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PARTE III: APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.4 PRINCÍPIOS DE GOVERNANÇA DE OSTROM NO CONTEXTO

4.4.9 Autogestão e o turismo em Pipa

Ostrom (1999) faz alerta sobre as consequências da utilização desenfreada dos recursos, tendo na governança eficiente o caminho mais propício para diminuir os impactos. É preciso alertar que falhas na gestão dos sistemas de recursos culminarão na escassez das unidades. Os exemplos empíricos de Ostrom acentuam as possibilidades reais de autogestão de complexos CPR, desde que haja organizações instituídas e compromissadas para tal fim.

Na realidade investigada, percebe-se que ainda não estão devidamente estruturados, mas os indícios de ação coletiva mostram perspectivas positivas, sendo um processo viável de ser ordenado. Apesar das limitações existentes, há pressupostos que demonstram a viabilidade da autogestão como mecanismo de preservação e mediação para os conflitos existentes.

Não trata-se de uma proposta de fácil execução, tendo em vista o histórico de desbravamento e exploração desordenada. Obstante, a comunidade apresenta ferramentas concretas de reverter o cenário, desde que, continuem se integrando e ultrapassem a vertente do individualismo, passando a focar verdadeiramente no bem coletivo.

Em consonância com Sjah e Baldwin (2014), os indivíduos tem o poder de articulação para gestão dos recursos de uso comum, mas não esquecendo que os governos também possuem função nesse processo. Então, mesmo com o melhor ordenamento para autogestão, o poder público permanece tendo responsabilidades reais. Assim, o modelo sugere que a comunidade passe a ter maior participação sobre o gerenciamento dos recursos de uso comum, tendo em vista que além de utilizadores e maiores impactados, chega o momento de superar a ineficiência pública e deixar de ser expectador diante todos os descasos constatados. Há duas possibilidades concretas de cenário. Uma que denota decadência, caso não sejam tomadas medidas cabíveis. E outra, sugere a possibilidade real de autoorganização no sentido de retomar o controle da situação e agir de maneira mais prudente.

Os dados mostram que a sustentabilidade do local está condicionada a mudanças radicais na forma de condução e gestão da destinação turística. Em conformidade com os resultados, a comunidade está receptiva. Dotada de lideranças que podem agir para articulações mais concretas e efetivação de normas que possam retomar o controle socioambiental. Esse mesmo grupo pode se mostrar eficar no monitoramento e fiscalização sobre o controle dos recursos de uso comum.

Também é válido reforçar, em conformidade com Vollan e Ostrom (2010), os resultados dependem do grau de envolvimento da comunidade. Se um número significativo de moradores se envolverem, sejam por representação de ONG‟s, associações e conselhos, as expectativas de benefícios coletivos são evidentemente maiores.

Ultrapassar o comodismo de continuar esperando atuação eficiente dos órgãos públicos e agir de maneira mais emponderada, já que o controle e sustentabilidade dos recursos estão sendo feitos de maneira defasada e descompromissada. Dietz et al. (2003) corroboram com o fato das redes sociais servirem como embasamento para comunicação, permitindo maior interação e participação das pessoas. Quando há transparência e ampla divulgação de resultados, maior o nível de confiança adquirido.

Como direcionamentos significantes para ações coletivas eficientes, Schmidt et al. (2016, p.251) determina em suas pesquisas três elementos para análise:

(I) racionalidade individual versus coletiva; (II) o tamanho dos grupos; e

(III) heterogeneidade dos grupos.

No caso de Pipa, a heterogeneidade do grupo estudado pode ser investigada pelos pontos frágeis e fortes. Sobre debilidades, pode-se afirmar que a diversidade do grupo provoca conflitos sociais, incidindo sobre desconfiança e falta de união, tanto dos nativos em relação aos de fora, como dos forasteiros que em alguns momentos querem mostrar superioridade em relação à comunidade mais simples. No entanto, vendo os aspectos favoráveis, essa heterogeneidade permite uma troca mais intensa de ensinamentos e valores, considerando que os forasteiros, em sua maioria, são pessoas dotadas de vivência de mundo e experiências valorosas, podendo ser segmentada com os nativos que, por sua vez, compartilham os fundamentos primordiais relacionados ao pertencimento do lugar, as raízes e identidade cultural. Essa miscigenação pode incidir em desfechos arrojados, com oportunidade de criar produtos inovadores, mas mantendo sempre os aportes primordiais relacionados à origem e peculiaridades do lugar, lembrando que foi o encanto de praia paradisíaca que levou Pipa a ser internacionalmente reconhecida.

É válido ressaltar que não necessariamente irão encontrar a presença dos oito princípios nos casos de gestão pautada nos recursos comuns. Porém, o esforço para seguir o maior número de diretrizes dará maior perspectiva de obter êxito na autoorganização.

A autora não simplesmente supõe que determinada situação ou princípio pode ser importante, mas se propõe a comprovar a influência de cada um através de estudos, não somente seus, mas, também do seu grupo e de outros grupos de pesquisa. Desta forma, assevera sobre como cada princípio de desenho proposto influi na situação das comunidades, de seus recursos e de sua gestão intracomunidade via uma instituição central.” (SOARES e SAHR, 2016, p.114).

Com o referencial de Gari et al. (2017), foram elencados escala quantitativa e qualitativa correspondente a cada princípio de governança do contexto analisado (quadro 14).

Quadro 14- Avaliação quantitativa e qualitativa dos princípios de Ostrom para o SSE estudado

CASO DE ESTUDO- PIPA FREQUÊNCIA (0-1) CONCLUSÃO

Princípio 1 Às vezes presente (0,5) Fraco

Princípio 2 Às vezes presente (0,5) Fraco

Princípio 3 Raramente presente (0,25) Frágil

Princípio 4 Raramente presente (0,25) Frágil

Princípio 5 Às vezes presente (0,5) Fraco

Princípio 6 Às vezes presente (0,5) Fraco

Princípio 7 Às vezes presente (0,5) Fraco

Princípio 8 Às vezes presente (0,5) Fraco

Fonte: Elaboração própria, pautado em Gari et al. (2017).

Baseado nas análises de Gari et al. (2017), consubstanciado pela vasta investigação de pesquisas ao redor do mundo, há diversos elementos que podem envolver o manejo da CPR, constatando que mesmo CPRs frágeis possuem indícios para progredir e se transformar em instituições robustas, se adaptando a contextos específicos. Assim, será detalhada uma síntese que apresenta as dimensões do caso em estudo e principais diretrizes que podem ser adotados para realidade investigada (quadro 15).

Quadro 15- Síntese dos Princípios de Ostrom na praia da Pipa

PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS

DIMENSÕES PARA O CASO EM ESTUDO

DIRETRIZES

1. Limites

claramente definidos

- Definição da utilização dos recursos naturais, relacionados diretamente ao uso e ocupação pelo turismo, com limites mais rigorosos.

- Regulamentação quanto à apropriação desenfreada dos elementos da natureza para atender necessidades da atividade. - Estabelecer parâmetros de controle da capacidade de carga.

- Criação de conselho deliberativos; - Delimitar grupos apropriadores; - Incluir a comunidade nas instâncias de gestão;

- Controlar a ocupação do espaço para práticas turísticas 2. Regras claras sobre apropriação e provisão de recursos comuns, adaptadas às condições locais

- As leis ambientais serem atribuídas, com maior rigor quanto ao uso dos recursos de uso comum.

- Regular as unidades que estão sendo exploradas, tendo maior controle sobre a ocupação do solo.

- Adotar os direcionamentos das legislações urbanísticas, ambientais, código de obra e plano diretor.

- Exigir que as normas ambientais federais sejam sobrepostas sobre os encaminhamentos municipais;

- Buscar auxílio do Ministério Público para combater artifícios ligados a interesses pessoais;

- Estabelecer códigos de conduta, normas e regras condizentes com a realidade da destinação turística;

- Combater as diretrizes vinculadas às relações de poder. 3. Arranjos de escolha onde os acordos coletivos permitem que a maioria participe do processo de tomada de decisão

- Proporcionar participação efetiva dos membros nas instâncias de governança, por meio dos conselhos deliberativos dos Pólos Turísticos de desenvolvimento e planejamento da atividade.

- Possibilidade da população decidir sobre as estratégias de desenvolvimento sustentável do turismo.

- As associações, agrupamentos e ONG‟s se tornar um amplo espaço de debate, sendo representados por lideranças para divulgar o posicionamento do grupo.

- Reativação do Conselho comunitário da Pipa;

- Institucionalização do Conselho municipal de turismo;

- Agrupamento das diferentes representações;

- Conselhos com poder deliberativos, não sendo apenas consultivos;

- Ampliação das audiências públicas, com veiculação para comunidade em geral;

- Fortalecer os acordos coletivos.

4. Monitoramento do comportamento dos participantes

- Fiscalização para aplicação das leis ambientais e direcionamentos do plano diretor municipal.

- Promoção de programas de educação

ambiental, palestras de

conscientização, conservação dos recursos naturais.

- IDEMA e IBAMA apresentar sistema de fiscalização mais eficazes;

- Recursos que propiciem diálogo entre os órgãos competentes;

- Criação de uma área específica de monitoramento, vinculado aos conselhos e associações;

- Controle interno dos próprios moradores.

5. Escala de sanções graduais para quem viole as regras comunitárias

- Punição e multa por uso indevido dos recursos naturais.

- Cobrança de taxas de compensação para os responsáveis pela exploração irregular dos recursos de uso comum.

- Contar com fiscalização e atuação permanente dos órgãos responsáveis; - Apoio do ministério público que tem um papel importante de cobrança; - Controle das regras por parte dos utilizadores;

- Punição estabelecida pelos apropriadores para os transgressores. - O poder público tem uma influência

grande no contexto investigado, então a

- Definir práticas de gestão coletivas; - Ampliar o debate entre os agentes do

6. Mecanismos de resolução de conflitos de fácil acesso

forma como se governa reflete historicamente no surgimento ou apaziguamento de conflitos, sejam eles de cunho ambiental ou social.

- Empenho das autoridades locais, empresariado e população no controle das irregularidades.

- Dirimir impasses que surgem em virtude do predomínio de relações de interesses/amizade/apadrinhamento. - Direcionar para acordos institucionais legais e representativos

trade turístico;

- Maior transparência, diálogo e decisões conjuntas;

- Promover ações educativas de sensibilização e mobilização;

- Sobrepor ações coletivas sobre interesses pessoais;

- Intermédio de lideranças com voz ativa; - Instâncias de governança atuantes; - Nomear representantes éticos e comprometidos;

- Fortalecer alianças entre a comunidade local, diminuindo a segmentação entre nativos e forasteiros.

7. Reconhecimento mínimo dos direitos de organização

- A população e o mercado ter autonomia para estabelecer mecanismos de gestão e fiscalização em defesa da manutenção dos recursos escassos, tendo controle e acesso sobre os sistemas de uso comum.

- Tem havido uma mudança de pensamento e as pessoas começam a ter mais liberdade para reivindicar e denunciar.

- Percebe-se o empenho da comunidade em se organizar em grupos para fazer ações sociais ou mutirões em torno de causas ambientais.

- Construção de confiança entre os envolvidos e atuação educativa nutrindo as representações de conhecimento para atuar;

- Dotar as representações/lideranças de instrumentos deliberativos;

- Utilizar as redes sociais como uma ferramenta instantânea de diálogo; - Fornecer ferramentas para a comunidade visualizar e denunciar os problemas.

- Reconhecer que a comunidade pode e deve ser aliada no planejamento turístico.

8. Iniciativa aninhada

- Redes de gerenciamento em diferentes níveis para maior domínio sobre o cumprimento das normas ambientais e decisões sobre a gestão voltada para sustentabilidade.

- Grupos de gestores vinculados as instâncias de governança de turismo e da comunidade;

- Maior articulação dos níveis de governança;

- Autogestão de sistemas de recursos e unidades de recursos;

- Autonomia para os gestores locais intervir na gestão turística.

Fonte: Elaboração própria.

Em consonância com Ostrom (1990), remete-se a importância de alguns direcionamentos para avançar sobre os resultados, tais como: o total de envolvidos nas decisões, desde que estejam centrados em obter benefícios coletivos, com interesses semelhantes e contando com lideranças engajadas.

Apesar dos princípios não serem visualizados em sua integridade no caso analisado, visualiza-se os pontos elencados como positivos para caminhar no sentido da auto- organização.

4.5 DIRECIONAMENTOS DE AÇÃO COLETIVA NO PROCESSO DE