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3.2 ELEMENTOS PARA A ESTRUTURAÇÃO DE UM MARCO LEGISLATIVO PARA SEGUROS

3.2.1 Possibilidade probabilística, análise de cenários e projeção de riscos: a questão jurídica

3.2.2.1 Assimetria informacional: seleção adversa e risco moral

O risco envolve incerteza e imprevisibilidade. A atividade seguradora vale- se de ferramentas e técnicas de racionalização dos riscos, tentanto, ao máximo, torná-los previsíveis – se não em nível de certeza, ao menos, de probabilidade. O grau de previsão e de acerto depende de diversos fatores.

Há duas peculiaridades de essencial relevância para a assegurabilidade dos riscos (seja antes ou após a subscrição do seguro): a seleção adversa e o risco moral. Como indica Copo,

O risco também é percepção. O evento, decomposta sua gênese em possibilidade de realização, traduz-se em risco, risco que não sabemos se acontecerá ou não e se virá a tornar-se sinistro, não

439 POÇAS, Luis. O dever de declaração inicial do risco no contrato de seguro. Coimbra: Almedina,

181 deixando de ser um fato causal que pertence e está localizado no campo das percepções. A percepção do mesmo só nasce e só existe se for baseada em informação. Essa pode ser mais verdadeira ou incerta, mais extensa ou mais deficitária, mas, sem ela, carece de sentido falar e configurar o risco.440

O adequado acesso informacional do segurador é requisito fundamental desde a etapa de subscrição até o final da vigência da apólice, ou mesmo em eventual período complementar ou suplementar (até mesmo se prorrogado além do término da relação contratual), em face da possibilidade de se comunicar uma reclamação ou descoberta relacionada a evento ocorrido durante o período da garantia. Desafios frequentes nesse processo referem-se às barreiras decorrentes da assimetria informacional. Dois elementos devem ser detidamente considerados, ligados à seleção adversa441 e ao risco moral, que são situações de assimetria constantes e que permeiam não só uma dada relação contratual, mas a própria operação de seguros, de forma mais ampla.442

A seleção adversa (adverse selection) é a própria seleção de riscos pelo segurador. Envolve distinguir os riscos bons e os ruins – respectivamente, os riscos de menor probabilidade e os de maior probabilidade – considerando que pessoas com maior probabilidade de sofrer perdas (maiores exposições) sejam justamente aquelas que têm maior incentivo a buscar a transferência dos seus riscos aos seguros, e, ao contrário, aquelas com menores exposições não possuem igual motivação.

Além da dificuldade em si, somam-se os custos operacionais para proceder com essa distinção e seleção. Ao passo que o segurador assume um maior volume de perdas, ele procede à compensação, distribuindo-a em preços

440 Tradução livre. Do original: “El riesgo es además percepción. El evento, descompuesta su

génesis en posibilidad de realización, se traduce en un riesgo, riesgo que no sabemos si se acaecerá o no y se transformará en siniestro, no dejando de ser un hecho causal que pertenece y se incardina en el ámbito de las percepciones. La percepción sobre el mismo solo nace y solo existe si la misma se asienta sobre la información. Esta podrá ser más cierta o incierta, más extensa o más deficitaria, pero sin la misma, adolece de sentido hablar y configurar el riesgo”. VEIGA COPO, Abel B. El riesgo en el contrato de seguro: ensayo dogmático sobre el riesgo. Cizur Menor (Navarra): Aranzadi, 2015, p. 24.

441 Sobre a relação entre assimetria informacional e seleção adversa, leciona Poças que “A

problemática da seleção adversa, tal como resulta da perspectiva da law and economics, apresenta-se como uma decorrência da assimetria informativa no âmbito dos ‘bens de experiência’ (experience goods) – que se revestem, para uma das partes, de uma relativa margem de incerteza”. POÇAS, Luis. O dever de declaração inicial do risco no contrato de

seguro. Coimbra: Almedina, 2013, p. 138.

442 Mais sobre o tema em MALO, Albert Azagra. Daños del amianto: litigación, aseguramiento de

riesgos y fondos de compensación. Madri: Fundación Mapfre, 2011, p. 71; e BERGKAMP, Lucas. Environmental risk spreading and insurance. Review of European Community and

182 (prêmios). É possível afirmar, portanto, que os segurados com “riscos bons” pagam pelos seus riscos através do agregado da dispersão dos preços; ou seja, pagam também pelos “riscos ruins” de outros segurados. A seleção adversa decorre de uma ineficiente segregação de riscos. Para que um determinado produto de seguro seja viável (inclusive para prover recursos – reserva técnica), o grupo de segurados deve estar distribuído de forma sustentável, preponderando os riscos bons. Nesse ensejo, recorre-se a Martins, quando explica:

A seleção adversa decorre da existência de produtos ou contrapartes

de diferente qualidade, sendo que há assimetria informativa relativamente a essa qualidade. O que é dizer que, dada a presença

de informação privada, uma das partes não logra graduar a qualidade dos vários parceiros/objectos potenciais de uma transação,

tratando todos do mesmo modo. Isso mesmo leva a que, entre as

partes informadas, sejam exatamente os parceiros menos desejáveis de uma transação os que disponibilizam para contratar: quando uma oportunidade de negócio é apresentada a um conjunto heterogêneo de participantes potenciais, aqueles que a aceitam serão, em média, mais indesejáveis do que aqueles que não a aceitam. No mercado de seguros, este fenômeno, quando funciona em desvantagem do segurador, retrata a tendência para recorrer ao seguro por parte de pessoas que sabem ter uma maior probabilidade de perda do que a média.443

A seleção adversa, em um plano macro, pode envolver até a exclusão prévia de certas atividades do rol de atividades asseguráveis. Quando uma atividade tem excessivo risco – como a de mineração, por exemplo – há uma tendência a não se assegurarem seus riscos ou, alternativamente, a determinar estritamente os riscos desta atividade que a serem assegurados, em um cotejo com os produtos de seguros disponíveis. Assim, é comum, por exemplo, aceitar os riscos patrimoniais e declinar os riscos de responsabilidade civil ou mesmo os ambientais.

Relacionada à seleção de riscos está a propensão do segurado à sua transferência, ligada à maior ou menor aversão aos riscos.444 Pode haver um

443 MARTINS, Maria Inês de Oliveira. Risco moral e contrato de seguro. In: NUNES, António José

Avelãs; CUNHA, Luís Pedro; MARTINS, Maria Inês de Oliveira (Orgs.) Estudos em

Homenagem ao Prof. Doutor Aníbal de Almeida. Boletim da Faculdade de Direito (Stvdia

Ivridica 107 – Ad Honorem 7). Coimbra: Coimbra Editora, 2012, p. 643.

444 “Once the risk is properly identified and evaluated, however, risk management decisions still

need to be taken. In this perspective, economic actors may be: - risk averse: if they are willing to pay even more than the actual value of the risk in order to transfer its harmful consequences to someone else; - risk preferring: if they prefer to retain the risk of loss, rather than transferring it by paying upfront an amount equal to its actual value. - risk neutral: if they are indifferent with respect to the alternative between (a) retaining the risk and (b) transferring it to someone else by paying upfront an amount equal to its actual value.” MONTI, Alberto.

183 segurado com um risco bom que, por ter maior aversão, opte por transferi-lo ao seguro e, ademais, justamente por sua aversão, será razoável supor que seja também mais prudente e precavido. Quer dizer: além da transferência, é possível que opte por adotar as melhores tecnologias disponíveis para mitigar o risco, o que gera uma sequência virtuosa e uma sinergia positiva de prevenção.

O risco moral (moral hazard), por outro lado, remete a um descaso do segurado, decorrente do conforto relacionado à garantia que lhe é proporcionada pelo seguro. A pessoa, então, age com menor cuidado e diligência em razão de estar assegurada, incrementando, por conseguinte, a probabilidade de os riscos se materializarem ou de aumentar sua gravidade, inclusive não investindo ou reduzindo investimentos em prevenção. O problema do risco moral é exemplo contumaz da assimetria informacional. A propósito, refere Martins:

A assimetria informativa corresponde a uma situação em que tal

imperfeição é devida a uma distribuição desigual de informação relevante numa transacção entre os vários sujeitos que nela

intervêm. A posição de supremacia informativa de uma das partes pode advir-lhe do facto de esta deter “informação privada”, não observável publicamente, a que a outra parte não tem acesso. Nomeadamente, porque a detém por inerência, quando a informação respeita a uma sua característica pessoal, por exemplo atinente ao estilo de vida; ou porque participou de um determinado processo econômico, por exemplo, na qualidade de empregador de determinado sujeito, sabendo mais sobre as suas qualidades do que outros potenciais empregadores. [...]

Em decorrência da assimetria informativa surgem, pois incentivos para forjar ou ocultar a informação privada em proveito próprio, adoptando um comportamento oportunista. Mas não exclusivamente; dessa assimetria surgem também incentivos para a obtenção de

informações pela parte menos informada, através de mecanismos

apropriados (selecção ou screening), bem como para a transmissão

de informação por parte do agente mais informado, através de

mecanismos apropriados (sinalização ou signaling).445

O problema da assimetria, associado ao do risco moral, em matéria de seguros, possui muita relevância, pois é com base em informações do próprio segurado ou proponente que a seguradora poderá compreender adequadamente os riscos que estará assumindo. Transposta esta questão para os riscos ambientais, o problema toma contornos de maior complexidade, pois envolve múltiplos fatores.

management of environment-related risks. OCDE, 2002. Disponível em: <www.oecd.org/finance/financial-markets/1939368.pdf>. Acesso em: 18 nov. 2017, p. 5.

445 MARTINS, Maria Inês de Oliveira. Risco moral e contrato de seguro. In: NUNES, António José

Avelãs; CUNHA, Luís Pedro; MARTINS, Maria Inês de Oliveira (Orgs.) Estudos em

Homenagem ao Prof. Doutor Aníbal de Almeida. Boletim da Faculdade de Direito (Stvdia

184 Tomando por exemplo uma determinada planta industrial, será preciso conhecer o modo produtivo, a tecnologia utilizada, o treinamento e o comprometimento dos colaboradores, o histórico de acidentes e contaminações, a regularidade, suficiência e cumprimento do licenciamento ambiental e suas exigências e condicionantes, entre outros elementos.

Não bastando a análise prévia à subscrição, o acesso informacional deve ser constante durante todo o iter contratual, para a verificação de conformidade do segurado. A manutenção do padrão de conformidade deve ser, no mínimo, equivalente àquela do risco declarado antes da contratação do seguro. Escapar disso produz um exemplo de risco moral que pode incorrer em um agravamento do risco, com suas consequências para fins de garantias pelos seguros. Como explica Martins,

As situações de “desalinhamento de incentivos” (missalignement of

incentives) são aquelas em que os sujeitos não suportam a totalidade

das consequências dos seus actos: não são inteiramente recompensados pelo que fazem, ou não têm que suportar a totalidade dos custos por aquilo que fazem. Ora, detecta-se uma correlação positiva entre a suportação do risco e a existência de incentivos para o minorar. Assim, quando o risco é suportado pelo próprio sujeito, há um incentivo a substituir a perda incerta causada pela materialização do risco por um gasto certo em precaução [por exemplo, contratando um seguro]. Inversamente, não sendo o risco suportado pelo próprio sujeito, não haverá incentivo para incorrer em gastos com precaução, já que não impende sobre o sujeito a possibilidade daquela perda incerta; mais: se aquela suportação do risco por terceiro trouxer ao sujeito uma vantagem no caso de materialização do risco [...] poderá mesmo haver interesse em provocar tal materialização.446

A questão do risco moral constitui, portanto, um problema de incentivo, quando o sujeito, privilegiando seus interesses próprios e sem ver motivo para agir de outro modo, atua contra o interesse de terceiros ou de seus parceiros contratuais. Por isso, os seguros valem-se de mecanismos de incentivo (os bônus, por exemplo), bem como de instrumentos para punir comportamentos que desviem do padrão de risco assumido pelo segurador.447 O desafio é alcançar um ponto ótimo de simetria informativa, colaboração e manutenção de prudência, de modo a garantir equidade

446 MARTINS, Maria Inês de Oliveira. Risco moral e contrato de seguro. In: NUNES, António José

Avelãs; CUNHA, Luís Pedro; MARTINS, Maria Inês de Oliveira (Orgs.) Estudos em

Homenagem ao Prof. Doutor Aníbal de Almeida. Boletim da Faculdade de Direito (Stvdia

Ivridica 107 – Ad Honorem 7). Coimbra: Coimbra Editora, 2012, p. 645.

447 A propósito, ver MARTINS, Maria Inês de Oliveira. Risco moral e contrato de seguro. In:

NUNES, António José Avelãs; CUNHA, Luís Pedro; MARTINS, Maria Inês de Oliveira (Orgs.)

Estudos em Homenagem ao Prof. Doutor Aníbal de Almeida. Boletim da Faculdade de Direito

185 de condições entre as partes, para manter saudável e equilibrada a dinâmica contratual e para que o segurado aja com diligência no evitamento da ocorrência de um sinistro ou de redução de suas perdas.448

Tanto para a seleção adversa quanto para o risco moral, os seguros dispõem de mecanismos de compensação e minimização, como a classificação de riscos, as franquias ou bonificações, e previsões contratuais de exclusão de cobertura (como, por exemplo, para o caso de agravamento do risco). Esses mecanismos, no entanto, são mais ou menos eficientes a depender se está-se a tratar de first ou third-party insurance. Nos seguros de responsabilidade, o conhecimento e controle sobre a(s) vítima(s) é menor ou impossível.449

A diferença entre first ou third-party insurance é sobre a capacidade de o segurador conhecer sobre a pessoa ou objeto exposto ao risco, materialmente. Trata-se de first-party insurance quando o sujeito exposto ao risco, por si ou seus bens, é o próprio segurado. O segurador, nesse caso, detém maior controle e acesso informacional, inclusive sobre o comportamento do segurado. Já nos seguros em que o risco material recaia sobre um terceiro (third-party insurance), que não seja o segurado, mas pelo qual poderá recair uma responsabilidade sobre o segurado (risco de responsabilização – modelagem dos seguros de responsabilidade civil), o segurador não detém controle ou acesso informacional. Martins explica a distinção quando, ao tratar do risco moral no âmbito do mercado de seguros, aponta as duas formas de manifestação desse fenômeno:

Em primeiro lugar, na sua manifestação de detecção mais antiga, corresponde ao risco moral proveniente da esfera do segurado, que decorre da transferência de risco que ocupa um papel central no contrato. Em segundo lugar, atenderemos, pelos efeitos que tem sobre a prestação seguradora, ao risco moral provindo de terceiros, cujas acções determinem o montante daquela prestação.450

Quanto a riscos ambientais, sob o paradigma dos danos individuais, o mais comum são vítimas difusas, sobre as quais, a priori, o segurador não detém qualquer estabilidade de informação, pois a condição material das populações é

448 WINTER, Ralph A. Optimal insurance under moral hazard. In: DIONE, Georges (Edit.)

Handbook of insurance. Norwell: Kluwer Academic Publishers, 2000, p. 155-183.

449 BERGKAMP, Lucas. Environmental risk spreading and insurance. Review of European

Community and International Environmental Law (RECIEL). Oxford: Blackwell, v. 12, n. 3, 2003,

p. 273.

450 MARTINS, Maria Inês de Oliveira. Risco moral e contrato de seguro. In: NUNES, António José

Avelãs; CUNHA, Luís Pedro; MARTINS, Maria Inês de Oliveira (Orgs.) Estudos em

Homenagem ao Prof. Doutor Aníbal de Almeida. Boletim da Faculdade de Direito (Stvdia

186 dinâmica. Ainda que se faça, previamente, uma análise das populações expostas aos riscos atinentes à atividade de uma indústria, por exemplo, será impossível (por demasiado oneroso), manter um monitoramento sobre essas populações, suas vulnerabilidades e capacidade de resiliência.

A questão do risco moral relacionada ao próprio segurado ou a terceiro será abordada oportunamente, quando enfrentada a questão pela perspectiva das coberturas e indenizações do seguro para os danos ambientais individuais reflexos.