4 MÍDIA INDEPENDENTE: FINANCIAMENTO E PROCESSOS
4.4 DISTINGUINDO CONCEITOS MÚLTIPLOS
4.4.2 Ativista
De modo semelhante à perspectiva de Peruzzo (1998, 2009, 2009b), a comunicação ativista segundo conceituação de Kelly Prudêncio acontece quando os atores coletivos se juntam para atuar em prol de uma mudança social. A partir da ideia de frame, tais atores se mobilizam em prol de determinados recortes para gerar conscientização e conteúdo previamente estabelecidos. A ação coletiva se fundamenta entre os atores sociais na internet pela sua capacidade de mobilizar a rede e causar impacto em termos de opinião pública nos meios de comunicação convencionais.
De acordo com essa autora, a partir da internet, é possível estabelecer outra forma de comunicação, especialmente por conta das possibilidades que os atores coletivos têm de dar um novo enquadramento aos acontecimentos a partir da perspectiva dos mesmos. Tais atores utilizam os diversos canais na internet e atuam de modo independente com contra-informações, sem o crivo do gatekeeping, tornando-se, inclusive, fonte de informação para a grande mídia. Ao encontro de Downing, a autora discute a possibilidade de se ter uma competição de frames ou versões como algo democrático, em que se admite a possibilidade de um outro enquadramento como horizonte discursivo, sendo possível a convivência dos diferentes frames.
A partir de uma abordagem goffminiana, em que há um processo de encenação social, onde os atores sociais atuam a partir de dramatizações cotidianas, existe a experiência do re-frame, ou seja, de um novo enquadramento, a partir do qual se estabelecem rotinas produtivas semelhantes às da mídia para ressignificar o sentido das mesmas. “Quando a mídia ativista lança mão das rotinas produtivas e das convenções de um jornalismo padrão não significa que os seus produtores tenham 'cedido' a um mal necessário, mas que o trabalho de re-frame pressupõe um ajuste sobre um frame primário” (PRUDÊNCIO, 2009, p. 12).
Prudêncio (2009) também deixa claro que os ativistas informam, dão seu ponto de vista e, ao mesmo tempo, se reconhecem como tal, nesse sentido, o reconhecimento serve para conduzi-lo em suas ações. “A mídia ativista, enfim, abrange, portanto, a dimensão informativa da linguagem – como oferta de informações negligenciadas pela grande mídia – e também a sua intenção formativa – como mobilização e construção de uma unidade de luta política” (PRUDÊNCIO, 2009, p. 12).
A partir dessa perspectiva, a autora diz que, quando se escolhe o frame, também se escolhe o público. Após escolha do público, a mídia com foco no ativismo atua em prol da mobilização da opinião. Consegue-se, então, melhores resultados em termos de difusão de informação e engajamento quando se aproximam do frame jornalístico. “Em outros termos, quanto mais 'profissional' a sua produção de informação, maior a penetrabilidade das suas questões na esfera pública. Por isso que a denominação mídia ativista é mais adequada para a comunicação dos movimentos sociais do que mídia alternativa” (PRUDÊNCIO, 2009, p. 13).
Prudêncio também acredita que os atores coletivos podem abrir espaço para que usuários, livremente, possam produzir conteúdo de forma que respeite o frame. A concepção de quadros no jornalismo mostra que a notícia trabalhada enquanto narrativa age para contribuir com a construção social da realidade e, assim como os grandes meios de comunicação agem para enquadrar a realidade com aspectos que consideram pertinentes para a definição de situação, os meios de comunicação ativista atuam de forma a gerar um contra-poder, com o intuito de construir sentidos distintos daqueles formulados pelo jornalismo convencional. Os grupos da comunicação independente demonstram estar alinhados aos temas oriundos das demandas sociais, geralmente, atuando para apresentar as temáticas ausentes dos grandes meios de comunicação. Esses veículos independentes, conforme cita Kelly Prudêncio, constrói seus próprios critérios de noticiabilidade, seus próprios quadros que, muitas vezes, partem de um reenquadramento dos acontecimentos já propagados pela grande mídia.
A partir de critérios intencionalmente criados como estratégias de contra- poder, o jornalismo ativista utiliza vários aspectos já consagrados pela grande mídia para legitimar seu conteúdo. Cada veículo independente possui o seu foco, conforme veremos na análise, mas predomina, geralmente, a apuração, a militância e a análise interpretativa.
Portanto, a mídia ativista tem uma preocupação em produzir conteúdos opinativos e engajados que expressam sua tendência temática. “Produzem 'quase- notícias', ou seja, mostram uma preocupação um pouco maior com informações referenciais do acontecimento narrado, em razão até das eventuais parcerias com a mídia 'crítica'” (PRUDÊNCIO, 2009, p. 14).
A autora também afirma que há um movimento da mídia ativista de distanciamento e aproximação em relação à mídia convencional. Ela se aproxima em determinados momentos, a exemplo dos formatos textuais, e se distancia em relação à objetividade. Prudêncio também denuncia que tais mídias ativistas não exploram as potencialidades da internet como deveriam, embora saibam e valorizem os recursos relacionados à participação e democracia no ambiente online. De acordo com a autora, há também um outro tipo de ativismo que associa a postura política aos padrões jornalísticos para difundir suas mensagens com um padrão de qualidade. “Defendem genericamente o pluralismo de vozes, especialmente
facilitado pela internet, mas delimitam mais claramente as fronteiras entre os objetivos políticos e os projetos de contra-informação” (PRUDÊNCIO, 2009, p. 15).
Outros grupos, conforme aponta Prudêncio, buscam apenas a propagação de notícias relacionadas ao movimento, não necessariamente colocando o enfoque na parte pedagógica da formação ou produção de conhecimento. Geralmente, defendem que “qualquer pessoa” possa produzir informações para seus sites, as quais serão submetidas ao crivo dos editores do veículo. Para a autora, “os websites acabam funcionando como agência ativista de notícias, a qual padroniza e orienta sua produção em todos os coletivos espalhados pelo mundo” (PRUDÊNCIO, 2009, p. 15). Assim, Kelly Prudêncio conclui que a mídia alternativa é importante para a mobilização da opinião pública, a partir do momento em que inclui temas que considera relevante para serem debatidos com a sociedade.
Os meios de comunicação da denominada grande mídia possuem uma importância peculiar para os movimentos sociais, segundo Prudêncio. Especialmente, por aqueles serem canais de difusão dos frames da mídia ativista quando esta consegue agendar suas pautas. Desse modo, a mídia ativista desenvolve um papel de agência de comunicação alternativa. “Praticamente todos os movimentos sociais contemporâneos utilizam a mídia estrategicamente como um espaço para obter visibilidade e debater suas demandas. É nesse espaço que os atores coletivos buscam inscrever no espaço público sua direção interpretativa” (PRUDÊNCIO, 2012, p. 7).