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Primeiras tentativas de planejamento no Brasil

No documento Economia Brasileira - Werner Baer (páginas 57-59)

Até a década de 1930, houve poucas tentativas por parte dos governos brasileiros para planejar o desenvolvimento econômico do país, principalmente no que se referia ao desenvolvimento industrial, o que não significa que o governo nunca tivesse ado- tado uma política consciente que apoiasse setores específicos da economia. Vimos em seções anteriores deste capítulo que foi empregado algum “planejamento” na formu- lação das políticas de defesa do café. Além disso, a política de livre-comércio do século XIX representou um programa consciente para manter a estrutura econômica predo- minante na época.

Houve ocasiões, no final do século XIX e no século XX, em que indivíduos perten- centes ou não ao governo tentaram realizar avaliações sistemáticas da economia brasi- leira visando à recomendação de políticas que lidassem com o balanço de pagamentos e outros problemas. Um exemplo desse fato é o programa de estabilização de Joaquim Murtinho, ministro da Fazenda entre 1888-1902.45

Nas décadas de 1930 e 1940, a realização de análises sistemáticas e avaliações da estrutura econômica brasileira visando influenciar o rumo do desenvolvimento do país, conduzidas por estrangeiros e brasileiros, tornou-se mais freqüente. O primeiro relatório a surgir na década de 1930 foi o

Niemeyer Report,

publicado em 1931. O relatório recebeu o nome de Sir Otto Niemeyer, que havia sido convidado pelo governo bra- sileiro para estudar formas pelas quais o país pudesse superar a crise econômica criada pela Depressão. Niemeyer foi o primeiro a declarar publicamente o que muitos bra- sileiros já sabiam: que a principal fraqueza da economia residia em sua dependência da exportação de uma ou duas lavouras, o que explicava por que a crise mundial inicialmente atingiu a economia brasileira com mais violência do que as nações indus- trializadas. Porém, criticar a confiança exagerada que o país depositava no café, na época, era considerado quase um sacrilégio. O relatório foi, portanto, recebido sem muito entusiasmo.

Niemeyer defendeu a diversificação da estrutura econômica brasileira. Com isso ele se referia à diversificação agrícola, e não a um programa de industrialização. Acre- ditava que a diversificação na agricultura elevaria a renda do setor que, combinada com as reservas cambiais, acabaria por gerar os recursos necessários para investir em novas indústrias.46

Grande parte do restante do

Niemeyer Report

era dedicado à crítica das finanças públicas do Brasil e aos métodos utilizados para reestruturá-las. Embora o relatório tenha exercido pouca influência e não tenha conduzido a nenhum esforço para influ- enciar conscientemente o desenvolvimento econômico brasileiro, ele representou o primeiro empenho por parte das autoridades do país em ter a economia examinada como um todo, com a possibilidade de afetar o rumo de seu desenvolvimento.

A tentativa seguinte de avaliar a economia do Brasil, com a recomendação de m udan- ças em sua estrutura e meios de atingi-las, foi realizada pela Missão Gooke, que consistia em um grupo de técnicos americanos patrocinados pelos governos brasileiro e ameri- cano. A missão visitou o país em 1942 e 1943 e foi concebida depois que os dois países entraram na guerra, com o propósito de determinar de que maneira o Brasil poderia cola- borar com os esforços da luta armada.

O trabalho da Missão Cooke representou o primeiro trabalho de pesquisa analítica e sistemática jamais realizado em relação à economia brasileira visando à formulação de um programa de ação. Pela primeira vez, a economia era analisada sob um ponto de vista regional, dividindo o país em três regiões distintas (Nordeste/Leste, Norte/ Centro e Sul) cujas características econômicas eram diferentes o bastante para justi- ficar programas de desenvolvimento significativamente diversos.4/ Uma das conclu- sões importantes a que a missão chegou foi a de que deveria ser realizado um esforço para desenvolver o Sul do país, visto que essa região tinha as melhores condições para um rápido crescimento econômico. Supunha-se que, a partir de um núcleo de desen- volvimento nessa área, este se espalharia, inevitavelmente, a outras regiões.

A missão indicou uma série de fatores (hoje tão familiares a econom istas desenvolvimentistas) que constituíam obstáculos ao crescimento industrial: um siste- ma de transportes inadequado, um sistema de distribuição de combustível retrógrado, falta de recursos para investimentos industriais, restrições ao capital estrangeiro, restri- ções à imigração, instalações inadequadas para treinamento técnico e uma capacidade subdesenvolvida para a geração de energia, e assim por diante.

A Missão Cooke recomendou a expansão da indústria siderúrgica, que proporcio- naria a base para o desenvolvimento de uma indústria de bens de capital, o desenvol- vimento de indústrias de papel e madeira e a futura expansão de instalações para produção têxtil, tanto para o consumo interno quanto para o mercado de exportação.

A tarefa de industrialização, de acordo com o relatório da missão, deveria ser deixa- da a cargo do setor privado, ao mesmo tempo em que o governo deveria concentrar-se no planejamento industrial em geral, desenvolvendo recursos de crédito industrial e proporcionando instrução técnica.

O efeito conclusivo da Missão Cooke foi o de esclarecer alguns dos problemas de desenvolvimento enfrentados pelo país na época, tendo exercido pouca influência direta sobre políticas imediatas.

Notas

1. GLADE, William P. The Latin American economies. Nova York, American Book-Van Nostrand, 1969,

p. 300; LUZ, Nicia Vilela. A luta pela industrialização do Brasil, 1808 a 1930. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1961, p. 18.

2. GLADE, op. cit., p. 301; LUZ, op. cit., 19-29; VERSIANI, Flavio Rabelo & VERS1ANI, Maria Teresa

R. O. “A industrialização brasileira antes de 1930; Lima contribuição”. In: Formação econômica do Brasil: A

experiência da industrialização; VERSIANI, Flavio R. & BARROS, José Roberto Mendonça de (orgs.), série

ANPEC, Leituras de Economia. São Paulo: Saraiva, 1977, p. 133.

3. STEIN, Stanley. The Brazilian cotton manufacture: textile enterprise in an underdeveloped area, 1850-

1950. Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1957, p. 61. 4. Idem, ibid., p. 127

5. Um estudo recente mostra que os plantadores e o capital estrangeiros não foram os únicos a fin an - ciar o desenvolvimento de infra-estrutura; o capital mercantil nativo também estava presente (principal- mente no Rio de Janeiro). Veja Joseph Sweigcrt, “The middlemen in Rio; A collective analysis of credit and investment in the Brazilian coffee economy, 1840-1910”, tese de doutorado, Universidade do Texas, em Austin, 1979.

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O impulso de industrialização

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