1.3 A RESPONSABILIDADE AMBIENTAL COMO RISCO E O RISCO DA RESPONSABILIZAÇÃO
1.3.1 A responsabilidade civil ambiental no direito brasileiro
1.3.1.1 Formas de reparação dos danos ambientais
1.3.1.1.3 Reparabilidade dos danos ambientais individuais
A reparabilidade dos danos individuais deve ocorrer na forma da sistemática civil tradicional. Matos analisa o sistema português (que, embora específico e alinhado à Diretiva 2004/35/UE, tem validade à sistemática brasileira):
Através de uma acção de responsabilidade civil, os particulares, sem necessidade de recurso a acção popular, podem exercer a sua pretensão ressarcitória contra os operadores que provocam danos ambientais consubstanciados em violações nos seus direitos subjectivos absolutos, traduzam-se as mesmas em ataques a bens da personalidade ou às coisas objecto de direitos reais.168
Assim é, pois, nos danos de reparabilidade direta, próprios às situações que afetem interesses individuais, ou mesmo individuais homogêneos, compete àquele que sofrer o dano receber a indenização de forma direta, contemplando os danos patrimoniais e extrapatrimoniais, em todas as suas subdimensões.169 Deste
168 MATOS, Filipe Albuquerque. Danos ambientais / danos ecológicos: o fundo de intervenção
ambiental. In: MONTEIRO, Jorge Sinde; BARBOSA, Mafalda Miranda (Coord.). Risco
ambiental: atas do colóquio de homenagem ao Senhor Professor Doutor Adriano Vaz Serra.
Coimbra: Instituto Jurídico/FDUC, 2015, p. 38.
169 Assim, danos emergentes, lucros cessantes, indenização por perda de chance, dano estético,
dano corporal, dano existencial, dentre outros. A propósito, oportuno fazer menção à questão dos “danos puramente econômicos” (pure economic loss) ou, mais precisamente, ao debate sobre a limitação dos danos puramente econômicos. Como explicam Pomar e García, “Tal concepto de daño económico, así como la regla que excluye su compensación, son creaciones del Common Law y en éste todavía hoy desempeñan un papel decisivo, aunque de significado incierto, para definir los límites del deber de cuidado y la interacción entre el derecho de contratos y el derecho de daños”. Para delimitação do conceito, explicam os referidos juristas:
82 modo, “quando ocorrerem danos por intermediação do meio ambiente, suportados por indivíduos determinados, são reparáveis por meio da atribuição de responsabilidade civil, estabelecida pelo Código Civil e por leis especiais”.170
Por relevante e atual, cumpre fazer referência à mediação ambiental, uma forma alternativa de solução de conflitos por meio da autocomposição e da promoção do diálogo entre as partes, que propõe solucionar litígios com foco no futuro. Como explicam Testa e Gerpe,
[…] embora o começo da mediação tenha sua origem em um fato ou situação do passado, que é o que origina o conflito, o trabalho fundamental do processo não é explorar como se deram estas circunstâncias, tampouco buscar prioritariamente responsáveis; mas sim que o trabalho está encaminhado a buscar, a partir de aí em diante, uma solução ou um caminho que leve as partes a poder superar o conflito e que lhes permita satisfazer suas necessidades.171 Para tanto, a mediação vale-se do incentivo e da viabilização do diálogo entre as partes envolvidas, de modo que,
Assim que tiverem sido escutadas atentamente as posições das partes, inicia-se a trabalhar com os interesses subjacentes, e assim se indaga, por exemplo, a respeito das circunstâncias que moveram o atuar das partes e, fundamentalmente as consequências possíveis de continuar os procedimentos atuais, bem como os custos atuais e futuros que estas ações implicam e eventualmente poderão originar. Os custos se avaliam não apenas em nível monetário, mas também de imagem, saúde, emocionais, dentre outros.172
“El concepto de daño puramente económico concede enorme importancia a un dato: si el demandante de la acción de daños que solicita una compensación por una pérdida económica ha sufrido algún daño en su persona o en su propiedad por parte del demandado. Si el daño económico es consecuencia de una agresión a la vida, a la integridad física u otros derechos de la personalidad, o de una invasión de la propiedad u otros derechos similares, la pérdida económica sería concebida, en principio, como un daño ordinario y no como daño puramente económico y deberá, en principio, ser indemnizado por el demandado. Por el contrario, cuando el daño económico no es consecuencia de una lesión en la persona o en la propiedad sufrida por el demandante –por ejemplo, deriva de un daño en una persona o en una propiedad diferentes a la del demandante– la pérdida se califica como daño puramente económico y, no será en principio, indemnizable”. Nesse sentido, POMAR, Fernando Gómez; GARCÍA, Juan Antonio Ruiz. La noción de daño puramente económico: Una visión crítica desde el análisis económico del derecho. Disponivel em: <http://www.indret.com/pdf/102_es.pdf>. Acesso em 27.junho.2018.
170 MELO, Melissa Ely. Restauração ambiental: do dever jurídico às técnicas reparatórias. Porto
Alegre: Livraria do Advogado, 2012, p. 88 e 91.
171 Tradução livre. Do original: “[…] es decir, si bien el comienzo de la mediación tiene su origen en
un hecho (o situación) del pasado, que es lo que origina el reclamo, el trabajo fundamental del proceso no es explorar cómo se dieron esas circunstancias, ni buscar prioritariamente responsables (jurídicos); sino que el trabajo está encaminado a buscar, a partir de ahí en adelante, una solución o un camino que lleve a las partes a poder superar el conflicto y que les permita satisfacer sus necesidades”. TESTA, Graciela; GERPE, Marcela S. Medio ambiente y mediación: puntos de encuentro. Revista de Derecho Urbanístico y Medio Ambiente. Madri: año XLVIII, n. 290, junio 2014, p. 102-103.
172 Tradução livre. Do original: “Luego de haber escuchado atentamente las posiciones de las
83 A mediação devidamente implementada poderá apresentar-se como solução célere e equitativa para solução de conflitos, de especial importância em situações em que os danos individuais se apresentem de forma massificada, com consequente congestionamento do (e no) sistema tradicional de justiça.
De outra banda, tal como referido no tópico sobre a reparabilidade do dano ecológico, é relevante a resposta de emergência e de administração de crise, entendidas tais medidas como formas de atenuar os prejuízos às populações envolvidas e afetadas em um determinado evento de dano ambiental. Como explica Carvalho (ainda que na perspectiva dos desastres, mas com considerações aplicáveis a quaisquer situações, independentemente de sua magnitude),
As atividades de resposta compreendem, a título exemplificativo, a busca e o resgate de pessoas afetadas; a assistência médica; a evacuação das zonas de risco; o alojamento temporário, distribuição de alimentos e vestuário aos afetados; a segurança e a proteção dos bens e pessoas; o apoio logístico; a adoção de sistemas de comunicação de alerta e orientação da comunidade afetada.173
Uma vez mais, ainda que o objetivo deste estudo não seja enfrentar os elementos processuais próprios da responsabilização civil ambiental, ressalte-se que os danos individuais, reflexos, devem ser tutelados pela via processual individual. Isto é, cumpre a cada lesado pleitear judicialmente o que lhe for de direito ou, admitindo-se a hipótese de tutela coletiva, por representação processual, pretende- se que cada um deles promova a liquidação e apuração de seus prejuízos, sejam materiais ou extrapatrimoniais.