REPRESENTAÇÃO GRÁFICA MODERNA 1.3.1 Designer e tipógrafo
4) Nas iluminuras, textos e imagens não se justapõem, mas são dispostos em lugares separados no espaço da página, e a
2.2. ASPECTOS DA NOVA MÍDIA NO CONTEXTO SOCIAL
O livro já não exerce o poder de que dispôs antigamen- te, já não é o mestre de nossos raciocínios e sentimentos em face dos novos meios de informação e comunicação, de que doravante dispomos. (HENRI-JEAN MARTIN apud CHARTIER, 1994).
Esta seção discute alguns aspectos da relação entre o texto digital apresentado na tela interativa e o leitor, mediada pelas linguagens da representação gráica. Parte das inquietações enunciadas por Chartier em seu artigo “Do códice ao monitor: a trajetória do escrito” (1994), no qual o autor relete sobre os efeitos de uma revolução tida como inevitável e que, caracte- rizada pela alteração radical das modalidades de produção, transmissão e recepção do escrito, é bem-vinda por uns e te- mida por outros. Pode-se inserir a preocupação de Chartier no âmbito das discussões acerca dos modos de circulação dos tex- tos, bem como dos modos de controle da disseminação destes. Recordando a suposicão de Foulcault em sua aula inaugural no Collège de France proferida em 19705, “a produção dos discur- sos é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e distribuída por um certo número de procedimentos que têm por função esconjurar os seus poderes e perigos, dominar o seu acontecimento aleatório, esquivar a sua pesada e temível mate- rialidade”. Ou seja, propomos, para efeito desta relexão, que há
uma relação válida e, neste caso especíico, equivalente entre o que Chartier chama de texto e o que Foucault chama de dis- curso. Interessa-nos pensar, sob a perspectiva da programação gráica, os aspectos decorrentes do surgimento dos textos em formato digital.
Soma-se a isso a questão da imagem. Para tanto parece útil, para a discussão aqui apresentada, iniciar com algumas ponde- rações provindas da Antropologia Visual. Ribeiro (2005), ao bus- car caracterizar a disciplina da Antropologia Visual e seus usos na pesquisa acadêmica lembra que a ciência e a antropologia permanecem sobretudo textuais, e à imagem pouco mais res- ta do que servir a propósitos de ilustração ou popularização da ciência. Observa entretanto que, a partir dos anos 1960, com a disponibilidade cada vez maior de recursos de áudio e vídeo, cada vez mais melhores e mais soisticados, essa condição se transforma, ainda que, na academia, esses recursos ainda per- manecessem durante décadas algo relativamente difícil de se obter em virtude de envolverem “pesados investimentos”. Ou seja, a investigação das e pelas imagens permaneceu uma prá- tica pouco adotada e de difícil manejo. Para o autor será com o advento da era digital, na década de 1990, que se atribui maior autonomia aos pesquisadores que assim dão encaminhamento a projetos de pesquisa ligados às imagens, como a elaboração de ilmes e documentos visuais digitais. Interessa-nos, sobretu- do, para efeito da argumentação apresentada nesta disserta- ção de mestrado, o que Ribeiro airma a seguir, ou seja, que as “razões evocadas de natureza epistemológica, decorrentes do estatuto e da natureza da imagem, encobrem, por vezes, com- plexas relações de poder, o caráter conservador das instituições e a pouca abertura à sociedade e à inovação” (p. 616). Para o autor, “só as tecnologias digitais viriam a abrir brechas nesse edifício a romper com alguns desses atavismos” (idem). O que parece estar em questão para Ribeiro é a operação dos jogos de poder ou, se quisermos, as formas de controle do discurso, que atribuem autoridade e legitimidade a certas formas de discurso proferidas por certos agentes, em detrimento de outros. O que nos remete de volta a Foucault.
Se nossa leitura de Foucault está correta, os procedimentos de exclusão são certamente conhecidos em sociedades como a nossa. Para o autor, três são as instâncias mais reconhecíveis de exclusão, ou controle, das quais fazemos aqui uma síntese:
Interdicão: não é qualquer um que pode falar e não se pode falar qualquer coisa de qualquer jeito (tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala). Veja-se, por exemplo, o pronunciamento das palavras que concretizam um casamento – não basta decorá-las, é preciso
que um padre ou então um juiz as pronuncie para que tenham eicácia. O modo como se estabelecem essas interdições é mu- tável, portanto, histórico. Um exemplo disso é a possibilidade de as mulheres hoje poderem pronunciar-se e serem ouvidas acerca de muitos temas que lhes eram proibidos no passado. As crianças, por outro lado, continuam em grande parte excluídas do discurso, na medida em que sua fala permanece sendo pou- co considerada.
Imaginemos, entretanto, as possibilidades que no momen- to se abrem para a des-interdição em escala surpreendente dos discursos, representadas pelos recursos oferecidos pela inter- net. O pronunciamento da palavra não apenas escrita, mas dita, circula em escala admirável contando com as possibilidades de transmissão via web e com os recursos multimídia que permi- tem associar ao texto o vídeo e o som.
Distinção entre razão e loucura. O discurso do louco não é reconhecido, ou então nele se reconhece uma verdade oculta, inacessível às pessoas razoáveis. De todo modo, o discurso da loucura não merece a mesma consideração do que o discurso da razão. Não se escuta o louco. Mesmo depois do advento da Psicanálise, que pretende ser capaz de promover a cura por meio da escuta da palavra louca, a distinção permanece, já que, no set psicanalítico, de um lado posiciona-se o paciente que fala o discurso da loucura; do outro lado, a razão do psicanalista que escuta em silêncio.
Que dizer dessa distinção quando a circulação dos discursos via internet toma a dimensão que possui atualmente? Prova- velmente poderemos ver na programação gráica, que implica ordenar visualmente as informações que circulam, um tipo de instrumento de “distinção” e “interdição”. Aos textos e recursos visuais que circulam tendo sido produzidos e organizados in- formalmente pelos mais diversos tipos de indivíduos (vídeos caseiros, blogs pré-programados, etc..) opõem-se aqueles dis- cursos cuja forma é trabalhada e apresentada de modo prois- sional, trazendo em si um tipo de conhecimento e expressão que provavelmente contêm poderes de distinção e autorização. Os procedimentos de controle do discurso, tal como enuncia- dos por Foulcault em 1970 mostrar-se-iam agora operando na escala dos textos eletrônicos e difundíveis em ampla escala via internet.
Prosseguindo com os tópicos que caracterizam os proce- dimentos de controle externos ao discurso, parece-nos que a ideia de que a programação gráica, com seus sentidos implíci- tos de ordem, disciplina e estética, também pode ser vista como instrumento de legitimação.
Distinção entre o verdadeiro e o falso. Foulcault assim inicia este trecho:
Talvez seja arriscado considerar a oposição do verdadei- ro e do falso como um terceiro sistema de exclusão, ao lado daqueles que acabo de falar. Como se poderia razoa- velmente comparar a força da verdade com separações como aquelas, separações que, de saída, são arbitrárias, ou que, ao menos, se organizam em torno de contingên- cias históricas; que não são apenas modiicáveis, mas es- tão em perpétuo deslocamento; que são sustentadas por todo um sistema de instituições que as impõem e condu- zem; enim, que não se exercem sem pressão, nem sem ao menos uma parte de violência. (p. 13-14).
Poderíamos airmar com razoável grau de certeza que, de fato, a aparência, a forma “externa” do discurso corrobora na legitimação da carga de “verdade” que pretende conter? Em caso airmativo, seria preciso que chegássemos a alguma con- clusão, ou ao menos a um conjunto de considerações razoa- velmente críveis do que constituiria essa verdade. Parece-nos, entretanto, que esse não é absolutamente o ponto, e que, do ponto de vista da circulação dos textos eletrônicos via tablets, a noção de “verdadeiro” está ligada fortemente, ainda que não exclusivamente, ao menos no contexto deste trabalho, à retó- rica visual construída pela programação gráica. Seu aspecto complementar é o papel das instituições ou indivíduos que possuem acesso aos recursos da programação gráica e dele fazem uso sistemático, como é o caso das editoras. Aqui estão envolvidos aqueles tópicos que são próprios ao campo do de- sign, como a criação de identidades visuais e seu impacto em setores especíicos da sociedade. Esse tipo de relexão pode ser estendido às análises do capítulo 4, sobre formas de repre- sentação gráica em diferentes materiais como jornal, revista, livro, catálogo, e como estão sendo trabalhados graicamente na tela digital do tablet.
Em suma, a “ordem do discurso” e os controles do discurso são formas de poder que promovem intensas disputas entre campos de poder e campos culturais, para usar duas noções de Pierre Bourdieu. Enquanto o campo do poder opera como uma coniguração do capital (econômico, cultural e simbólico) – que condiciona as relações e práticas dentro desses campos – o campo cultural pode ser deinido como uma série de ins- tituições, regras, rituais, convenções, categorias, designações e compromissos que constituem uma hierarquia objetiva, e que produz e autoriza certos discursos e atividades. Para efeito da argumentação do trabalho aqui apresentado, esses aspectos
serão ensaiados do ponto de vista dos conhecimentos convoca- dos e expressos no trabalho de programação gráica.
Cabe observar aqui que, mencionar como tema de relexão possível a perspectiva foucaultiana, não signiica que possa- mos aceitar como deinitivas “as explicações unívocas, as fá- ceis interpretações e igualmente a busca insistente do senti- do último ou do sentido oculto das coisas – práticas bastante comuns quando se fala em fazer o estudo de um ‘discurso’”. (FISCHER, p. 198, 2001) Retomando o raciocínio de Ribeiro, im- porta, outrossim, observar que novas problemáticas emergem com a passagem da era da reprodutibilidade técnica, tal como colocada por Benjamin em 1936, para a era da transformação digital, (JENKINS, 2003, apud RIBEIRO, 2005). Harvey (1992), comentando Benjamin, pondera que este último considerava que, se em princípio, uma obra de arte sempre foi reprodutível, a reprodução mecânica representaria uma coisa nova. Harvey prossegue ponderando que a reprodutibilidade mecânica viria a tornar concreta a previsão de Valéry: “Do mesmo modo como a água, o gás e a eletricidade chegam até nossas casas, vindos de longe, para satisfazer as nossas necessidades de seguir o princípio do mínimo esforço, assim também seremos supridos de imagens visuais ou atividades que vão aparecer e desapare- cer a um simples movimento da mão”. (VALERY, apud HARVEY, 2009, p. 311). Se por um lado, como Harvey observa, as conse- quências antevistas por Benjamin foram “acentuadas múltiplas vezes pelos avanços da reprodução eletrônica e da capacidade de armazenar imagens, retiradas de seus contextos reais no es- paço e no tempo, para uso e recuperação instantâneos numa base de massa”, por outro, aparentemente nem mesmo Harvey poderia supor o grau de precisão que essa previsão atingiria quando, em 2010, a Apple lançaria o iPad, tablet cuja caracte- rística mais marcante parece ser a manipulação de imagens por meio de movimentos das mãos.
O autor prossegue considerando que o papel aumentado das massas na vida cultural teve consequência positivas e ne- gativas. A facilidade com que regimes autoritários na primeira década do século XX conseguiram fazer uso da disseminação em massa de imagens sugere que a democratização da cul- tura para as massas não fora, necessariamente, uma “benção absoluta”. Com efeito, como Foucault parece ter enunciado de forma contundente em 1970, o que Harvey vê em jogo aqui é uma análise da produção cultural e da formação dos juízos estéticos mediante um sistema organizado de produção e de consumo mediado por divisões do trabalho, exercícios pro- mocionais e arranjos de marketing soisticados. Para o autor, em nossos dias, “o sistema inteiro é dominado pela circulação do capital”.
A relação entre a circulação de imagens em massa e de capi- tais, portanto, pode ser vista como uma relação importante na compreensão dos modos como essas imagens são preparadas e produzidas.
Ribeiro, por exemplo, verá um impacto decisivo dos pro- cessos econômicos na circulação das imagens pelo ágil meio digital, que “volatiliza fronteiras”. Cita, por exemplo, Elsaeser (2001, apud RIBEIRO, 2005), ao identiicar um processo de ocultamento do
processo de concentração econômica à escala global, que começou antes da revolução digital e implica em grandes inovações em tecnologias tão díspares como a propulsão a jato e a tecnologia de satélite, os cabos de ibra ótica e o transistor; ignora os realinhamentos geopolíticos das últi- mas décadas desde as crises do petróleo e do colapso do comunismo, que levaram à transição de blocos de poder ideologicamente opostos para blocos de comércio neoli- berais e capitalistas e aos mercados emergentes da Ásia e da América Latina; não considera a desregulamentação (i.e., as alterações jurídicas e institucionais) que tem vindo a afetar as indústrias de televisão nacionais e os monopó- lios de telecomunicações controlados pelo Estado ou por grandes grupos nos países industrializados. (ELSAESER 2001, apud RIBEIRO, 2005).
Para ins de delimitação especíicos a esse trabalho, o que nos interessa é esclarecer que o interesse da discussão ante- riormente apresentada é enfatizar que, quando falamos do papel da representação gráica nos textos digitais dos tablets, temos em vista objetivos das estratégias projetuais na disci- plina da representação gráica. Nela as premissas de projeto frequentemente são convocadas com o objetivo de atribuir maior clareza de compreensão de informações, de chamar maior atenção e de captar e estabelecer uma conexão forte com o leitor. Constituem-se também, voluntariamente ou não, em mecanismos de controle do discurso, tal como enunciara Foucault, e portanto são passíveis de serem apropriadas para ins de aquisição e acúmulo de capital, seja este capital de na- tureza econômica, seja de natureza cultural ou simbólica. Na seção seguinte, entretecemos aspectos sociais e digitais rela- cionados aos textos projetados e acessados nos tablets, na ex- pectativa de preparar o terreno para as análises projetuais que comparecerão no capítulo 4.