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1.2 INFORTUNÍSTICA AMBIENTAL: AS RELAÇÕES ENTRE RISCOS E DANOS AO MEIO AMBIENTE

1.2.3 Dimensões dos danos ambientais

1.2.3.2 Danos ambientais difusos

A noção de dano difuso ou coletivo é uma figura peculiar, desenvolvida por doutrina já com ampla aceitação na jurisprudência.105 Pela perspectiva

103 Isso não significa dizer que o ordenamento espanhol ou o português não ofereçam tutela aos

danos reflexos. Pelo contrário: fazem-no, contudo em legislação própria. Sobre o caso particular de Portugal, ver MATOS, Filipe Albuquerque. Danos ambientais / danos ecológicos: o fundo de intervenção ambiental. In: MONTEIRO, Jorge Sinde; BARBOSA, Mafalda Miranda (Coord.). Risco ambiental: atas do colóquio de homenagem ao Senhor Professor Doutor Adriano Vaz Serra. Coimbra: Instituto Jurídico/FDUC, 2015, p. 33-79.

104 AMEZ, Javier García. Responsabilidad por daños al medio ambiente. Cizur Menor (Navarra):

Aranzadi, 2015, p. 101-104.

105 O tema e a admissibilidade de tal modalidade de dano, no entanto, ainda não estão

consagrados. Sobre dissídio na jurisprudência, ver SCHREIBER, Anderson. Novos paradigmas

da responsabilidade civil: da erosão dos filtros da reparação à diluição dos danos. São Paulo:

62 ambiental, essa espécie de dano relaciona-se diretamente às perdas humanas, sociais e econômicas decorrentes dos danos ecológicos antes referidos e, como já antecipado, recebem proteção jurídica distinta. Deve-se ressalvar, outrossim, que, ao tratar de perdas humanas, sociais ou econômicas, não se está a falar de perdas individuais ou individualizáveis (as quais serão tratadas no item seguinte). O dano ambiental difuso, tido como extrapatrimonial, refere-se aos prejuízos sofridos pela coletividade, de forma difusa, em razão da indisponibilidade de acesso e fruição dos serviços ecológicos. Trata-se de uma “lesão a valor imaterial coletivo, pelo prejuízo proporcionado a patrimônio ideal da coletividade, relacionado à manutenção do equilíbrio ambiental e da qualidade de vida”.106

Se os danos ecológicos ou os danos individuais reflexos são de mais fácil compreensão, visualização e até mensuração, os danos ambientais em sentido amplo dependem de uma alta capacidade sensitiva. Para compreendê-los, há a necessidade de percepção do complexo contexto de inter-relações que os justificam, na medida em que o funcionamento e a estrutura dos ecossistemas sejam complexos e incertos e que o ser humano esteja distante de sua total compreensão.107 Quando se correlacionam à sociedade e aos ecossistemas, faz-se necessário outro enfoque conceitual para os danos ambientais. Está-se a tratar de sistemas socioecológicos, que envolvem, além dos aspectos naturais, dimensões econômicas, sociais e culturas dos grupos humanos. Assim,

Diante da complexidade decorrente da dinâmica destes sistemas, é necessário utilizar ferramentas que permitam exercícios integradores e prospectivos, que permitam às partes em conflito construir cenários futuros tendo em conta a informação e as percepções de todas elas, assim como o conhecimento técnico sobre um dado recurso natural ou mesmo de todo o ecossistema.108

LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 280 e seguintes.

106 LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao

coletivo extrapatrimonial. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012, p. 285.

107 CASTILLO, Daniel. El análisis sistémico de los conflictos ambientales: complejidad y consenso

para la administración de los recursos comunes. In: SALAMANCA RANGEL, Manuel Ernesto (Coord.). Las prácticas de la resolución de conflictos en América Latina. Bilbao: Universidad de Deusto, 2008, p. 154.

108 Tradução livre. Do original: “Dada la complejidad generada por la combinación dinámica de

estos dos sistemas se hace necesario utilizar herramientas que permitan hacer ejercicios integradores y prospectivos que permitan a las partes en conflicto construir escenarios futuros teniendo en cuenta la información y las percepciones de todas ellas, así como el conocimiento técnico acerca del recurso o el ecosistema”. CASTILLO, Daniel. El análisis sistémico de los conflictos ambientales: complejidad y consenso para la administración de los recursos comunes. In: SALAMANCA RANGEL, Manuel Ernesto (Coord.). Las prácticas de la resolución

63 É necessário levar em conta que essa complexidade decorre também das percepções e relações que se estabelecem entre indivíduos e grupos com determinados ecossistemas, as quais constituem visões, percepções e modelos mentais dos autores envolvidos em um dado conflito ambiental. Esse fator é central no uso dos recursos naturais e relaciona-se diretamente com as pré-compreensões que as pessoas têm acerca do funcionamento do mundo.109

A definição dos danos ambientais em sentido amplo, também denominados danos ambientais extrapatrimoniais difusos, representa um ponto de encontro entre meio ambiente e cultura, pois há uma forte imbricação desses elementos no modo como certos grupos de pessoas ou comunidades, segundo suas bases culturais, sentem, percebem e interagem com o meio ambiente. Assim é, pois, “o meio ambiente também porta referência a uma série de crenças, costumes, valores espirituais ou morais, representados por meio de tradições, estimações, conhecimentos, apreciações de caráter coletivo, cultural ou social”.110

A compreensão dos danos ambientais em sentido amplo depende, portanto, em larga medida da compreensão que uma comunidade de indivíduos tenha (ou tenha tido, previamente ao evento) sobre o ambiente que foi degradado, pois:

Cada um dos atores envolvidos em um conflito ambiental, de acordo com suas percepções, constrói uma representação dos recursos, dos ecossistemas e dos demais atores. Este ator atua individualmente, mas também ajuda a construir uma representação coletiva de seu entorno, a qual, por sua vez, é a responsável pelos padrões gerais de interação com os ecossistemas.111

Se está superada a posição antropocêntrica clássica, que separa o humano do natural, aparece aqui a noção do antropocentrismo alargado: do humano

109 CASTILLO, Daniel. El análisis sistémico de los conflictos ambientales: complejidad y consenso

para la administración de los recursos comunes. In: SALAMANCA RANGEL, Manuel Ernesto (Coord). Las prácticas de la resolución de conflictos en América Latina. Bilbao: Universidad de Deusto, 2008, p. 155.

110 BAHIA, Carolina Medeiros. Nexo de causalidade em face do risco e do dano ao meio ambiente:

elementos para um novo tratamento da causalidade no sistema brasileiro de responsabilidade civil ambiental. Tese. (Doutorado em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2012, p. 174.

111 Tradução libre. Do original: “Cada uno de los actores involucrados en un conflicto ambiental, de

acuerdo a sus percepciones, construye una representación de los recursos, los ecosistemas y de los otros actores (…). Este actor actúa individualmente pero también ayuda a construir una representación colectiva de su entorno la cual a su vez es la responsable de los patrones generales de interacción con los ecosistemas”. CASTILLO, Danile. El análisis sistémico de los conflictos ambientales: complejidad y consenso para la administración de los recursos comunes. In: SALAMANCA RANGEL, Manuel Ernesto (Coord). Las prácticas de la resolución

64 e da sociedade inseridos no meio ambiente, como parte. É a posição humana como parte inter-relacional com os bens naturais que dá sentido à noção de dano ambiental extrapatrimonial, pois o dano, aqui, representa o rompimento, parcial ou total, desses elos e dessa percepção de pertencimento. Significa um ponto de percepção das interdependências, mas acima de tudo, de quanto somos dependentes dos ecossistemas e, especialmente, dos serviços ecossistêmicos que nos são propiciados pela natureza,112 sejam eles vitais (ar puro, água limpa, regulação do clima) ou de desfrute (uma paisagem, uma praia limpa, as belezas culturais e históricas).

Ademais, a definição de dano ambiental difuso alcança “também os prejuízos ocasionados aos aspectos antrópicos do meio ambiente, compostos pelos valores sociais e culturais protegidos pelas normas ambientais (meio ambiente artificial, meio ambiente cultural e do trabalho)”.113 Consiste, portanto, “na ofensa ao meio ambiente, como bem de uso comum do povo, e na violação do direito de toda a coletividade ao meio ambiente ecologicamente equilibrado”, sendo diversos e mais abrangentes do que “uma simples soma dos danos individuais, configurando um dano concreto e atual à coletividade, que se vê obrigada a suportar a diminuição da qualidade de vida ocasionada pela perturbação ambiental”.114

Os danos ambientais em sentido amplo tem uma dimensão extrapatrimonial, que

[...] atinge vítimas plurais, deriva de um mesmo fato lesivo e apresenta uma feição social, na medida em que surge das relações que os membros da coletividade estabelecem com o meio ambiente ou de circunstâncias físico-temporais. Dessa forma, ele consiste numa lesão na esfera social de um grupo de sujeitos pela ofensa a interesses não patrimoniais coletivos, que apresentam uma base fática comum, ainda que não exista uma prévia relação jurídica entre os seus membros.115

112 Neste sentido, sobre tais questões em Espanha, vide AMEZ, Javier García. Responsabilidad

por daños al medio ambiente. Cizur Menor (Navarra): Aranzadi, 2015, p. 102.

113 BAHIA, Carolina Medeiros. Nexo de causalidade em face do risco e do dano ao meio ambiente:

elementos para um novo tratamento da causalidade no sistema brasileiro de responsabilidade civil ambiental. Tese. (Doutorado em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2012, p. 173.

114 BAHIA, Carolina Medeiros. Nexo de causalidade em face do risco e do dano ao meio ambiente:

elementos para um novo tratamento da causalidade no sistema brasileiro de responsabilidade civil ambiental. Tese. (Doutorado em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2012, p. 172.

115 BAHIA, Carolina Medeiros. Nexo de causalidade em face do risco e do dano ao meio ambiente:

elementos para um novo tratamento da causalidade no sistema brasileiro de responsabilidade civil ambiental. Tese. (Doutorado em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2012, p. 179.

65 Cumpre consignar, em conclusão a essa abordagem sobre o dano ambiental difuso, que há expressiva imprecisão sobre o conceito e conteúdo do instituto, a ponto de gerar uma forte aproximação entre os danos extrapatrimoniais difusos ou coletivos e os danos morais individuais. Como já referido, os danos difusos ou coletivos não são a soma dos danos morais individuais, ainda que tidos como individuais homogêneos. Uma argumentação sobre danos difusos não pode se circunscrever à descrição sobre uma coletividade vitimada por um mesmo evento e homogeneamente afetada. O ônus argumentativo, probatório e persuasivo deve-se desenvolver com o restrito enfoque em quais sejam as implicações e perdas difusas, na medida em que o dano moral coletivo só tenha razão de ser e de evoluir em nosso sistema se tido como categoria própria, apta a tutelar interesses transindividuais.