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2.2 ATIVIDADE E TÉCNICA SEGURADORA

2.2.3 Classificação dos seguros

2.2.3.2 Seguros de danos e o seguro de responsabilidade civil

Os seguros de danos dividem-se entre patrimoniais e de responsabilidade civil. Ambos servem ao objetivo de resguardo ou de reposição dos bens e do patrimônio do segurado. Nos patrimoniais, protegem-se seus bens diretos; nos de responsabilidade civil, a reposição patrimonial cumpre a obrigação de reparar algum

244 Nesse sentido, vide PERANDONES, Pablo Girgado. El principio indemnizatorio en los seguros

de daños: una aproximación a su significado. MERCATURA – Colección Estudios de Derecho

Mercantil, n. 19. Granada: Comares, 2005, e do mesmo autor, La póliza estimada: la valoración convencional del interés en los seguros de daños. Madrid: Marcial Pons, 2015.

245 SILVA, Ivan de Oliveira. Curso de direito do seguro. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 220.

246 Código Civil, artigo 789: Nos seguros de pessoas, o capital segurado é livremente estipulado

pelo proponente, que pode contratar mais de um seguro sobre o mesmo interesse, com o mesmo ou diversos seguradores.

247 SILVA, Ivan de Oliveira. Curso de direito do seguro. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 213.

248 BECHARA SANTOS, Ricardo. Direito de seguro no Código Civil e legislação própria. Rio de

114 dano causado a terceiros. Os seguros de danos, como os seguros em geral, servem ao segurado e aos seus interesses – a proteção de terceiros somente surgirá de maneira reflexa, como garantia, nas hipóteses de insuficiência ou de indisponibilidade do patrimônio pessoal do segurado.

O seguro de responsabilidade civil representa uma das diversas espécies do vasto campo de atuação dos seguros, consistindo em importante instrumento diante das atuais contingências da vida moderna.249 Pode ser definido como aquele em que se obriga o segurador a indenizar terceiros, em conformidade com o previsto no contrato e dentro dos limites legais e contratuais, diante da condição de um segurado que esteja civilmente responsável por danos causados a outrem.250 O Código Civil de 2002 estabelece um conceito legal para o seguro de responsabilidade civil: seu art. 787 dispõe que “no seguro de responsabilidade civil, o segurador garante o pagamento de perdas e danos devidos pelo segurado a terceiro”.

Para Ricardo Bechara Santos, o seguro de responsabilidade civil apresenta natureza patrimonial, uma vez que visa repor o patrimônio do segurado que tenha sido desfalcado pelo deslocamento de uma quantia em razão de dano causado ao bem de terceiro. O seguro deve repará-lo, respeitando os limites e condições estabelecidos no contrato.251 O objeto dessa espécie de contrato será sempre uma responsabilidade, por isso se diferencia de outras convenções. Ao se tratar de um contrato de garantia, apresenta objeto e contraprestação distintos dos demais.252

O seguro de responsabilidade civil está vinculado ao interesse do segurado em manter seu patrimônio protegido contra o risco de ser-lhe imposta alguma responsabilidade; ou seja, busca no seguro a garantia de não precisar diminuir seu patrimônio em razão dos resultados civis negativos que venha a causar a outrem. O risco coberto por essa classe de seguro é a eventualidade de ocorrência

249 FERREIRA SILVA, Rita Gonçalves. Do contrato de seguro de responsabilidade civil geral: seu

enquadramento e aspectos jurídicos essenciais. Coimbra: Coimbra, 2007, p. 101.

250 BARBAT, Andrea Signorino. Los seguros de responsabilidad civil: caracteres generales y

coberturas principales. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria, 2011, p. 55-56.

251 BECHARA SANTOS, Ricardo. Direito de seguro no cotidiano: coletânea de ensaios jurídicos.

Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 59.

252 DAMASCENO, Arthur Sabino. Seguro ambiental: considerações acerca da efetiva reparação

dos danos à luz do direito brasileiro. In: TEIXEIRA, Antonio Carlos (coord.). Em Debate, 6: contrato, dano ambiental, governança corporativa, risco. Rio de Janeiro: Funenseg, 2006, p. 21.

115 de danos a terceiros que sejam imputados ao segurado, de modo que tenha que responder por tais danos.253 O risco, portanto, liga-se à possibilidade de perda do próprio segurado, quando compelido a indenizar terceiro.254 Há, assim, uma direta vinculação com o resguardo do patrimônio pessoal do segurado. A esse propósito:

Costuma dizer-se que o bem protegido é, nestes seguros, o patrimônio do segurado como um todo – porque o fim deste seguro é proteger o segurado contra o desembolso das indemnizações por si devidas. Daí não ser rigorosa a asserção de que a separação entre os seguros de coisas e os seguros de responsabilidade civil distinguiria seguros de riscos próprios e seguros de riscos de “terceiros”. Os riscos seguros, nos seguros de responsabilidade civil, também são riscos próprios – do segurado, entenda-se, não necessariamente do tomador – e não de terceiros (eventuais lesados).255

Veiga Copo ressalta que, nos seguros de responsabilidade civil, o que se protege é o segurado em relação ao seu patrimônio ativo, “já que sobre este é que recai a obrigação de pagar uma dívida de responsabilidade civil frente a terceiros. Trata-se de cobrir o risco de ameaça ao eventual responsável, e que se concentra e materializa sobre seu patrimônio”.256 Fica clara a finalidade e o escopo dos seguros

253 REGO, Margarida Lima. Contrato de seguro e terceiros: estudo de direito civil. Coimbra:

Coimbra Editora/Wolters Kluwer, 2010, p. 646. A autora faz uma ressalva importante em relação ao que, no Brasil, denominamos de Custos de Defesa, uma cobertura largamente presente nos seguros de responsabilidade civil, ainda que não se enquadre propriamente nessa categoria. Diz respeito a custos que possam incorrer ao segurado no exercício de sua defesa perante terceiros. Assinala a autora, neste sentido, que “deixo de fora a cobertura de despesas associadas à refutação de pretenções infundadas de terceiro por considerar que, ainda que estas se encontrem por vezes cobertas num seguro de responsabilidade civil, não o definem”.

254 Usa-se a expressão “terceiro” com a conotação típica, relacionada ao instituto da

responsabilidade civil sobre “outrem”, na forma da regra básica de responsabilidade aquiliana insculpida no artigo 927 do Código Civil brasileiro. A questão da definição do terceiro, inclusive para fins de compreensão da amplitude e dos beneficiários nos seguros de responsabilidade civil ambiental, no âmbito dos riscos ambientais e das lesões difusas, ganha contornos próprios e muito especiais – conforme demonstrado no capítulo 1 e a ser detidamente analisado no último capítulo – em relação ao redimensionamento do terceiro lesado na responsabilidade civil ambiental.

255 REGO, Margarida Lima. Contrato de seguro e terceiros: estudo de direito civil. Coimbra:

Coimbra Editora/Wolters Kluwer, 2010, p. 647.

256 Tradução livre. Do original: “Se protege al asegurado en relación con todo su patrimonio activo

en cuanto que sobre este pesa la obligación de pagar una deuda de responsabilidad civil frente a terceros. Se trata de cubrir el riesgo que amenaza al eventual responsable, y que se concreta y materializa sobre su patrimonio”. VEIGA COPO, Abel B. El riesgo en el contrato de seguro: ensayo dogmático sobre el riesgo. Cizur Menor (Navarra): Aranzadi, 2015, p. 397. E complementa: “El asegurador indemniza un daño del que es responsable o causante el asegurado que responde con todossus bienes presentes y futuros. El siniestro se verifica con el nacimiento de la deuda. La finalidad que busca este seguro no es otra que la de mantener indemne el patrimonio del asegurado ante la eventualidad de una responsabilidad civil que se le exige cuando se materializa el riesgo que es objeto del contrato y del que el asegurado es responsable. Sin duda, uno de los fundamentos princípiales en el sistema de seguros de responsabilidad civil general viene, sin duda, de la mano de la disociación o separación entre el derecho de la víctima en relación con el danãnte […]” (loc. cit.).

116 de responsabilidade civil: têm por objetivo a proteção do segurado (mais especificamente, o resguardo patrimonial do próprio segurado) contra eventuais perdas que tenha em razão de uma obrigação de indenizar terceiros. Note-se que os seguros de responsabilidade civil não cobrem, como regra, todos os riscos de responsabilização civil do segurado, sendo praxe restringir coberturas a uma determinada dimensão ou modalidade de responsabilidade, ou, ainda, limitar a cobertura a uma determinada prática profissional, com a exclusão de qualquer outra.257

Não se olvida, outrossim, a preocupação com a solvência do segurado, no sentido de que tenha capacidade financeira, meios e recursos para honrar sua obrigação perante terceiros. O seguro proporciona a reposição patrimonial do segurado em caso de perda decorrente da indenização que pagará ao terceiro, portanto sua função social aparece destacada nas hipóteses em que o patrimônio do segurado seja insuficiente (ou inexistente) para honrar sua obrigação. Em outros termos, o segurado seria incapaz de honrar sua dívida com patrimônio próprio, valendo-se, portanto, da garantia ofertada pelo contrato de seguro, através da qual o segurador honrará uma obrigação originariamente sua. Embora o segurador cubra o risco de responsabilização do segurado, a obrigação do primeiro não se confunde com o dever de indenizar do segundo perante o terceiro. O dever do segurador decorre de um dever primário de prestar, fundado no contrato e não na responsabilidade civil.258

Alguns autores, como Ferreira da Silva, entendem que esse ramo vise, simultaneamente, resguardar o patrimônio do segurado (evitando que sofra diminuição ativa ou aumento passivo) e proteger os “legítimos interesses” dos terceiros lesados, cujos danos sofridos são ressarcidos pela seguradora.259 Não há como negar, portanto, a possibilidade de atendimento de um compromisso com dimensão de ética social no seguro de responsabilidade civil. Os seguros de responsabilidade civil transmitem a ideia de dever social, pois “o plexo relacional de indivíduos, cada qual podendo causar danos e prejuízos a outro membro da

257 REGO, Margarida Lima. Contrato de seguro e terceiros: estudo de direito civil. Coimbra:

Coimbra Editora/Wolters Kluwer, 2010, p. 648.

258 REGO, Margarida Lima. Contrato de seguro e terceiros: estudo de direito civil. Coimbra:

Coimbra Editora/Wolters Kluwer, 2010, p. 647.

259 FERREIRA SILVA, Rita Gonçalves. Do contrato de seguro de responsabilidade civil geral: seu

117 coletividade e cada indivíduo lesado repercutindo o seu dano também a outras pessoas, necessita de garantia de indenização”.260

Para elucidar um preceito não imputado pelo modelo brasileiro261: em alguns países, o lesado pode exercer autonomamente o seu direito, acionando diretamente a empresa de seguros. Esse mecanismo reveste o seguro de responsabilidade civil de cunho social, uma vez que dá garantia, legalmente estabelecida, à vítima, cabendo à empresa seguradora o ressarcimento dos prejuízos causados e satisfazendo, assim, necessidades individuais, bem como as necessidades da sociedade em geral.262 Qualquer dano causado a alguma pessoa tem repercussão na sociedade e ocasiona um conflito social; sendo assim, pode-se concluir que esse seguro ofereça, ao mesmo tempo, uma proteção pessoal e patrimonial à vítima, ao segurado e à comunidade em geral.263