1.2 INFORTUNÍSTICA AMBIENTAL: AS RELAÇÕES ENTRE RISCOS E DANOS AO MEIO AMBIENTE
1.2.1 Riscos e danos ambientais: especificidades
Cane examina as características geralmente atribuídas aos danos ambientais, assim sintetizadas: costumam repercutir individualmente (sobre pessoas) ou sobre grupos; são, quase sempre, irreversíveis; não respeitam fronteiras políticas e podem atingir um número não homogêneo de pessoas e espaços; afetam um largo número de vítimas; podem ficar incubados/latentes durante longos períodos; e são de difícil estabelecimento da causalidade.64
63 Tradução livre. Do original: “La autorización administrativa por razones de seguridad – entre la
que se encuentra también la autorización ambiental – cobra así una nueva y actualizada dimensión si se repara en que su objeto y fnalidad es la determinación del riesgo permitido. Lo mismo puede decirse de las normas técnicas – con frecuente remisión a la autorregulación experta – que con carácter general trazan la frontera del riesgo permitido. Novedosos y muy relevantes son también otros expedientes para articular las decisiones sobre riesgos como el que se articula en torno al principio de precaución. Por lo demás, las decisiones sobre riesgos permitidos no son decisiones absolutas, sobre admitir un riesgo o la ausencia total de riesgo. En una sociedad saturada de tecnología y expuesta a una gran variedad de riesgos, las decisiones son optativas, entre un riesgo u otro. Así, por ejemplo, las decisiones, opciones, sobre tecnologías energéticas entrañan, todas ellas, un riesgo; se trata entonces de optar entre ellos. Por eso es ya un lugar común en la jurisprudencia, compartido por los tribunales de todas las instancias y jurisdicciones, la constatación de que no existe el riesgo cero. Estamos así obligados a convivir con los riesgos, pero podemos elegir con cuales nos quedamos”. PARDO, José Esteve. Las aportaciones de Ulrich Beck a la comprensión del nuevo entorno sociológico del Derecho Público. In: GOMES, Carla Amado; TERRINHA, Luis Heleno (Coord.). In
memoriam: Ulrich Beck. Lisboa: Instituto de Ciências Jurídico-Políticas/FDUL, 2016, p. 99-100.
64 CANE, Peter. Are environmental harms special? Journal of Environmental Law. Oxford
University Press, 13:1, 2001, p. 3-20. O autor – de modo interessante e provocativo – suscita, entre outros questionamentos, a interrogação a respeito da real necessidade de regras especiais para a responsabilidade por danos ambientais. O texto é relativamente antigo, mas útil para retratar as discussões que precederam o “Livro Branco sobre responsabilidade ambiental”, da União Europeia, especialmente sobre a definição dos Standards e alcances da
48 Em outra perspectiva, Bahia afirma que os danos ambientais possuem traços peculiares, de modo que, “diferentemente dos danos clássicos, que se desenvolvem num plano intersubjetivo, os danos ambientais são supraindividuais por excelência”, característica à qual é somada a complexidade própria ao fenômeno natural, resumida em três especificidades:
a) A incerteza é reconhecidamente um elemento inerente aos danos ambientais (...);
b) Uma característica básica do meio ambiente é interdependência entre os elementos que o compõem, de modo que um desequilíbrio que afete um elemento pode afetar qualquer outro componente do sistema em que está integrado, gerando consequências em cadeia; c) Além disso, a maior parte das lesões ambientais são irreversíveis, pois, uma vez degradado, é quase impossível que o ambiente retorne ao estado anterior e as medidas de recuperação ambiental são difíceis do ponto de vista técnico e apresentam um custo elevado para a realização.65
Com efeito, afirma-se que os danos ambientais sejam difusos, pois atingem interesses difusos; são incertos; transtemporais; cumulativos e graduais; e latentes. Além disso, podem ocorrer em situações de normalidade (tolerabilidade) ou não.66
Os riscos ambientais,67 segundo Beck, “emergem ao mesmo tempo vinculados espacialmente e desvinculadamente com um alcance universal”, de modo que “incalculáveis e imprevisíveis são os intrincados caminhos de seus efeitos nocivos”. Nesses riscos, “algo que se encontra conteudístico-objetiva, espacial e temporalmente apartado acaba sendo causalmente congregado”, de modo que pressupõem “suposições causais” que, no entanto, “por definição escapam à percepção”. Sendo assim, essas suposições causais “sempre têm de ser conceitualmente adicionadas, presumidas como verdadeiras, acreditadas”, o que
responsabilidade civil ambientais. Ademais, apresenta algumas questões interessantes e atuais sobre se há de fato necessidade de um regime especial de responsabilidades por danos ambientais. Segundo o autor, não há uma característica exclusiva aos danos ambientais que os distinga de danos cotidianos. Muitas das características geralmente atribuídas aos danos ambientais são comuns a muitos outros tipos de danos. Parece-nos, de fato, ter razão o autor, contudo, é de se observar que justamente no resultado da soma das características apontadas surge a especificidade dos danos ambientais. Não há outras categorias de danos que reúnam tantas características complexas simultaneamente.
65 BAHIA, Carolina Medeiros. Nexo de causalidade em face do risco e do dano ao meio ambiente:
elementos para um novo tratamento da causalidade no sistema brasileiro de responsabilidade civil ambiental. Tese (Doutorado em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2012, p. 149.
66 LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao
coletivo extrapatrimonial. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 96-99.
67 A expressão que utiliza é “riscos da modernidade”, contudo, considerando os exemplos que
propõe (refere pesticidas, nitrato em rios, enxofre no ar e DDT), a ideia é aplicável aos riscos ambientais.
49 evidencia que estes riscos são invisíveis, na medida em que “a causalidade suposta segue sendo algo mais ou menos incerto e provisório”.68
A incerteza decorre ainda da crescente complexidade de muitas tecnologias cujo conhecimento resulta acessível somente a um reduzido número de especialistas, que, frequentemente, têm percepções diferentes dessa realidade tecnológica e dos riscos envolvidos. Em outros casos, os próprios especialistas desconhecem o alcance real e a natureza de muitos riscos derivados da técnica, além de que, por vezes, esse desconhecimento é ocultado por aqueles que promovem essas atividades e têm interesses materiais nelas.69
Outra peculiaridade dos danos ambientais decorre da invisibilidade, parcial ou total, de seus efeitos nocivos, por poderem ficar latentes durante longo período e se manifestarem muito tempo após a ocorrência de uma situação de poluição ou degradação (transtemporalidade). Para Beck, os riscos ambientais, enquanto exemplo dos novos riscos próprios da modernidade reflexiva,
[...] escapam inteiramente à capacidade perceptiva humana imediata. Cada vez mais estão no centro das atenções ameaças que com frequência não são nem visíveis nem perceptíveis para os afetados, ameaças que, possivelmente, sequer produzirão efeitos durante a vida dos afetados, e sim na vida de seus descendentes, em todo caso ameaças que exigem os “órgãos sensoriais” da ciência – teorias, experimentos, instrumentos de medição – para que possam chegar a ser “visíveis” e interceptáveis como ameaças.70
Admitir isso não significa negar que, muitas vezes, os danos ambientais se manifestem imediatamente e sejam facilmente perceptíveis. Assim, outra diferenciação importante sobre os riscos ambientais refere-se ao tempo de manifestação e de consumação. O tratamento e o gerenciamento do risco sofrerão variação conforme se trate de eventos que se protraiam no tempo (e.g. o silencioso e invisível vazamento de um tanque de combustíveis) ou que se consumem em um período mais ou menos curto (e.g. a explosão de um tanque de combustíveis). Além disso, é importante considerar que acidentes de consumação imediata podem desencadear efeitos latentes de longa duração. O tratamento do dano, no primeiro
68 BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução Sebastião
Nascimento. São Paulo: 34, 2011, p. 33.
69 PARDO, José Esteve. Técnica, riesgo y Derecho: Tratamiento del riesgo tecnológico en el
derecho ambiental. Barcelona: Ariel, 1999, p. 38-39.
70 BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução Sebastião
Nascimento. São Paulo: 34, 2011, p. 32. Como exemplos, cita: contaminações nucleares ou químicas, substâncias tóxicas nos alimentos, enfermidades civilizacionais.
50 momento, e do risco, na perspectiva de continuidade, devem ser tratados de formas distintas.
Uma característica dos riscos ambientais que faz com que sejam inalcançáveis pelo conhecimento médio é a acumulação e o efeito sinérgico de uma multiplicidade de riscos, conhecidos e valoráveis se isoladamente considerados, mas que, acumulados e combinados, geram uma complexidade cujo conhecimento preciso é geralmente impossível71 ou, no mínimo, muito difícil. Se a questão do estabelecimento de causalidade já é difícil em situações monocausais, ela ganha complexidade quando há mais de um agente.
Tratar de danos multicausais pressupõe admitir a possibilidade de concurso entre agentes responsáveis pela situação de dano. Nesse sentido, Cane indica que:
[...] mesmo que possa ser demonstrado que uma poluição causou um dano, se houver mais de um poluidor, provavelmente não será possível demostrar que a contribuição de qualquer um deles para a poluição que eles produziram aumentou o risco do dano, se considerados isoladamente.72
Os efeitos somativos são aqueles que “apontam para alterações ambientais decorrentes do somatório de muitas quotas individuais provenientes dos simultâneos ou sucessivos efeitos industriais de mesma espécie”, enquanto os efeitos aditivos, embora semelhantes aos primeiros, distingam-se: “são aqueles que não se resumem a um problema de quantidade nem dos efeitos resultantes das mesmas formas de comportamento, sendo, antes, resultado de complexas conexões de quotas individuais de ações diversificadas”. Já os efeitos sinérgicos têm a característica da exponencialidade e mutabilidade e “relacionam-se à combinação de elementos e de substâncias diferentes no ambiente de forma que, quando se encontram, geram um efeito (em regra, nocivo) maior do que o somatório das mesmas substâncias quando isoladas”.73
71 PARDO, José Esteve. Técnica, riesgo y Derecho: Tratamiento del riesgo tecnológico en el
derecho ambiental. Barcelona: Ariel, 1999, p. 39.
72 Tradução livre. Do original: “even if it can be shown that the pollution caused the harm in this
sense, if there was more than one polluter, it may not be possible to show that the contribution of any one of them to the pollution they produced increased the risk of the harm by the required amount”. CANE, Peter. Are environmental harms special? Journal of Environmental Law. Oxford University Press, 13:1, 2001, p. 15.
73 CAETANO, Matheus Almeida. Os delitos de acumulação no direito penal ambiental. São Paulo:
Pillares, 2016, p. 218-219. Para aprofundamento, vide KERNOHAN, Andrew. Accumulative harms and the interpretation of the harm principle. Social theory and practice. Florida: Florida State University, vol. 19, n. 1, 1993, p. 51-72 e KERNOHAN, Andrew. Individual acts and
51 Por fim, uma característica frequentemente apontada para descrever os danos ambientais é a irreversibilidade. A irreversibilidade significa que reparar os danos ambientais pode ser difícil, ou impossível, o que, junto ao elemento da incerteza, torna imprecisa e dificultosa a verificação de uma determinada atuação de restauração (se foi ou não eficiente, ou mesmo se foi capaz de atingir todas as dimensões e projeções de situações de dano juridicamente projetáveis). A irreversibilidade, no entanto, não se confunde com impossibilidade de restauração, seja in natura, seja por compensação ou mesmo por indenização. Segundo Bahia,
[...] embora um dano possa ser irreversível do ponto de vista ecológico ou ambiental, do ponto de vista jurídico, jamais serão irreparáveis, sendo sempre possível estabelecer de alguma forma uma compensação, natural ou pecuniária, que recomponha, na medida do possível, o ambiente degradado.74
Cabe sublinhar que, sob diferentes prismas, os danos ambientais podem ser considerados reversíveis ou não, parcial ou totalmente. Isso dependerá especialmente da dimensão de dano ambiental que se esteja tratando, bem como de sua extensão e magnitude. Argumenta Cane:
Um de nossos mais profundos medos modernos é que a poluição causada pela atividade humana possa degradar permanentemente o meio ambiente. É claro que nem todo dano causado pela poluição é irreversível. Pessoas cuja saúde é prejudicada pela poluição podem se recuperar se o meio ambiente for limpo; pode ser possível restaurar a terra contaminada à sua condição anterior.75
A irreversibilidade fica evidente se consideradas hipóteses de extinção de espécies ou de supressão de populações endêmicas. Pode ligar-se, ainda, à dificuldade de reverter a supressão ou a interrupção de acesso e usufruto dos serviços ecológicos – entre o momento da degradação e sua restauração, por exemplo. A questão da extinção de espécies é, de fato, das mais tortuosas – será abordada adiante, quando for discutida a reparação dos danos ecológicos puros. Já
accumulative consequences. Philosophical Studies. Netherlands: Kluwer Academic, v. 97, n. 3, 2000, p. 343-366.
74 BAHIA, Carolina Medeiros. Nexo de causalidade em face do risco e do dano ao meio ambiente:
elementos para um novo tratamento da causalidade no sistema brasileiro de responsabilidade civil ambiental. Tese (Doutorado em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2012, p. 160.
75 Tradução livre. Do original: “Is pollution special because the harm it causes may be
irreversible? One of our deepest modern fears is that pollution caused by human activity may permanently degrade the environment. Of course, not all harm caused by pollution is irreversible. People whose health is damaged by pollution may recover if the environment is cleaned up; it may be possible to restore contaminated land to its former condition”. CANE, Peter. Are environmental harms special? Journal of Environmental Law. Oxford University Press, 13:1, 2001, p. 7. Para o autor, considerando-se danos a indivíduos, ou em situações de contaminação dos recursos naturais em um nível menor, possível a reversibilidade.
52 a questão da privação do usufruto dos serviços ambientais será retomada a seguir, quando se abordar a reparação dos danos difusos.
Não obstante as relativizações acima suscitadas, o tema da irreversibilidade é de grande relevância ao tema, especialmente sob a ótica da proteção transgeracional do meio ambiente. Afinal, “os efeitos do dano ambiental irreversível são de muito maior significado a longo prazo para as gerações futuras [...]. É muito mais importante para o futuro da raça humana”.76 Neste sentido aponta, também, o comando contido no artigo 225 da CRFB.
1.2.2 Danos ambientais: distinções decorrentes da origem, tempo de