2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3 MARCO CIENTÍFICO-TECNOLÓGICO: BRASIL
3.3 ASPECTOS RELEVANTES E IMPLICAÇÕES RECENTES
Com vistas a apresentar os pontos-chave do marco científico- tecnológico brasileiro no que diz respeito à evolução da estrutura e políticas de C,T&I no Brasil elaborou-se um quadro síntese (quadro 12). Os principais programas e ações relacionadas refletem como se consubstanciou o SNI no Brasil e como se estabeleceram e consolidaram as principais instituições do país neste campo.
Quadro 12 - Síntese da evolução da estrutura e políticas de C,T&I no Brasil
Governo Plano de Governo Principais Programas/ações Castelo Branco (1964-1967) PAEG - sem política de C&T - Criação do FUNTEC Costa e Silva (1967-1969) PED - pesquisa científica e tecnológica é estratégica para o desenvolvimento
- Atividades científicas articuladas com as necessidades do sistema produtivo - Capacitação do país para adaptação e criação de tecnologia própria
- Criação da FINEP: fomentar o desenvolvimento de tecnologias e inovações por meio de parcerias - Criação do FNDCT: financiar a infraestrutura em C&T brasileira. Emílio Garrastazu Médici (1969- 1974) I PND - formulação do SNDCT
- Fortalecimento da empresa nacional para competir em áreas prioritárias, com elaboração tecnológica própria - Criação do I PBDCT: integração indústria-pesquisa-universidade. Ernesto Geisel (1974-1979) II PND - criação oficial do SNDCT - Criação do II PBDCT: prosseguimento ao plano anterior, principalmente no reforço da capacidade tecnológica da empresa nacional. João Baptista Figueiredo (1979-1985) III PND - pouca ênfase em C&T
- Criação do III PBDCT: definição de linhas gerais para as ações do setor público e não ações do governo. - Redução de gastos públicos em C&T. José Sarney (1985-1990) I PND – NR PAG - desenvolvimento tecnológico e formação de RH - Criação do MCT
- Implantação do PADCT I: promover recursos para o financiamento de projetos em programas selecionados; financiar os serviços de apóio à pesquisa; aperfeiçoar o sistema
institucional de apoio à C&T.
- Constituição de 88: C&T contempladas no artigo 218.
- Estímulo à criação das FAPs e fundos de C&T.
Fernando Collor de Mello (1990- 1992)
PPA - Diminuição da participação do Estado no investimento em C&T.
- Criação de programas para fortalecer a competitividade do parque industrial brasileiro: PBQB, PACTI, PACE. - Lançamento do PADCT II: inclusão de mais dois subprogramas.
Itamar Franco (1993-1994)
PPA - Lei 8.661/93: política de incentivos fiscais às atividades de P&D e a inovação
- Incorporação da inovação como parte do discurso das políticas de C&T. Fernando Henrique Cardoso (1º Governo- 1995-1998) PPA - desenvolvimento dos setores de infraestrutura, incluindo C&T
- Política de privatizações e reforma gerencial: criação das agências reguladoras, agências executivas e organizações sociais.
- Lançamento do PRONEX: apoiar o desenvolvimento científico e tecnológico pelo fomento à pesquisa nas grandes áreas do conhecimento. - Criação do CCT: assessoria na implantação da política de C&T. - Lançamento do PADCT III: aumentar a competência científica brasileira - Regulação de atividades: Lei da propriedade intelectual, lei de cultivares, lei do software, lei da biossegurança. Fernando Henrique Cardoso (2º Governo- 1999-2002)
PPA - Criação dos fundos setoriais: CT- Petro, CT-Energia, CT-Hidro, CT- Transpo, CT-Mineral, CT-Espacial, FUNTTEL, CT-Info, Fundo Verde- Amarelo, CT-Infra, CT-Agro, CT- Biotec, CT-Saúde, CT-Aero, CT- Amazônia, CT-Aquaviário.
- Realização da 2ª Conferência Nacional de CT&I: Livro Verde. Luis Inácio Lula da Silva (1º Governo- PPA -Planejamento estratégico do
- Continuidade nas ações de C&T: Livro Branco
2003-2006) MCT como prioridade
C&T para Inclusão Social
- Definição da Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e seus eixos estratégicos no Plano de Ação do MCT.
- Lançamento da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PICTE): convergência entre indústria e inovação
- Lei 10.973/04: Lei da inovação - Lei 11.079/04: Lei das parcerias público-privadas
- Lei 11.196/05: Lei do bem
- Realização da 3ª Conferência Nacional de CT&I. Luis Inácio Lula da Silva (2º Governo- 2007-2010)
PPA - Elaboração do Plano de Ação em CT&I: prioridades estratégicas: expansão e consolidação do Sistema Nacional de CT&I, promoção da inovação tecnológica nas empresas, pesquisa, desenvolvimento e inovação em áreas estratégicas, CT&I para o desenvolvimento social.
- Realização da 4ª Conferência Nacional de CT&I: Livro Azul
Dilma Rousseff (início 2011) PPA - Plano Brasil Maior - Mudança de nomenclatura do MCT para MCTI
- Elaboração da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação - Definição de cadeias prioritárias: tecnologias da informação e comunicação, fármacos, complexo industrial da saúde, petróleo e gás, complexo industrial da defesa, aeroespacial e ainda áreas relacionadas com a economia verde, energia limpa e desenvolvimento social e produtivo. - Criação da EMBRAPII
Fonte: Elaboração própria
Paralelamente, verificou-se um amplo esforço nacional para a consolidação de um sistema de ensino superior, no qual as instituições complementam e reforçam a estrutura de C,T&I,cujos principais programas e ações encontram-se sintetizados no quadro 13, a partir de
três momentos chave identificados: a constituição das primeiras universidades (até o início da década de 60); a reforma universitária e a expansão da pós-graduação (meados da década de 60 até a década de 80) e o ensino superior no Brasil pós anos 90.
Tais programas e ações se revelam complementares, na medida em que a estrutura de C&T nutre-se das instituições de ensino superior, quer no conhecimento produzido, na formação de pessoal qualificado ou na incorporação dos resultados de pesquisa. Por sua vez, o ensino superior ganha amplitude ao articular-se às demandas de C,T&I da sociedade. Contudo, quando se analisa o conjunto da estrutura e políticas de C,T&I, incluindo-se a questão do ensino superior, constata- se o caráter tardio da criação das instituições no Brasil, o que veio a se refletir posteriormente na própria consolidação das atividades voltadas à C,T&I. A fragmentação das instituições de ensino superior, criadas inicialmente como escolas isoladas, sem tradição na pesquisa científica é outro fator que contribui para este atraso. Somente após a criação das universidades e de instituições voltadas ao desenvolvimento científico e tecnológico, tais como a CAPES e o CNPq, que o Brasil começa a dar os primeiros passos rumo à incorporação da C,T&I como estratégia de governo e de desenvolvimento.
Quadro 13 - Síntese da evolução do sistema de educação superior no Brasil Etapa Principais Programas/ações
Constituição das primeiras universidades
- 1931:reforma Francisco Campos: primeira legislação federal delineando as características de uma universidade
- 1951: criação do CNPq e da CAPES
- 1961: promulgada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
Reforma Universitária e expansão da pós-graduação
- 1965: programas de cooperação entre Brasil- Estados Unidos (acordos MEC-USAID) - 1965: Parecer 977/65: início dos programas de pós-graduação
- 1968: Reforma universitária e regulamentação da pós-graduação
- 1974: I PNPG (1975-1979): expansão dos cursos de pós-graduação
- 1976: criação da avaliação institucional para pós-graduação
- 1981: II PNPG (1982-1985): consolidação do sistema de pós-graduação
- 1985: III PNPG (1986-1989): articulação da pós-graduação ao sistema de C&T.
- 1988: Constituição de 88 prevê a indissociabilidade entre o ensino, pesquisa e extensão.
Ensino Superior no Brasil pós anos 90
- 1996: Lei 9.394/96: Diretrizes e Bases da Educação Nacional
- 1996: criação do Exame Nacional de Cursos - 1997: tentativa de lançamento do IV PNPG - 1998: criação do ENEM
- 2001: lançamento do Plano Nacional de Educação
- 2001: criação do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior - FIES
- 2004: lançamento do Programa Universidade para todos – PROUNI
- 2004: lançamento do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES - 2004: V PNPG (2005-2010): incorporação da inovação à pós-graduação - 2005: regulamentação da EAD - 2006: Programa Expandir - 2007: lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação
- 2007: lançamento do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI
- 2008: lançamento do Plano Nacional de Assistência Estudantil – PNAES
- 2010: alterações no FIES: ampliação das estratégias de financiamento
- 2010: VI PNPG (2011-2020): dinamização e adensamento do Sistema Nacional de Pós- graduação
- 2011: criação do Programa Ciência sem Fronteiras
Fonte: Elaboração própria
Há que se ressaltar a importância do período que vai do regime militar até o início da nova república (1964-1990), quando de fato ocorre a consolidação de uma estrutura de C&T no Brasil com a criação de instituições e mecanismos de incentivo relevantes neste campo, bem como o reconhecimento da C&T como item da pauta dos programas de governo e planos de ação correspondentes. Neste período a reforma universitária uniformizou o sistema de ensino superior e a pós-
graduação deu um enorme salto, apoiada nos PNPG, que vêm sendo reeditados até os dias atuais.
Do ponto de vista econômico, no entanto, a instabilidade e a imprevisibilidade econômica deram o tom a este período, fazendo com que o governo concentrasse todos os esforços nesta esfera, deixando de avançar na perspectiva da C&T. Enquanto isso, o mundo começava a perceber que incorporar a inovação às políticas e ações no campo da C&T era fundamental para o ganho de competitividade internacional, o que passou a desencadear a criação de um conjunto de incentivos voltados as atividades de inovação.
No período que se inicia na década de 90, na medida em que o quadro de instabilidade econômica vai sendo superado, novas demandas vão tomando espaço na agenda governamental, dentre elas as proposições em torno de C&T. Neste sentido verifica-se que após a década de 90 há uma forte orientação dos governos para a C&T no Brasil, com a incorporação efetiva da inovação nas políticas implementadas, o que vai se consolidando no decorrer dos anos 2000. A inovação ganha espaço, notadamente na agenda de discussões, mas é efetivamente a partir da criação dos fundos setoriais em 1999, que o Brasil passa a contar explicitamente com a inovação incorporada em suas políticas de C&T. Tal fato vai refletir-se positivamente nas políticas de desenvolvimento regional, estadual e municipal. A partir daí, a inovação ganha cada vez mais espaço dentro das políticas de governo que passa a referir-se ao trinômio C,T&I.
Outro aspecto simbólico é a incorporação do termo inovação ao MCT que passou a denominar-se MCTI. Da mesma forma, uma nova configuração institucional se desenha com a aprovação da lei da inovação e da lei do bem, cujos resultados ainda são esperados. No campo do ensino superior, verifica-se uma clara expansão e consolidação das políticas adotadas, convergentes com o esforço de alcançar o desenvolvimento inovativo no país, dentre as quais pode-se destacar mais atualmente o Programa Ciência sem Fronteiras.
Um dos aspectos a se ressaltar nestas últimas décadas (anos 90 e 2000) é justamente o caráter de continuidade da política científica e tecnológica brasileira no que se refere aos temas de sua agenda, com destaque para a formação de recursos humanos e ainda o estímulo à ciência como forma de promover o desenvolvimento tecnológico e internalização das capacidades tecnológicas, entre outros (CASTRO, 2011; SERAFIM; DAGNINO 2011).
É preciso destacar ainda o caráter de política-meio que a política científica, tecnológica e de inovação assume, uma vez que esta
constitui-se na maior parte das vezes como um suporte para as demais políticas públicas, tais como a industrial, agrícola, de educação, de saúde e de inclusão social entre outras, cujos objetivos próprios se configuram como elementos de uma estratégia mais ampla, vinculados a outras políticas (DIAS, 2009). Neste sentido, há uma preocupação premente em reforçar esta articulação, dentro da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação do Governo Dilma Rousseff, conforme se pode visualizar na figura 5.
Figura 5 - Articulação da política de C,T&I com as principais políticas de Estado e a integração dos atores
Fonte: MCTI, 2012, p.27
Desta forma, verifica-se que as ações previstas no campo da C,T&I no Brasil vêm seguindo tanto numa perspectiva de continuidade, como no sentido de reforçar a articulação entre políticas meio e fim. O Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação (PACTI)em vigor no período de 2007 a 2011 foi um elemento importante no fortalecimento da articulação entre os atores que compõem o sistema nacional de C,T&I, que ganhou nova roupagem dentro do Plano Brasil Maior do Governo Dilma Rousseff. A questão da inovação no país vem sendo discutida num esforço conjunto notadamente por três Ministérios: MCTI, MDIC e MEC, envolvendo o setor acadêmico e o setor empresarial, contribuindo para a intensificação da interação U-E.
4 MARCO CIENTÍFICO-TECNOLÓGICO: SANTA CATARINA