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TROCAS DESIGUAIS E DETERIORAÇÃO DOS TERMOS DE TROCA

A diferença do tamanho dos mercados e da produtividade dos países tem impacto nos preços dos produtos. Como consequência, resulta em ganhos distintos através do comércio para os países envolvidos. Ainda, existe uma tendência histórica para piora dos termos de troca para os países produtores de bens primários. Há duas explicações para isso: uma que é originária do marxismo, e outra que foi primeiro apontada por Raúl Prebisch e outros estruturalistas. Ambas explicações são consistentes, e precisam ser retomadas afim de entender de que forma o comércio internacional se relaciona com o desenvolvimento local.

A nova teoria marxista sobre as trocas internacionais foi elaborada a partir de Arghiri

Emmanuel (1962)30. Para ele, as economias nacionais que entram em comércio internacional podiam ser tratadas como se fossem parte de um único sistema fechado. As trocas internacionais, portanto, podiam ser analisadas pela ótica das trocas setoriais apresentadas por Marx. Segundo o modelo proposto, a principal razão para desigualdade no comércio internacional é a diferença entre valor de troca e preço da mercadoria. Essa diferença faz com que produtos que precisam de uma quantidade diferente de horas de trabalho para serem produzidos, por conta da quantidade de capital investido e diferença dos salários, resultem em preços iguais. Um produto que deveria ter um valor de troca superior se torna em um produto de preço igual a um que deveria ter valor inferior. A isso se chama subpreço e sobrepreço. A existência de sobrepreços e subpreços faz com que alguns países consigam maior capacidade de acumulação de capital do que outros.31

Tabela 1.1: Exemplo simplificado de trocas desiguais em comércio internacional

(I) (II) (III) (IV) (V) (VI) (VII) (VIII) (IX) (X)

País Capital constante comprometido (K) Capital variável (w) Mais- valia (m) Valor da mercadoria [V = (K+w+m)] Custo de produção [R= (K+w)] Taxa de lucro [g = (∑m/∑ R)] Lucro [l = (g*R)] Preço de produção [P = (R+g)] Diferença entre valor e preço A 200 80 20 300 280 25% 70 350 +50 B 100 20 80 200 120 30 150 -50 total 300 100 100 500 400 100 500 0 *dados hipotéticos Uma forma simplificada de explicar a lógica exposta por Arghiri Emmanuel pode ser verificada no exemplo disposto na tabela 1.1. Na tabela, pode-se ver as contas para o valor e o preço de produção (custo acrescido do lucro) da produção de dois países distintos, descritos na primeira coluna. O país “A” é exportador de bens industrializados, e o país “B” é exportador de produtos primários. Na segunda coluna, vê-se um valor hipotético de capital comprometido na compra de maquinaria e insumos para produção. Observa-se que o país “A” possui maior volume de capital investido, denotando que sua produção é intensiva em capital, Na terceira coluna, verifica-se o total de gasto com salários. Ambas produções possuem, no exemplo hipotético, uma igual quantidade de pessoas empregadas. No entanto, no país “A”,

30 Ver a propósito: BRAUN, Oscar. Comercio internacional e imperialismo. Siglo Veintiuno, 1976; MONZA, Alfredo. Teoría del capital y la distribución. Editorial Tiempo Contemporáneo, 1973. RUBIN, Isaak Illich.

A teoria marxista do valor. Brasiliense, 1980; BENETTI, Carlo. La acumulación en los países capitalistas subdesarrollados. FCE, 1976; AMIN, Samir. La ley del valor y el materialismo histórico. FCE, 1981;

ROBINSON, Joan; Collected economic papers. Oxford: 1973.

31 Sobre o assunto ver: EMMANUEL, Arghiri. El Intercambio desigual. Ensayo sobre los antagonismos em las relaciones económicas internacionales. Madrid: Ed Siglo ventiuno, 1973

os salários são cinco vezes superiores aos do país “B”. Como a quantidade de horas trabalhadas em cada país é igual, e o número de pessoas é igual, verifica-se que, na quarta coluna, a quantidade de mais-valia retirada é invertida em relação aos salários: no país “B”, a mais-valia obtida é cinco vezes maior que no país “A”. A soma do capital investido, dos salários pagos, e da mais-valia obtida resulta no valor de troca assinalado na quinta coluna.

Para os marxistas, o valor de troca de uma mercadoria é distinto do preço da mesma, mas a soma do valor de todas as mercadorias é matematicamente igual a soma do preço de todas as mercadorias. Como consequência, a mais-valia é distinta do lucro retirado em cada mercadoria. Para isso, a taxa de lucro média de uma sociedade é igual a soma de toda mais- valia retirada dividida pela soma de todo custo de produção da mesma. As colunas seguintes da tabela 1.1 descrevem essa relação. Na sexta coluna da tabela, vê-se o custo de produção em cada país. O custo de produção é igual ao capital investido mais os salários pagos. Na sétima coluna, vê-se a taxa de lucro média resultante da divisão da soma da mais-valia explorada nos dois países pela soma dos custos de produção. Na oitava coluna verifica-se o lucro obtido em cada país, considerando a taxa de lucro média. Na nona coluna, está o preço de produção das mercadorias, que resulta do custo de produção acrescido do lucro retirado. Na décima, verifica-se a distância do preço de produção e o valor da mercadoria, que expressa a existência de sobrepreço e subpreço. Vê-se que o país “A”, exportador de bens intensivos em capital, foi beneficiado com um sobrepreço, enquanto o país “B”, exportador de bens primários, sofreu subpreço.

O exemplo possui alguns pressupostos que evidentemente não se realizam na realidade. Primeiro, a distância dos salários médios e do capital investido é muito maior na realidade do que no exemplo. Ainda, as indústrias instaladas nos países desenvolvidos costumam ter taxas de lucro superiores às verificadas na produção de bens primários. Na verdade, portanto, o esperado é que os sobrepreços e subpreços expressem distâncias ainda maiores. Mas o exemplo expressa bem o sentido da desigualdade: o país “A” recebe, a cada troca, horas de trabalho a mais, gratuitas, sob a forma de mercadoria. O resultado é que consegue acumular maior volume de capital do que o país “B”, aumentando ainda mais a desigualdade dos dois.

Com o passar do tempo, isso leva a uma tendência de deterioração dos termos de troca da pauta dos países produtores de bens primários. Essa tendência é acentuada por conta da

existência de outros mecanismos de deterioração descritos por Raúl Prebisch. Alguns dos aspectos que levavam a deterioração dos termos de troca, para aquele autor, eram frutos da elasticidade dos produtos das pautas do comércio exterior dos países dependentes. Prebisch ressaltou que esses países exportavam bens primários e importavam bens industrializados. Para os estruturalistas, os bens primários possuem alta elasticidade-preço, e baixa elasticidade-renda32. Como consequência, a demanda pelos produtos primários crescia a ritmos inferiores ao crescimento da renda dos seus principais compradores (os países desenvolvidos), ao passo que pequenas variações de preço dos produtos tinham largo impacto no valor total exportado pelos países dependentes. Ao mesmo tempo, cada incremento de renda dos países dependentes demandava um aumento mais do que proporcional do valor importado. Isso fazia com que houvesse tendência à deterioração dos termos de toca dos países dependentes.33

Modelo 1.4: Tendência à deterioração dos termos de troca

Os produtos primários seriam objeto de forte competição na produção. Como resultado, os preços desses produtos tendiam a sofrer quedas periódicas, devido a expansão da produção acima da demanda. Enquanto isso, a produção de produtos industriais seria objeto de baixa competição, o que geraria preços estáveis para esses produtos. No entanto, devido a dinâmica cíclica do crescimento das economias industriais, ocorreria aumentos cíclicos das

32 A elasticidade-preço é a variação do valor vendido de um produto para cada 1% de variação no preço do produto. A elasticidade-renda é a variação do valor vendido para cada variação de 1% na renda dos consumidores.

33 Sobre o assunto ver: PREBISCH, Raúl. Dinâmica do desenvolvimento latino-americano. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1969.

R Termos de

troca

demandas por produtos primários. Ainda, eventos conjunturais poderiam ocasionar altas pontuais dos preços desse tipo de bem. O resultado seria que, durante alguns momentos, os preços relativos poderiam se movimentar a favor dos produtos primários. Passada a fase de alta, os preços tenderiam a cair a patamares inferiores ao período anterior, formando uma tendência de deterioração (conforme descrito pela curva “R” no modelo 1.3). Durante o processo de alta dos preços, os países dependentes poderiam ampliar suas importações temporariamente, ampliando também sua taxa de crescimento. Em períodos de queda dos preços, esses países veriam sua capacidade de importar cair, o que geraria queda na taxa de crescimento e substituição de importações parcial (quando a conjuntura assim permitisse).