhas e tens˜oes que possam auxiliar na identifica¸c˜ao das contradi¸c˜oes existentes nesse sistema.
3.1.4.5 A aprendizagem expansiva
As contradi¸c˜oes internas podem gerar tens˜oes, conflitos, ou desequil´ıbrios dentro do sistema de atividade. Podem tamb´em, por outro lado, permitir que a atividade se de- senvolva, por meio da resolu¸c˜ao de tais contradi¸c˜oes. As contradi¸c˜oes podem provocar o questionamento das pr´aticas por parte dos sujeitos, levando-os a ter iniciativas inovadoras para mudar a atividade, transformando-a (Engestr¨om, 1987).
Ciclo expansivo ou ciclo de expans˜ao foi o nome dado por Engestr¨on `a estrutura temporal evolutiva de um sistema de atividades. A evolu¸c˜ao hist´orica de um sistema de atividades pode ser entendida como estruturas de tempo c´ıclicas. Nesse caso, ciclos n˜ao transmitem a id´eia de movimentos repetitivos. O ciclo expansivo de Engestrom ´e carac- terizado por um movimento em espiral. Um ciclo expansivo possui fases de internaliza¸c˜ao e de externaliza¸c˜ao, que s˜ao elementos pressupostos na atividade humana.
Internaliza¸c˜ao ´e o processo de assimila¸c˜ao ou apropria¸c˜ao da experiˆencia acumulada pelo gˆenero humano no decurso da hist´oria social, isto ´e, das conquistas e do desen- volvimento espiritual das gera¸c˜oes humanas anteriores (Leontiev, 1991). A internaliza¸c˜ao est´a relacionada com a reprodu¸c˜ao da cultura: o indiv´ıduo internaliza conhecimentos, conceitos, valores e significados e passa a reproduzi-los em suas rela¸c˜oes sociais.
Por outro lado, tem-se o processo de externaliza¸c˜ao, que est´a relacionado com a trans- forma¸c˜ao da cultura: o ser humano, com sua capacidade criativa, ´e capaz de transformar a realidade. De acordo com Engestr¨om (1999a), na externaliza¸c˜ao, uma representa¸c˜ao interna se transforma em externa por meio da fala, do gesto, da escrita, da manipula¸c˜ao do material dispon´ıvel. No processo de externaliza¸c˜ao podem ser criadas novas ferramen- tas mediadoras. A externaliza¸c˜ao acontece quando h´a proje¸c˜ao e implementa¸c˜ao de um novo modelo para a atividade e, conseq¨uentemente, o surgimento de uma nova estrutura, gerando a cria¸c˜ao de novas regras e padr˜oes. Normalmente, a externaliza¸c˜ao acontece primeiro como uma inova¸c˜ao individual a fim de se solucionar falhas e resolver problemas resultantes de contradi¸c˜oes do modelo. Quando o novo modelo se estabiliza na sociedade, o processo de internaliza¸c˜ao recome¸ca (Engestr¨om, 1999a).
De acordo com Engestr¨om (1999a), um ciclo expansivo ´e formado por sete a¸c˜oes de aprendizagem, permeadas pelos processos de internaliza¸c˜ao e externaliza¸c˜ao:
1. Questionando (os aspectos da pr´atica atual);
2. Analisando (a situa¸c˜ao, para descobrir causas ou mecanismos explanat´orios); 3. Modelando uma nova situa¸c˜ao;
4. Examinando o modelo, a fim de perceber potencialidades e limita¸c˜oes ; 5. Implementando o novo modelo;
6. Refletindo sobre o novo modelo (avalia¸c˜ao do modelo); 7. Consolidando uma nova pr´atica.
O movimento caracterizado pelo ciclo expansivo ´e uma cont´ınua constru¸c˜ao e res- olu¸c˜ao de tens˜oes e contradi¸c˜oes em um sistema de atividade, transformando-o e dando origem a novas formas de organiza¸c˜ao social.