• Nenhum resultado encontrado

ASPECTOS DO COMÉRCIO INTERNACIONAL ENTRE MERCADOS

Parte dos desequilíbrios do comércio internacional resultam do fato dos mercados envolvidos no comércio serem desiguais. O debate sobre o impacto da desigualdade dos mercados nas distintas economias pode ser abordado de formas diferentes. Pode-se (a) a tratar (ou descartá-la) como um pressuposto teórico; ou (b) tratá-la como uma característica modificadora do modelo teórico.25

Em modelos de vantagens comparativas, a desigualdade de mercado é descartada como parte do pressuposto dos modelos. Para esse modelo, um país sempre se especializará na produção de mercadorias que o país tenha vantagem de produtividade. Enquanto isso, outros países se especializarão em outras mercadorias. Ao realizar comércio internacional, todos os preços tenderão a diminuir, e todos os países passarão a consumir mais do que podiam consumir antes. Esse pressuposto é útil para produzir modelos analíticos. No entanto, é irrealista. Outra alternativa, mais realista, é adotar o pressuposto das vantagens absolutas. Nesse modelo, os países se especializam nos produtos que possam produzir a custos mais

25 Sobre as assimetrias no comércio internacional ver: KINDLEBERGER, Charles P. Economia Internacional. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1974; SÖDERSTEN, Bo. Economia Internacional. Rio de Janeiro: Interciência, 1979.

baixos do que o restante dos países competidores. Nesses casos, haverá tendência de formação de monopólios e oligopólios. Ainda, países de maior produtividade tenderão a atingir enriquecimento relativo. As duas abordagens podem ser descritas em termos similares, e se diferenciarão em dois principais aspectos: a posição dos preços no comércio internacional, e o impacto da disposição dos fatores de produção nas curvas de oportunidade de produção.

O termo oportunidade de produção (ou custo de oportunidade) diz respeito à disposição dos fatores de produção que um dado país possui. É possível – para tratamento teórico - elaborar modelos explicativos usando os fatores (a) trabalho (T); e capital (K). Considerando a existência desses dois fatores, um país possui uma quantidade de capital e outra de trabalho já dadas anteriormente. Com essa disposição, ele pode produzir distintos produtos, mas em combinações finitas. Ele pode, por exemplo, produzir ou 5 mil unidades de tecido; ou 10 mil unidades de trigo; ou 3 mil unidade de tecido e 7 mil unidades de trigo. Quando existe um ponto onde a soma do valor total das produções é maior do que a hipótese de especialização em um ou outro produto, chama-se esse ponto de Ponto Ótimo de produção. Um dos problemas que se coloca é que (a) a oportunidade de produção é determinada pela disponibilidade de fatores de cada país, o que significa que alguns países podem possuir pontos ótimos de produção que resultam em menor dependência do comércio internacional. Ainda, existe limitação para transição na produção. Parte dos fatores empregados em um tipo de produção não podem ser transferidos para outro tipo. Por exemplo, parte do capital empregado na produção agrícola não pode ser transferida em médio prazo para indústria. Isso gera outro problema para os países envolvidos no comércio exterior: (b) caso o preço de produção de um produto mude com o passar do tempo, um país já especializado em um produto que se tornou menos vantajoso pode não ter condições de mudar sua produção.

Ainda, as curvas de oportunidade precisam suprir as chamadas curvas de satisfação. Isso significa dizer que a produção de um país precisa responder às demandas de consumo de sua população. Tem-se que com o comércio internacional, os países podem atingir níveis superiores para satisfação da demanda de sua população. Isso quer dizer que podem produzir, por exemplo, mais tecido do que precisa e importar mais trigo do que poderiam produzir. No entanto, se os mercados possuem capacidade de produção e de consumo distintos, não existe razão para que os preços internacionais sejam sempre igualmente vantajosos a todos.

Modelo1.2: Preços internacionais entre mercados desiguais

Por exemplo, é perfeitamente possível que um país (país “A”) possua maior produtividade para produtos industriais e agrícolas (produtividade na curva “Pa”, do modelo 1.2), e tenha um mercado economicamente mais relevante do que seus parceiros comerciais (curva “Da”). Nesse caso, diz-se que o mercado é determinador de preços. Outro país (país “B”) pode ter baixa produtividade de produtos industriais, mas produtividade competitiva para produtos agrícolas (curva “Pb”), e possui mercado economicamente pouco relevante (curva “Db”). Nessa situação, esse país terá pouca influência individual nos preços internacionais. Nessas condições, ele será tomador de preço.26

Nesse modelo, os preços médios tenderão a se dar na curva “Pm”, que se dará mais próxima da curva “Pa” do que da curva “Pb”. Ou seja, os preços serão mais próximos àqueles vantajosos à satisfação da demanda do país de maior mercado. Para parte da literatura, o tamanho do mercado dos distintos países também está ligado à produtividade local. Essa é a visão de Ragnar Nurkse, para quem a capacidade do mercado é determinada pela produtividade do país. Países com baixa produtividade tendem a ter baixa renda per capita.

Conforme Nurkse, a elasticidade da demanda em níveis baixos de renda real tende a ser baixa. Isso cria um ciclo vicioso na determinação do mercado: como o mercado é pequeno, há pouco incentivo para novos investimentos para aumento da produtividade, e como a produtividade é pequena, a renda apresenta crescimento insatisfatório. Isso significa

26 Para uma discussão sobre o tema ver: PALAZZO, José Truda. Balanço de Pagamentos: fatores de

pertubação do seu equilíbrio e procedimentos para superá-los. Porto Alegre: Tese para concurso de cátedra

de “Comércio internacional e câmbios” da Faculdade de Ciências Econômica da Universidade do Rio Grande do Sul, 1954. Pa Pb Da Db Pm Tecido Trigo

que países como o Brasil, onde a produtividade é baixa, e a renda nacional resulta em mercado pouco relevante, os preços internacionais são determinados de acordo com as demandas de mercados externos. A consequência desse raciocínio é que países agrícolas pobres exercem papel pequeno no comércio internacional, por sua baixa produtividade e baixo poder de compra. Na prática, é o desenvolvimento que permite melhor inserção no mercado internacional, e não o contrário.27

Nessas condições, o debate sobre o comércio internacional não pode ser feito a partir de “preferências de produção”. O problema não é se o país “decidiu” produzir um produto ou outro. Trata-se da disposição dos fatores produtivos e da magnitude do mercado local. A posição do mercado internacional, é, portanto, um assunto diretamente ligado à produtividade e capacidade de acumulação do país em análise.28

Modelo 1.3: Modelo explicativo para o paradoxo de Leontieff

*modelo inspirado em similar disponibilizado por Bo Södersten

27 Sobre o assunto ver: NURKSE, Ragnar. Problema da Formação de Capital em Países Subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957. Pg. 8 – 28.

28 Ver sobre o tema: GÉLÉDAN, Alain & BRÉMOND, Janine. Dicionário das Teorias e Mecanismos

Económicos. Lisboa: Livros Horizonte LTDA, 1988. 425 – 426.

Capital País A País B Trabalho Bem Industrial Bem Agrícola λ Bem Industrial

Como os países possuem dotação de fatores diferentes, adotam métodos de trabalho também diferentes. Um mesmo produto pode ser produzido com métodos trabalho intensivos em um país, e capital intensivos em outro. Isso é o que explica o chamado Paradoxo de Leontieff: situação em que um país intensivo em capital exporta bens agrícolas.29

No modelo 1.3, têm-se que os produtos que se encontram abaixo da curva da razão “λ” são produtos comparativamente trabalho intensivos. Os produtos localizados acima da curva “λ” são comparativamente capital intensivos. No modelo, vê-se que para o país A, os produtos agrícolas são relativamente ricos em capital, em comparação ao país B. O resultado é que os preços dos produtos se tornam bastante distintos. O fato do país “A” ser pobre em trabalho não significa que seus produtos intensivos em trabalho serão mais caros do que se produzidos em países ricos em trabalho. Em outras palavras: a laranja norte-americana pode ser produzida com preço unitário mais barato, mesmo o trabalhador rural norte-americano sendo melhor remunerado.

Nessas condições, um país de baixa acumulação de capital terá que competir a preços que lhe são desvantajosos. A especialização da produção, portanto, mais uma vez não é uma saída necessariamente eficaz para o problema da baixa capacidade produtiva. O que o paradoxo de Leontieff ensina é que o problema do comércio internacional, portanto, não é um problema de custo de oportunidade e de escolha de especialização. O problema é, essencialmente, de produtividade do trabalho.