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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.3 AS INSTITUIÇÕES E OS SISTEMAS DE INOVAÇÃO

2.3.2 Tecnologias sociais e ambiente institucional

As instituições e o meio ambiente institucional atuam sobre o processo de crescimento, viabilizando (ou não) inovações tecnológicas, mudanças na forma de organização das firmas, gestão no processo de trabalho e coordenação de políticas macroeconômicas (CONCEIÇÃO, 2001, p.17). Nesta ótica destaca-se o enfoque de Zysman (1994) com a perspectiva das “instituições nacionais enraizadas historicamente”, que ressalta o papel das trajetórias de crescimento criadas ao longo do tempo, por meio das instituições, como decisivos nos diversos ambientes nacionais. “A estrutura institucional nacional molda a dinâmica da política econômica e estabelece os limites dentro do qual as políticas governamentais e as estratégias corporativas são escolhidas” (ZYSMAN, 1994, p. 279).

Assim, a história ou os movimentos nacionais não podem ser compreendidos isoladamente, pois derivam de um processo de interação e competição. “O curso histórico particular de cada desenvolvimento nacional cria uma política econômica com uma estrutura institucional distinta que rege os mercados de trabalho, terra, capital e bens (ZYSMAN, 1994, p. 279). Para o autor, tal concepção gera algumas implicações cruciais, quer sejam: diferentes lógicas de “mercado” têm efeitos de longo-prazo no tipo, padrão ou modelo e nas taxas de crescimento em cada economia; o tipo de interação da lógica nacional de mercado entre um país e seus parceiros comerciais pode influenciar o caráter do crescimento de cada economia; e a lógica de mercado das economias dominantes nacionais pode influenciar a economia mundial como um todo.

Para Zysman (1995), mesmo dentro de uma economia global, os sistemas nacionais de inovação são relevantes porque estão enraizados nos arranjos institucionais nacionais e sociais. Neste sentido argumenta que a tecnologia se desenvolve por meio de comunidades cujas raízes são locais, de forma que trajetórias tecnológicas estão ligadas à contextos particulares. Para reforçar este argumento o autor destaca quatro aspectos importantes: (i) o conhecimento tácito que impulsiona o processo inovativo resulta de indivíduos, organizações e comunidades, cujas características moldam particularmente tal processo; (ii) a composição da indústria estabelece o conjunto de focos científicos e tecnológicos de uma comunidade, por meio de programas universitários e formação de pessoal; (iii) o conjunto de componentes, subsistemas, equipamentos de produção e know-how de uma dada economia de mercado delimita as possibilidades para as empresas e os

rumos do desenvolvimento tecnológico; (iv) cada comunidade desenvolve uma ótica própria para definição e solução de problemas de forma que as estratégias criadas para abordar tais problemas variam de lugar para lugar; sendo assim as apostas tecnológicas são definidas pela natureza da comunidade e pela composição de sua demanda.

De acordo com Conceição (2005) a proposição de Zysman (1994) trata particularmente das trajetórias de crescimento que tem nas instituições suas fontes geradoras, que viabilizam o crescimento econômico nacional, quer pela existência de padrões de inovação quer pelo desenvolvimento tecnológico. Desta forma, o processo de crescimento não se dá apenas pelo nível de investimento, mas depende diretamente de um ambiente institucional adequado. “Trajetórias nacionais distintas de desenvolvimento econômico e trajetórias tecnológicas particulares são produto de um contexto institucional específico dentro do qual cada economia opera” (ZYSMAN, 1994, p. 271).

Zysman (1994) expressa que a discussão contemporânea acerca de tecnologia e inovação pressupõe uma avaliação dos aparatos institucionais nacionais em termos de restrições e incentivos que definem produtos e estratégias de inovação disponíveis para as empresas. Neste sentido, argumenta que a concepção acerca dos sistemas nacionais de inovação pode ser inserida nesta discussão, uma vez que as instituições no campo da ciência e tecnologia interferem no ambiente dentro do qual as empresas operam na seleção e tomada de decisão acerca das inovações em produtos e processos. “Diferentes conformações históricas e institucionais desenham, nos diversos contextos regionais, os sistemas nacionais de inovação, que distinguem as trajetórias tecnológicas.” (CONCEIÇÃO, 2005, p.14).

As trajetórias que emergem em um país não podem ser facilmente copiadas. As ligações tecnológicas e de mercado entre empresas e indústrias canalizam e reforçam estas trajetórias. A firma, como ator principal da inovação (na perspectiva evolucionária) é restringida pela história política e industrial que toma a forma de instituições nacionais. Assim, o desenvolvimento tecnológico pode ser explicado considerando-se “as estruturas institucionais de uma economia” e seu “quadro nacional de incentivos e restrições” (ZYSMAN, 1995).

A firma opera então dentro de um “quadro nacional de incentivos e restrições”, cujos elementos envolvem o mercado financeiro e de trabalho, as regras de mercado e relações entre empresas, dentre outros, que definem o padrão de incentivos e restrições, que por

sua vez geram estratégias típicas das firmas em países particulares. Cada estratégia requer diferentes relacionamentos com clientes, fornecedores, gerentes, empregados e outros, que serão mais fáceis ou difíceis de acordo com os arranjos institucionais estabelecidos (ZYSMAN, 1995)

Dentro da perspectiva evolucionária, as inovações seguem rotas particulares no meio ambiente nacional, estabelecendo conexões entre diferentes partes da economia, enfatizando o caráter local do processo de desenvolvimento tecnológico, onde as rotinas das firmas, as instituições nacionais e as práticas e processos de produção é quem definem as trajetórias de desenvolvimento tecnológico (CONCEIÇÃO, 2001).

De acordo com Zysman (1995) são as estruturas institucionais que moldam e orientam o processo inovativo no sentido de criar trajetórias tecnológicas específicas, de forma que a abordagem institucional revela-se adequada para prover uma correta explicação acerca das trajetórias que emergem de tais estruturas. Neste sentido argumenta que as estruturas institucionais nacionais induzem padrões de rotinas de comportamento entre os diferentes atores na economia, cuja interação gera uma lógica de mercado e política distinta.

2.3.3 Tecnologias sociais e políticas de desenvolvimento tecnológico