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O Biju de Tapioca, o de Cuscuz e o de Goma

“MEU BUM JISUIS” TUDO ISSO É FANDANGO?

2.7 O Fandango “do tempo de dantes” em Guaraqueçaba

2.7.4 Os instrumentos 123 do Fandango Caiçara

2.7.6.4 O Biju de Tapioca, o de Cuscuz e o de Goma

Já o Biju de Tapioca, o de Cuscuz e o de Goma, seguem conforme ensinado por José Hipólito Muniz e Maria Pires Muniz (2008)

[Biju de Tapioca] rala a mandioca, leva pra prensa e quando a massa tiver bem enxuta é coada em peneira fina. Daí tempera com sal, cravo moído e põe fubá [ou arroz]. Leva ao forno, podendo fazer com punhados enrolados em folhas de banana-maçã [melhor folha], pode fazer redondo ou em pedaços finos para enrolar depois.

[Biju de Cuscuz] depois de ralada e prensada, a massa é misturada com um pouco de fubá e vai para o cuscuzeiro [panela de barro cheio de furos no fundo]. O cuscuzeiro é forrado com folhas de banana nova ou palha de milho. Põe o cuscuzeiro dentro de uma panela com água, barreia a tampa e leva a ferver em banho-maria por cerca de 30 minutos.

[Biju de Goma] enquanto prensada, a massa enxuga deixando escorrer a mandiquera despejada na gamela. Com tempo, a goma vai assentar no fundo da gamela. Depois de assentada a goma é levada ao sol e seca bem, mistura-se com cerca de 30% da massa e vai ao forno.

IMAGEM 40 – Cuscuzeiro feito por Senhorinha Romão (acervo do Museu Paranaense);

Cuscuz (feito na Barra de Ararapira em julho de 2016) e Biju (feito no Batuva em julho de 2016)

Fonte: Zé Muniz, 2015 e 2016.

2.7.6.5 “Um bocadinho de pinga”

“A cachaça é moça branca filha de homem de bem quem se mete na Cachaça não guarda nem um vintém”

(“pé de moda” recolhido com Vicente França).

Frequente no mutirão e muito mais no Fandango era a cachaça.

Conforme Dorçulina Eiglmeier (2004), “de meia em meia hora, o dono da casa dava um bocadinho de pinga pros violeiros, pra agradar, né. Daí eles cantavam mais”; porém, dentro da tradição do respeito, de acordo com José Hipólito Muniz (2008) “o filho não oferecia bebida alcoólica pro seu pai e só os casados bebiam”; já Isolina Mendonça (2004) diz ser a pinga “controlada pelo dono do multirão, servindo no trabalho e no almoço e no baile ficava um pouco mais liberado. Para as mulheres serviam vinho”.

Há uma infinidade de cachaças na região, muita delas curtidas com infusão de raízes, folhas, frutos, como em licores; algumas inusitadas como a infusão de cobras212, Jararaca (Bothrops jararaca), por exemplo, que Zelândio Amorim tinha no Bar Guaricana, em Guaraqueçaba, também tio Rubens Muniz em Barra de Ararapira, o mesmo que criou a Cataia, quando colocou em infusão as folhas da Cataia213 (Pimenta pseudocaryophyllus (Gomes) Landrum), já utilizada como remédio e tempero; outras com tocos de madeira da Canela-Sassafrás (Ocotea odorifera), plantas como a Dedo-de-Caranguejo (indeterminado).

Na comunidade de Rio Verde, de acordo com Genésio Viana214 é tradicional o consumo do Amargoso215, produzido na Sexta-Feira-Santa, com

212 No preparo, corta-se um palmo para baixo da cabeça da cobra e um palmo para cima do rabo, assim evitando a contaminação ou morte pelo veneno. É um afrodisíaco, dizem, despertando o interesse das mulheres pelo homem que o bebe, pois a bebida serve para medir a hombridade masculina.

213 Sobre a Cataia ver: Muniz; Sulzbach (2015).

214 Informado por seu pai Genésio Viana a Cristiano Tobias Viana, da comunidade de Rio Verde e gentilmente cedido no ano 2000.

215 Sobre o “Amargoso” ver o documentário Amargoso (FUNDAÇÃO TEATRO GUAÍRA, 2006);

também o artigo de Muniz; Da Silva (2016).

raízes retiradas antes do nascer do sol, incrementado com outros ingredientes como o Alho, a Arruda, a raíz de Guiné, o Betarú, o Capiá e o Fé-de-Gozo, com raspas de Milome, de chifre de Veado, de espora de Arraia, de bico de Macuco, de pata de Anta e de focinho de Porco; em Guaraqueçaba Airton Viana (In Memoriam) chamava de “Fecha-Corpo”, porém, em infusão com a pinga iam apenas o Alho, o Alecriam, o Guiné e a Arruda, servindo ainda para afastar o mau olhado e trazer boa sorte, o mesmo ainda praticado por Humberto Soares.

Quando da falta da cachaça artesanal, de alambique, antigamente produzida na região, a Quira era servida, tratando-se da garapa extraída da cana e apodrecida por cerca de 30 dias, numa garrafa de plástico, ficando enterrada durante três dias com o bagaço dentro, conforme ensinou Manoel Amorim (2007); já a Consertada, de acordo com Ermelina Gomes (2009), era feita a partir do vinho fervido, acrescentando a este o gengibre, o maná, o açúcar, o cravo e o aniz, tomado ainda quente; mais simples era o preparo da gemada, de acordo com José Hipólito Muniz (2008), onde apenas misturava-se o ovo e a açúcar ao vinho ou a cachaça, batendo-os, por isso também chamada de ‘melado’; Antônio Alves Pires (2004) relembrando o preparo do Quentão, ainda na lata de querosene, quando “colocava gengibre moído e água, na pinga, depois colocava pra morná e perder a quentura. Era gente, mas era a noite toda com o copo na mão”.

Antônio Alves Pires (2004) ensina ainda a fazer o melado da cana:

então leva [a garapa] pra ferver, no fogo ou no forno da farinha, mexendo sempre até atingir o ponto grosso, num ponto melado mesmo. Para ver se está pronto, pega um pouquinho de água, num pratinho e pinga uma gota do melado em cima; se fizer uma bolinha, redondinha, está no ponto certo. Mistura a farinha torrada e come.

Além de consumir misturado com a farinha, o melado é o ingrediente para a Mãe c’a Filha, temperando a cachaça (podendo também ser com mel de abelha), por isso, Mãe c’a Filha, pois o melado216 e a cachaça, ambas provém da cana; Eugênio dos Santos ainda preparava em Ilha dos Valadares o

“Fuscão Preto”, com receita sigilosa e servido apenas na Casa do Fandango.

216 A garapa, se fervida, sempre a ser mexida, vai transformar-se em melado; Acaso continue a mexer, passando do ponto deste, têm-se a rapadura e esta deve ser enrolada em folha de milho, a esfriar.

Antônio Alves Pires (2004) lembrava uma moda da “cachaça”, provavelmente música sertaneja que recebe adaptação no Fandango Caiçara:

“eu tomo pinga / é porque me dão / a pinga é boa / é alimentação / por causa da pinga / eu não quero pão / quando vejo copo / em cima do balcão / fico com os olhos aceso / igual lampião”.

Configuram todas estas informações, o Fandango Caiçara do ‘tempo de dantes’, conforme acontecia na região de Guaraqueçaba, em sua ‘essência’ ou mesmo ‘pureza’, fruto da convivência caiçara, sem a intervenção exógena, porém ainda não o define completamente.

Cruz (1969) em matéria intitulada “Guaraqueçaba: a descoberta do tempo perdido”, publicada no Jornal Diário do Paraná (edição de 13 de junho de 1969), acerca do Fandango, afirma: “ainda há tanta coisa! [...] e há mais coisa ainda!”.

IMAGEM 41 - selos sobre Fandango do Paraná (1982)

Fonte: Zé Muniz (acervo).

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AS MUDANÇAS, TRANSFORMAÇÕES E CONSEQUENTE