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SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS

2. Teoria da cognição de Santiago.

2.2. Autopoiese e objetividade científica: os limites da verdade.

Nos estudos clássicos sobre o assunto, representação consiste na atividade neural correspondente à dação de significado, através da linguagem, a um objeto sensível. Pela objetividade científica, os objetos existem, porque os seres humanos são capazes de projetar em seus sistemas nervosos imagens referenciais de tais objetos, tendo como ponto de partida o uso corriqueiro da linguagem.

A objetividade científica, como já discorrido, é estruturada no paradigma da

causalidade. Esta pressupõe a existência de um elo de ligação do conhecimento,

objeto. Sua pujança é tão notória que comunidade científica só aceita uma explicação acerca de um dado fenômeno observado – independentemente de ser este social ou natural – caso o cientista objetive o resultado científico pela apresentação da causa geradora do aludido fenômeno. Para Maturana (1999, 55), a causa, essência da explicação científica, consiste na descrição de um mecanismo gerador de um fenômeno131.

Além da causa como fundamento de todo e qualquer conhecimento, como já dissertado, a objetividade científica tem como paradigma a verdade132. Para os defensores dessa vertente de investigação, existe uma hipótese científica que sempre corresponderá ao real de um universo transcendente ao próprio cientista, à sua própria subjetividade. Assim foi semeada a cientificidade moderna: no ideal da absoluta necessidade de preservação de um isolamento axiológico das conclusões científicas, já que a neutralidade, mais que um mito, foi tracejada como essência da atividade do sujeito cognoscitivo.

Contrariamente à objetividade científica, a teoria da cognição de Santiago reserva um papel fundamental à subjetividade do pesquisador para o alcance do resultado científico. Para Maturana, os pontos de partida da investigação merecem uma atenção especial, porque são tidos como capazes de influenciar no resultado da própria investigação133. Por isso inexistem verdades ou inverdades teóricas para Maturana, visto que não há como buscar uma realidade que reflita uma ou outra tese. É possível, no entanto,

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“O aspecto central de uma explicação científica é a proposição de um mecanismo. Suponhamos que você tenha uma pergunta: “Como um cavalo se movimenta?” (...) A explicação científica seria a descrição que envolveria muitas coisas, mas teria que conter uma descrição do mecanismo que gera o movimento do cavalo. Se você quer explicar o relâmpago, você tem que apresentar um mecanismo que gere o relâmpago. (...) Primeiro você observa o fenômeno que você quer explicar, que constitui a pergunta; segundo, você tem que fornecer um mecanismo – não existe explicação científica se você não propuser rum mecanismo”.

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Sobre a busca pela verdade científica e sobre os cientistas, diz Maturana (1999, 55): “Eles afirmam que suas proposições têm uma relação particular com os mecanismos que geram os fenômenos porque existe algum isomorfismo, alguma correspondência em estrutura entre os mecanismos propostos e os mecanismos no mundo no qual são gerados os fenômenos que eles querem explicar”.

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Esta visão já é quase consensual entre os cientistas sociais, que entendem a ideologia como um fator indissociável do resultado obtido na investigação, mesmo que esta seja consubstanciada sob os postulados de uma metodologia pré-estabelecida. Na maioria das vezes as pesquisas no campo social servirão apenas para a coleta de dados e a produção de argumentos capazes de provar o que o cientista previamente estabeleceu como o resultado da sua investigação.

reconhecer que se tratam de domínios especulativos distintos (MATURANA, 1999, p. 22-23)134:

Para o biólogo chileno, a questão ontológica fundamental não advém do questionamento “o que é?”, na formulação clássica de Heidegger. A questão ontológica da teoria da cognição de Santiago é: “o que eu faço quando digo que algo é?”. Procura, com isso, esclarecer que o sujeito cognoscitivo está interdependentemente ligado, em sua existência, ao ato de conhecer algo e que este algo não é cognoscível a priori, mas apenas sob a perspectiva de validação do conhecimento traçada previamente pelo cientista ou por uma comunidade científica.

Com isso Maturana não quer provar a inexistência do real. Apenas aduz, através de sua teoria, que o real é inatingível se levados em conta tão-somente argumentos provenientes de uma lógica racionalista de enxergar o mundo135. Para o pesquisador chileno, uma vez aceita a condição biológica do observador, o mesmo não é capaz de fazer inferências acerca do que venha ser o real externo a si mesmo sem levar em consideração o que gerou a sua própria condição de observador, de ser vivo.

2.3. O real.

Enganam-se aqueles que crêem na teoria da cognição de Santiago como uma tese inconsistente, pela qual seria viável a criação de qualquer mundo possível, desde que imaginado pelo observador. Um mundo, por exemplo, no qual os homens pudessem voar naturalmente, independentemente de recursos tecnológicos, já que o real seria endogenamente ligado à condição neurobiológica do observador. Para desmistificar este crítica, Maturana impõe à sua teoria as noções de percepção, ilusão e coerências das

experiências.

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“(...) quando duas ou mais pessoas se encontram com duas teorias diferentes e mutuamente excludentes, não há como buscar na realidade o critério de reconhecimento de qual delas é verdadeira, mas que se reconhecer que se tratam de domínios explicativos, e que os argumentos que aí parecem equivocados e ilusórios não são senão proposições escutadas a partir de domínios de existência diferente do que daquele em que elas foram propostas”.

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Cria, através de sua teoria, um fundamento científico para a concessão de suporte ao filme “Matrix”, que alcançou sucesso mundial notadamente por refletir uma tese semelhante à desenvolvida por Maturana acerca da separação entre a mente e o real. Sobre o assunto, Carolyn Korsmeyer (2002, p. 84) tece um comentário que muito se aproxima das considerações soerguidas na teoria da cognição de Maturana: “Quando Neo sai de um confronto, ele sente o gosto de sangue que escorre de sua boca e fica surpreso que uma experiência virtual pudesse causar ferimento físico. “Se você é morto na Matriz, morre aqui?”, ele pergunta. Morpheus responde, sóbrio: “O corpo não pode viver sem a mente”, reforçando seu comentário sobre a experiência virtual: “ a mente torna tudo real””.

O que diferenciaria a percepção da mera ilusão seria a consensualidade acerca dos resultados científicos provenientes das experiências anteriormente produzidas. A distinção entre percepção e ilusão é feita sempre a posteriori, tomando-se como referência uma experiência anterior e bem sucedida e não o real pura e simplesmente. Na teoria da cognição de Santiago, o real não pode ser o limite entre a percepção e a ilusão.

Outrossim, o real não pode ser demonstrado nem tomado como referência objetivamente, porque o observador sempre se utiliza recursões de recursões a consensualidades anteriormente solidificadas pelos homens através da linguagem, denominadas de coerências das experiências aferidas numa comunidade científica (os chamados preconceitos da teoria de Gadamer).

Essas recursões levam o observador, que hoje está assentado nos paradigmas da objetividade científica, a crer que estaria diante de uma realidade extrínseca a si mesmo, quando, na verdade, a sua própria experiência de vida sempre está ligada ao parâmetro de consensualidade escolhido para a aferição do seu “real”, legitimado pela identificação deste numa comunidade de pesquisadores (MATURANA, 1999, p. 20)136:

É inegável que o real existe. O problema é que o real não pode ser comprovado pelo observador, porque este não é capaz de distinguir o extrínseco de si mesmo. Esta distinção somente é possível através da linguagem, ou seja, a partir de uma construção cognitiva do próprio observador. Quando o ser vivo, o eu, procura se distinguir do seu ambiente, este último só existe na linguagem utilizada pelo sujeito cognoscitivo, haja vista ser impossível distinguir o ser vivo no vácuo da linguagem.

O observador ou cientista só é capaz de identificar o mundo extrínseco a si mesmo, o real, na linguagem. Não pode tratá-lo objetivamente, senão como produto de recursões de recursões consensuais provenientes da sua experiência de vida, no esteio do

determinismo estrutural137. O real, quando colocado como premissa da construção

científica, não existe independentemente do sujeito cognoscitivo. Ao revés, a sua

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As explicações científicas são validadas no domínio de experiências de uma comunidade de observadores, e se relacionam com as coordenações operacionais dos membros dessa comunidade, em circunstâncias nas quais são membros dessa comunidade as pessoas que aceitam e usam esse critério para validar seu explicar.

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própria característica de mundo externo é precedida por uma configuração que lhe dota tal peculiaridade; uma configuração que consiste no próprio linguajar do ser vivo.

Estas conclusões fundamentam fenômenos do próprio sistema jurídico. Comumente os ministros do Supremo Tribunal Federal avocam ao órgão, do qual fazem parte, a função de guarnecer os desígnios constitucionais emanados pela carta de 1988. Sob a égide deste discurso, defendem a tese de que existe uma realidade constitucional que, extrínseca à avocação de competência feita por eles, outorga ao Supremo Tribunal Federal poderes organização e reorganização do sistema jurídico brasileiro na elucidação de questões insurgentes do controle de constitucionalidade.

Dentre estas atribuições, há uma defesa explícita da competência constitucional do Supremo Tribunal Federal de produzir sentenças interpretativas em nível de controle abstrato de constitucionalidade. Obviamente, como bem aduz Maturana, esta realidade é uma construção dos sujeitos cognoscitivos em questão (ministros do Supremo Tribunal Federal). O que os Ministros do STF aduzem como o real na Constituição de 1988 só existe enquanto uma construção lingüística que pode ou não encontrar baliza na comunidade à qual ela é dirigida: a comunidade científica do direito e a sociedade como um todo.

Ocorre que tal assertiva, como será defendido neste trabalho, não significa que inexistam limites à construção desse real. Na biologia tais limites138 são identificados quando são associados a eventos ameaçadores da vida dos seres humanos, da sua congruência com o seu sistema neural. Num Estado Democrático de Direito, como será explicitado na conclusão deste trabalho, os aludidos limites (condições de possibilidade) podem ser encontrados no padrão de organização139 do sistema jurídico, que coincide com os consensos lingüísticos gerados em torno do processo de construção da normatividade do direito contemporâneo, seja ele moderno ou pós-moderno140.

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