A inflação não pode instalar-se a menos que seja validada por um crescimento sig- nificativo dos meios de pagamento e/ou pela velocidade de sua circulação. Vamos, portanto, examinar o aumento das várias medidas de moeda no Brasil e suas origens.
Pode-se observar na Tabela 7.4 que a taxa de crescimento dos meios de pagamento reais (M() tem sido negativa desde 1976, isto é, a expansão nominal dos meios de pagamento tem sido menor que a taxa de inflação. A expansão de M, (que inclui M, + depósitos à vista e depósitos a prazo na Caixa Econômica) foi negativa apenas em quatro anos durante o período de 1973-84, e a de M. (que inclui M, + todos os demais depósitos de poupança) somente em três anos. O crescimento real da base monetária foi negativo em 1974, mas foi positivo durante o restante da década e tomou-se nega- tivo somente em 1980-83. Finalmente, o crescimento real do crédito tornou-se negati- vo de 1979 em diante, quando do salto para a inflação de três dígitos.
O crescimento real negativo de M tem sido atribuído ao declínio na demanda por moeda enquanto a inflação continuava a acelerar. Houve uma troca para a quase-moe- da, parte da qual, como a poupança, os depósitos a prazo fixo e os títulos do governo — que adquiriram uma liquidez cada vez maior -, era indexada de acordo com a inflação. Esses fatos explicam o comportamento de M, e M,. Tam bém é digno de nota o fato de que o ativo monetário do sistema financeiro (moeda corrente e depósitos à vista) caí- ram de 43% em 1972 para 10% em 1984. Assim, o “ganho do imposto inflacionário para as autoridades monetárias (que é a taxa da inflação vezes o valor real da base monetária ou o passivo de custo zero das autoridades monetárias), para qualquer nível de inflação, tem sido correspondentemente reduzido”.’5 A medida que a inflação cres- ceu na década de 1980, a velocidade da circulação de M também aumentou, o que se refletiu em um decréscimo da base monetária em relação ao PIB de 7,0% em 1979 para 3,9% em 1984.37
O contínuo crescimento da base monetária durante a década de 1970 tem sido atri- buído aos aportes de capital estrangeiro e às atividades extra-orçamentárias especiais por parte do governo, financiado com a colaboração do Banco Central e do Banco do Brasil para compensar certas atividades através do que foi chamado eufemisticamente de
conta de movimento.
Para compreender esses fatos, é preciso analisar o orçamento do governo. No d e - correr dos anos, criaram-se três diferentes orçamentos públicos no Brasil. Há o orça- mento fiscal normal, proposto pelo Executivo e submetido à avaliação do Congresso e que, conforme mostra a Tabela 7.5a, tem apresentado uni superávit desde 1973. Aí não estão incluídos os orçamentos consolidados de empresas estatais e o orçamento
Tabela 7.4
T axa nominal de crescim ento da m oeda e do crédito, 1971-87
Meios de pagto. M, Base monetária Meios de pagto. m2 Meios de pagto. \1 } Crédito bancário índice Gerai de Preços inflação 1971 32,3 36,3 - - 45,5 18,7 1972 38,3 18,5 - - 41,6 16,8 1973 47,0 47,1 - - 55.5 16,2 1974 33,5 32,9 32,8 40,3 55.5 33,2 1975 42,8 36,4 47,7 54,3 56,3 30,1 1976 37,2 49,8 37,2 48,2 57.9 48,2 1977 37,5 50,7 48,0 52,2 51.1 38,6 1978 42.2 44,9 49,3 53,0 49.6 40,5 1979 73.6 84,4 75,5 77,2 65.0 76,8 1980 70,2 56,9 65,7 72,3 73.0
110,2
1981 87.2 78,0 104,7120,1
107,3 95,2 1982 65,0 87,3 83,8 100,9110.8
99,7 1983 95,0 96,3 135,5 170,2 151,6211,0
1984 203,5 243,8 257,9 253,4 205,3 223,8 1985 328,2202,8
287,5 265,4 265.1 235,1 1986 306,7 293,4 186,0 124,9 119.2 58,5 1987 133.3 181,5 163,4 274,2 282,0 396,0Fonte: Banco Central do Brasil, Boletim MensaL Conjuntura Econômica.
monetário (alguns chamariam isso de um programa para a base monetária), refletindo as atividades do Banco Central e do banco comercial oficial, o Banco do Brasil. Este último não tem exigências de reservas e seus passivos monetários são, conseqüen- tem ente, parte da base monetária. Como não há disponibilidade de informações com- pletas sobre receitas e despesas do setor público,’8 o saldo geral pode ser obtido dos empréstimos realizados pelo governo nas fontes internas e externas, mostradas na Ta- bela 7.5b e c. É óbvio que itens não-incluídos no orçamento normal - como recursos para cobrir o déficit de empresas estatais, financiar programas especiais do governo e compensar a indexação (para pagar a correção monetária) - produziram necessidades financeiras (ou déficits) que aumentaram de Cr$ 507 milhões em 1979 para Cr$ 79,4 trilhões em 1984.
O Brasil desenvolveu um arranjo institucional peculiar (o orçamento monetário) que permite ao governo contornar o orçamento fiscal convencional. O Banco do Brasil <o banco comercial cuja maioria de ações pertence ao Estado e que exerce cercas fun- ções oficiais) é o principal fornecedor de crédito rural que, até 1984, era concedido a
taxas de juros altamente subsidiadas. Quando os depósitos do Banco do Brasil não são suficientes para atender às necessidades de seus clientes (especialmente na agricultu- ra), ele pode recorrer ao Banco Central em busca de recursos, cuja transferência tem
Tabela 7.5
Financiam ento do governo, 1973-85 (Cr$ bilhões)
(a) Orçamento do Governo Central
Receitas Despesas SaUio
1973 52,9 52,6 0.3 1974 76,8 72,9 3.9 1975 95.4 95,4
0
1976 166,2 165,8 0.4 1977 242,9 241,81.1
1978 349,2 344,3 4.9 1979 509,8 507,82,0
1980 1.219,4 1.217,42,0
1981 2.262,0 2.258,9 3,0 1982 4.617,8 4.611.26,6
1983 11.335.5 11.301,2 34.3 1984 33.788.0 33.766.022,0
1985 134.464,0 121.209.0 13.255,0Fonte: Conjuntura Econômica.
(b) Financiamento do setor público não-financeiro (milhões de Cr$)
1979
1980
1981 1982 1983
1984
Financiamento total 507 927 3.35 1 8.385 22.382 79.388
Financiamento doméstico 356 S74 2.993 7.107 22.023 75.908
Gov. Central 161 384 230 2.831 5.345 28.003
Gov. Estadual & local 73 133 735 2.!130 7.337 24.468
Empresas estatais 152 254 1.104 2.396 10.518 27.795
Órgãos descentralizados 5 30 17 250 734 1.916
Fundos da previdência social
-10
-42 -113 199 -125 767Fundos e programas*' -53 -105 94 -263 -1.866 -7.041
Financiamento externo 151 53 357 1.278 359 3.480
* Inclui financiamento e recursos diretos do Banco Central canalizados através de outras instituições financeiras consolidadas nas contas do sistema bancário.
Fonte: Banco Central do Brasil.
(c) Percentagem do PIB
1979
1980
1981 1982 1983
1984
Financiamento total8,1
7,1 12,5 15,8 18,5 20.5 Financiamento doméstico 5,7 6.7 11,2 14,0 18,3 19.6 Sistema bancário 5,2 5.0 7,7 14.0 18,2 21.4 Privado* 0,5 1,7 3,50.1
-
1,8 Financiamento externo 2,4 0,4 1,3 1.8 0.2 0,9 Financiamento total 8,1 7,1 12,5 15.8 18,5 20,5 Operacional 3,0 3,6 6.06.6
1,9 -0,2
Correção monetária 5,1 3,5 6,5 9,2 16,6 20,7* Participação do setor privado na dívida pública.
sido chamada de
conta de movimento
.w O Banco Central, por sua vez, tem estado direta- m ente envolvido no fornecimento de recursos especiais destinados ao setor financeiro,empresas de exportação e à compra de moeda estrangeira. Caso seus recursos não sejam suficientes para atender a tais obrigações, ele emite mais moeda.*'
Como veremos na Tabela 7.6, os empréstimos concedidos pelo Banco do Brasil, os créditos ao setor financeiro e as operações com moeda estrangeira têm sido as principais fontes de expansão da base monetária. Mário H. Simonsen, ex-ministro da Fazenda e Planejamento do Brasil, frisou esse ponto m uito sucintamente:
O sistema m onetário brasileiro é muito peculiar e possui uma tendência incorporada em direção à expansão dos m eios de pagamento. H á m uito se reconhece que é difícil evitar a inflação quando o governo federal tem a autoridade de em itir moeda para financiar seus déficits, principalm ente se essa autoridade pode ser exercida indep en d en tem en te da aprovação do Congresso... E ainda mais difícil d e evitar a inflação se o governo pode criar moeda não só para financiar seus déficits, mas também para estender empréstimos subsidiados ao setor privado. Esse é, fundam entalm ente, o caso do B rasil
.41
Como percentagem do PIB, as necessidades totais de financiamento do setor pú- blico brasileiro aumentaram de 8,1% em 1979 para 20,5% em 1984. Como se pode observar na T abela 7.5, o financiamento veio do sistema bancário, o que representou a criação de uma quantidade significativa de moeda. Finalmente, na Tabela 7.5c, é feita uma distinção entre o déficit “operacional” e a parte do déficit resultante da indexação da dívida a pagar. O primeiro pode ser mais facilmente controlado pelo governo do que o segundo, visto que as exigências de indexação aumentam automaticamente com a inflação. Nota-se na Tabela 7.5c que o orçamento operacional foi controlado após 1982, tendo as exigências de financiamento caído de 6,6% do PIB para -0,7%, o que indica um superávit. O financiamento por indexação, entretanto, aumentou regular- mente, atingindo quase 21% do PIB em 1984.