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As infindáveis folhas do que era um simples manuscrito

“MEU BUM JISUIS” TUDO ISSO É FANDANGO?

2.3 As infindáveis folhas do que era um simples manuscrito

Parecia-me natural o interesse pelas ‘coisas antigas’, visualizado nas coleções de latinhas (da qual me aproximei das 400 - a maior coleção em Guaraqueçaba), de selos, de moedas, de conchas, principalmente itens que remetiam à minha terra (recortes de jornais, cartões, imagens), caracterizando certo Gabinete de Curiosidades42, sem muita ordenação técnica/temática e mesmo sem condições para qualquer aquisição que dispendesse recurso, tornava-se crescente este acervo, informações que, nos primeiros anos da década de 90 começava a transcrever para um caderno43.

Era de fácil acesso os materiais de divulgação da APA, ESEC, ARIE, PARNA, pois além de recém-criadas, ainda estava em pleno funcionamento o Centro de Visitante destas UCs, única referência sobre a história da cidade numa exposição organizada por Miguel Fernando Von Behr44.

41 As blusas tipo “xadrez” tornaram-se estereótipo de caipira, muito usadas em épocas juninas, recebendo, conforme reportagem do jornal O Diário do Paraná (edição de 02.7.78), críticas de Inami Custódio Pinto, pois as festas juninas simboliza a ridicularização que é feita com o homem do campo, dizendo ser o Fandango autêntico, pois a quadrilha era da aristocracia, e

“quando a aristocracia enjoa de alguma coisa esta é adotada pelos populares”.

42 Para uma melhor compreensão acerca do Gabinete de Curiosidades ver: Raffaini (1993).

43 Surpresa para mim também foi descobrir anos mais tarde os registros históricos, em ordem cronológica, que papai fazia de fatos mundiais e regionais, num velho e rabiscado caderninho.

44 Como papai era Presidente da Colônia de Pescadores Z-2, teve acesso a uma cópia encadernada das pesquisas de Miguel, com a qual iniciei meus estudos; mais tarde, adquiri a

Além de vendermos alguns “ossinhos” retirados de sambaqui e outras coisas antigas, como moedas, por exemplo, cada visita ao “Museu do Ibama”, como chamávamos, resultava num novo folder, novas informações a acrescentar naquele caderno de anotações sobre Guaraqueçaba45.

As primeiras informações sobre Fandango neste caderno de anotações derivaram do texto teatral “Fandango46”, encenado pelo Grupo Teatral Pirão do Mesmo e que tive acesso logo após minha inserção (1996) neste

eu sou o Fandango. Eu venho da mistura das raças e da desgraça, da música e da dança de índios, negros, portugueses e espanhóis.

Eu tenho a marca batida e a valseada e de primeiro depois da Chimarrita de Louvação o povo que dança tem que dançar o Anú que é pra espantar o azar da festa. (PERRÉ, 1996. p. 01).

Este texto de teatro era resultado das incursões de seu autor Renato Perré47 na Ilha dos Valadares, em Paranaguá, porém, amplamente baseado nas pesquisas48 do folclorista Profº. Inamí Custódio Pinto pela região, as quais à época não tínhamos nenhum acesso em Guaraqueçaba.

A partir da leitura e consequente compilação de partes desse texto de teatro, nascia um novo capítulo em meu caderno de anotações, dedicado a cultura, ao Fandango, especificamente.

Buscando entender nossa relação com nossas tradições, ponto de partida de seu trabalho com os grupos de teatro de Guaraqueçaba, durante a oficina de Teatro de Formas Animadas e Educação Ambiental que ministrava,

publicação (BEHR, 1998); em 2015, Miguel F. Von Behr, esteve no Rancho Caiçara, em Guaraqueçaba, participando da Expedição Mata Atlântica, com a Ong Brasil Verde.

45 Á época, ainda nos anos iniciais do Fundamental II, durante a festividade alusiva ao aniversário do município, utilizei dessas minhas anotações para participar do concurso de redação sobre história de Guaraqueçaba, para o qual elaborei a pesquisa, incluindo desenhos;

Dona Geni [Eugênia Nascimento Viana], detentora de uma belíssima caligrafia, descendente que é da Família Nascimento, gentilmente transcreveu o título na capa, porém, o trabalho foi desclassificado, pois a Comissão Julgadora, presidida pelo então Diretor, me considerou “sem condições de fazer aquele trabalho”.

46 Este texto e sua influência em Guaraqueçaba foi objeto de estudo de Madrid e Jorge (2004).

47 Carioca radicado em Curitiba, é Autor, Diretor e Ator-bonequeiro da Cia. Teatro Filhos da Lua; em 1996 encenaram o espetáculo de bonecos gigantes “O Auto do Mundo”, em Guaraqueçaba.

48 O Profº. Inami Custódio Pinto (1930-2014) é referenciado em diversas pesquisas sobre Fandango, como por exemplo: MARCHI (2002); NETO (2004); SILVEIRA (2014).

em sua primeira aproximação, no ano de 1999, Itaércio Rocha49, ao visualizar alguns trechos de meus escritos sobre Guaraqueçaba - certamente nenhuma novidade para ele aquelas ínfimas linhas sobre Fandango - sugeria (ou influenciava) alguns entendimentos e atitudes; ao verso anotado “o Anú é pássaro preto / o Anú é pássaro preto / passarinho do verão...”, aconselhava a substituição de ‘pássaro’ pela palavra ‘passo’, conforme realmente soava durante a cantoria, em valorização a riqueza da cultura oral; apresentava, portanto, um “novo olhar” para as próprias anotações/pesquisas que timidamente eu realizava, podendo anotá-la conforme se registrava.

Novas informações no manuscrito50, referentes ao Fandango e também Romaria do Divino Espírito Santo, teve por maior incentivador a figura do Itaércio Rocha, que bem sabia, acredito, dos resultados que apresentaríamos, pois em sua oficina, a técnica bonequeira e a confecção de bonecos utilizando materiais recicláveis, deveriam estar alinhadas a enredos e tramas baseados na cultura local, da qual não possuíamos registros, daí, deveríamos realizá-los.

Num final de tarde, fomos, Ivan Araújo e eu, munido de um velho gravador (já citado na apresentação) à casa da Profª. Isolina Dias Mendonça que, recém mudara de Vila Fátima para Guaraqueçaba, juntamente com o esposo [José Norberto Mendonça (In Memoriam)], os filhos Marinéia, Gisele, Marcelo e Mariele e a mãe Dina Alves Costa (In Memoriam).

Dona Dina era nascida no Varadouro no ano de 1938, tendo vivenciado os bons tempos do Fandango naquela região e como sabíamos – pelos netos - dos infindáveis versos cantarolados por ela em casa, a escolhemos para nossa primeira entrevista.

Sem muita técnica, Ivan Araújo conduziu a conversa, enquanto eu gravava; a gravação51 teve problemas oriundos exatamente da falta de habilidade no manuseio do equipamento, uma vez que, pensando em economizar e aproveitar o máximo do tempo disponível na fita K7, desligava-o a cada final de verso, religando-o rapidamente quando iniciava outro; estas

49 Maranhense radicado em Curitiba, Ator-bonequeiro, Dançarino, Músico, Carnavalesco, estudioso das manifestações populares brasileira, fundador do Grupo Mundaréu.

50 Aquele Caderno de Anotações passou a ser digitado e guardado em Diskets; pouco tempo depois, Dudu Schotten o imprimiu, em sua impressora que ganhara dos pais; esta impressão avolumava-se, pois recebia diariamente novas anotações.

51Em 2016 tive a possibilidade de converter estes ‘velhos’ K7 em Cd, digitalizando a mídia e realizando entregas, tão logo possível, aos familiares.

interrupções resultaram em alguns versos incompletos, mas D. Dina cantou diversos, os quais resultaram, além de versos para os enredos teatrais que se construíam na oficina, também em novos dados para o velho caderno de anotações.

Itaércio Rocha, num novo encontro, deixou-me seu gravador portátil, alguns pacotes de pilhas e algumas fitas K7, com o qual, ainda em 1999, realizei registros em casa, com papai [José Hipólito Muniz], numa tarde fria e chuvosa... Algum tempo depois, a oficina terminou, as fitas acabaram, as pilhas descarregaram, o gravador foi devolvido, mas as entrevistas seguiram, inúmeras delas, com diversas pessoas, novas temáticas, acrescentando ao manuscrito que possuía sobre a região de Guaraqueçaba.

Estas informações configuram, hoje, blogs, referenciados em outras pesquisas, algumas já publicadas em artigos, outras compõem livros publicados e novos livros, agora servindo como fonte secundária neste estudo autobiográfico.