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D efeito de igualdade produzido pelos programas de ajuste

No documento Economia Brasileira - Werner Baer (páginas 117-121)

Devemos lembrar que um dos objetivos da gestão Geisel foi a melhoria na distri- b u iç ã o de renda do país e o aumento do bem-estar das massas que não participaram d o rápido crescimento havido nos “anos do milagre” . É digno de nota o fato de que o s dados disponíveis mostram um aumento no salário real. Poderemos observar, por e x e m p lo , na Tabela 6.8a, que os salários mínimos reais aumentaram quase que con- tin u a m e n te de 1972 a 1982, embora no Rio de Janeiro seu crescimento não fosse nem e s tá v e l nem tão intenso. A parte b da Tabela indica que os salários médios reais dos trabalhadores dos setores de produção e dos funcionários administrativos aumentaram reg u la rm e n te até 1979.

A Tabela 6.8c, que compara os diferentes níveis de salários da força de trabalho, r e v e l a que grande parte dessa força ganha menos que um salário mínimo por mês. H o u v e uma ligeira queda entre 1977 e 1981, mas, após esse período, essa taxa tornou a a u m e n ta r.

Deve -se enfatizar que as políticas salariais desenhadas para obter maior igualdade n a distribuição de renda foram introduzidas no final da década de 1970, quando jpiorou a crise brasileira de inflação/balanço de pagamentos. Esse fato levou a um a m p lo debate sobre o impacto produzido pela política salarial: se estava efetivamente redistribuindo renda e se era uma das principais causas da aceleração da inflação.’1

A melhor análise do impacto causado pela política salarial foi realizada por Roberto _>vl acedo. Ele ressaltou as pressões por novas políticas salariais originadas em 1974, q u a n d o a taxa anual de inflação dobrou, passando de cerca de 20% para aproximada- m e n t e 40% (um patamar em que permaneceu até 1979). Dessa maneira, a pressão por re a ju s te s semestrais se baseou no argumento de que, se “os salários nominais eram rea ju sta d o s anualmente, quando dobra o índice de inflação, a queda nos salários reais o c o rrid a entre os reajustes produziria, nesse período, um salário médio real anual mais fcsaixo. A simples percepção indica que... esse declínio maior nos salários reais foi re d u z id o na mesma proporção em que aumentou o índice de inflação”. i2

Macedo também mostrou que a inflação acelerada do final da década de 1970 co- m e ç o u antes que as novas políticas salariais fossem aplicadas, isto é, a inflação estava

Tabela 6.8

Remuneração selecionada e estatísticas salariais

(a) Salário Mínimo Real 1970-85 (em preços de 1970) (1970 = 100)

Sao Paulo Rio de Janeiro

1970

100,0

100,0

1971 99.5

100,2

1972 100.7 102.7 1973

102.1

106.6 1974

102.1

104.6 1975 106.4

110,1

1976 107.6 106.3 1977 110,4 106.5 1978 113,2 108.9 1979 108.8 102.9 1980 114,2 105,2 1981 118,7 104.1 1982 124.4 104,5 1983 114.9 93,9 1984 116.6 87,5 1985 131,2 90.9

Gòs.: Os valores médios anuais são a média aritmética simples do?> valores observados cm cada mês; o 13® salário é levado em consideração no cálculo da média. Para São Paulo e Rio de Janeiro, os dcflatores empregados foram os índices dc preços ao consumidor calculados, respectivamente, pela FIPE/l SP e FGV.

Fontes: 1970-79 - WELLS J. & DROBNY A. UA distribuição de renda e o salário mínimo no Brasil: uma revisão crítica da literatura existente . /nz Pesquisa t Planejamento

F.iommico 12, n3 13, dez./1982; 1980-85 - Conjuntura Econômica, vários números.

claramente acelerando em meados de 1979, enquanto as novas políticas começaram a ser implementadas somente em novembro desse ano." Uma vez colocadas em prática, essas políticas contribuíram para as pressões inflacionárias a ponto de as autoridades governamentais responsáveis pelo controle de preços as reconhecerem como legítimos aumentos de custo a serem repassados a preços mais elevados.’4 Dessa forma, como os aumentos de custos salariais eram encarados como justificativa para aumentar os pre- ços, o governo seguia implicitamente uma política de não-redistribuição de renda atra- vés das políticas salariais.

Embora os salários médios reais continuassem a aumentar no início da década de 1980, isso não significava, necessariamente, que o trabalhador médio se encontrava em melhor situação, visto que a recessão se instalou em 1981 e havia um número maior de dispensas e de trabalhadores não-especializados recebendo menores salários do que operários especializados bem pagos.

É difícil saber com exatidão se o aumento dos salários reais implicava aumentos de custos significativos para as empresas. De acordo com as leis de ajustes salariais, so- mente o aumento dos salários mais baixos era mais rápido que o dos preços em geral e esses salários reais mais altos vinham sendo acompanhados por aumentos de produtivi-

Tabela 6.8 (continuação)

Remuneração selecionada e estatísticas salariais

(b) Salário real médio e índices salariais por categorias profissionais na indústria manufatureira

(1961 = 100) Gerência Técnicos e aux. de escritório Trabalhadores de produção Média ponderada 1970 (2“) 194 127 115 130 1971

210

129 117 130 1972

210

134 118 134 1973

221

140 124 141 1974 223 139 123 141 1975 233 147 137 153 1976 255 156 142 161 1977 244 160 146 164 1978 256 168 164 177 1979 (Ia) 275 174 175 188 1979 (2a) 254 162 161 173 1980 (1“) 236 164 162 172 1980 (2a) 231 167 166 174 1981 (Ia) 230 170 180 183 1981 (2a) 230 197

200

206 1982 (Ia) 232 185 194 196 1982 (2a) 226 189 184 189 1983 (Ia) 206 172 180 181 1983 (2a) 171 152 164 161 1984 (Ia) 157 137 150 147

Obs.: A diferença entre salário e ordenado está relacionada ao fato de se exercer uma posição de comando na estrutura

organizacional da empresa.

Os dados sobre salários e ordenados vêm de uma amostra de indústrias do setor manufatureiro localizadas principalmen- te na região da Grande São Paulo. Devido à localização das indústrias em questão, é possível que a amostra evidencie inclinação na direção de salários mais elevados.

A gerência inclui diretores, gerentes e chefes de seção.

Trabalhadores de produção incluem trabalhadores especializados, semi-especializados e não-especializados.

Média ponderada: Os pesos dos grupos são gerência = 2; técnicos e auxiliares de escritório = 3; trabalhadores de pro- dução = 5.

O índice Geral de Preços da Fundação Getúlio Vargas foi usado como deflator.

Tabela 6.8 (continuação)

Rem uneração selecionada e estatísticas salariais

(c) Força de trabalho por grupos de rendimento mensal, anos selecionados (% de força de trabalho)

1977

1979

1981 1983 Até 1/2 SM 13.4 10.9 12,1 12,7 Mais de 1/2 a 1 SM 20.9 18.5 15,8 18.3 Mais de 1 a 2 SM 24.7 25.2 24.7

22.8

Mais de 2 a 3 SM

10,2

10.7

12,6

11,8

Mais de 3 a 5 SM

8.6

9.8

10,2

8,9 Mais de 5 a 10 SM 5.8 7.0 7,0 7,5 Mais de 10 a 20 SM

2.6

3.0 2,9 3,3 Mais de 20 SM 1,3 1.3 1,3 1,3 Sem rendimentos* 12,5 13.6 13,4 13,4 Total

100.0

100,0

100.0

100.0

Obs.: A população rural da Região Norte e dos estados de Mato Grosso do Sul, de Mato

Grosso e de Goiás não está incluída para os anos de 1977 e 1979.

Não está incluída a população rural da Região Norte para os anos de 1981 e 1982. # Inclui aqueles que receberam somente benefícios da Previdência Social. Pes- soas sem rendimentos não estão incluídas.

SM = Salário mínimo.

Fonte: FIBGE, Indicadores Sociais - Tabelas Selecionadas, II. Rio de Janeiro, 1984, p. 142.

dade. Além disso, à medida que a recessão do início da década de 1980 diminuiu a proporção de mão-de-obra especializada usada pelas empresas, uma parcela decres- cente da força de trabalho pertencia à categoria cujos salários aumentavam mais rapi- damente do que o nível geral de preços.

Outro aspecto interessante da política salarial, de um ponto de vista de igualdade, é o fato de que ela era mais onerosa para pequenas do que para grandes empresas. T em sido demonstrado que grandes companhias empregam uma proporção menor de mão- de-obra não-especializada do que as pequenas e, conseqüentemente, as políticas dife- renciais de aumento salarial representaram uma carga maior para estas últimas. Como as grandes empresas desempenham um papel de liderança no estabelecimento de pre- ços, esse fato poderia conduzir a uma taxa de inflação reduzida, visto que seus aumen- tos de custos, devido a mudanças salariais, estão abaixo da recente taxa de inflação geral; mas isso também levaria a um arrocho nos lucros das empresas menores."

O impacto produzido pela discussão sobre política salarial também deve ser compa- rado aos resultados do censo demográfico de 1980 (Tabela 6.9) que mostram que, apesar da elevação dos salários médios reais, o aumento na concentração de renda, observada entre 1960 e 1970, continuava na década de 1980. A participação dos 20% pertencentes aos grupos de renda mais baixa caiu de 3,83% em 1970 para 3,39% em

Tabela 6.9

D istribuição de renda no Brasil, 1970-80

(% da renda total) Percentual da população 1970 m o

20

% mais baixa 3,83 3,39 50*» mais baixa 15,62 14,56

10

% mais alta 46,36 47,67 5% mais alta 33,85 34,85 19í mais alta 13,79 14,93

Fonte: Dados preliminares do IBGE (Divisão do DESPO/SUEGE).

1980, enquanto os 10% de renda mais elevada aumentaram sua participação de 46,36% p a ra 47,67%.

Estudos recentes mostraram que a carga representada pelos programas de ajuste do início da década de 1980 caiu mais pesadamente sobre os grupos de renda mais baixa d o que sobre outros setores da sociedade brasileira. As estimativas apresentadas na T 'abela 6.10a revelam que a distribuição de renda pessoal se tomou mais concentrada e n tre 1981 e 1983. E a Tabela 6.10b demonstra que a participação da renda da mão- de-obra caiu no mesmo período. Finalmente, a Tabela 6.10c indica que a produção sofreu um a queda menor do que o emprego e que os custos salariais em 1984 re- p resentaram cerca de 66,2% do que haviam sido em 1980. Assim, Maia Gomes afirma:

Visto q u e a produção não sofreu um a queda tão acentuada, conclui-se que outros custos de pro- dução e lucros caíram muito m enos... que os custos salariais na indústria m anufatureira. Existem provas suficientes de que os custos financeiros... aum entaram rapidamente nesse período, indi- cando q u e os intermediários financeiros lucraram em term os relativos e absolutos com a crise

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No documento Economia Brasileira - Werner Baer (páginas 117-121)