RACIONALIDADE POLÍTICO-JURÍDICA DA MODERNIDADE
4. Mecanismo cognitivo da modernidade.
4.3. Valores da dimensão do mercado em John Locke.
John Locke nasceu na Inglaterra e viveu de 1632 a 1704. Teve sua iniciação acadêmica aos vinte anos em Oxford, até ser expulso, 32 anos depois, de forma ilegal e contra a sua vontade. Sua obra mais importante foi titulada de Dois tratados sobre o governo, cuja autoria nunca chegou a assumir em vida, tendo em vista a grande consternação que suas idéias causavam ao regime estabelecido. A única prova de que estes escritos pertencem a Locke foi produzida por uma cláusula em seu testamento, pela qual deixava à biblioteca de Oxford o texto original.
Pode-se afirmar que sua contribuição à primeira formação do Estado liberal se deu através do seu “Segundo tratado sobre o governo” (1998, p. 65-96). Inicia seu pensamento descrevendo o estado de natureza, o qual consistiria na plena realização da liberdade e da igualdade pelos homens, dentro dos limites traçados pela própria lei que o regia (lei da natureza). Tal estado permitiria que os homens se relacionassem com plena liberdade no tocante à possibilidade de disposição dos seus bens, ressalvada a vedação de prejudicar outrem em sua vida, saúde, liberdade ou posses, excetuadas as sanções imputadas aos infratores da lei da natureza. Neste caso, estes deveriam ser castigados na proporção da lesão causada à paz social, inclusive visando que outros não cometessem o mesmo delito.
De fato, Locke (1998, p. 472/473) acreditava piamente na existência de um estado de natureza que antecedera a sociedade civil. Identificava que os príncipes e chefes de governo do seu tempo permaneciam nesse estado de natureza, no que esboçava o início da diferenciação entre o Estado e a comunidade. Para o autor, somente existiria
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Essa linha de raciocínio rompe, definitivamente, com o elemento puramente metafísico na configuração do conceito de soberania.
sociedade política caso houvesse um acordo entre os homens que viabilizasse um gerenciamento da lei da natureza, sendo que a diferença entre os conceitos de Estado e comunidade não nasce da desconexão entre os significados de estado de natureza e
sociedade política ou civil 39. Para Locke, esta distinção exsurge da disparidade entre os homens comuns que não se governam diretamente e aqueles que detém a autoridade concedida pela comunidade40.
A principal contribuição de Locke à teoria do contrato social e à ascensão da classe burguesa foi fornecida pelo seu estatuto da propriedade privada na modernidade. Para ele, a idéia de apropriação dos bens e recursos naturais pelos indivíduos deveria ser entendida como uma extensão do próprio ser humano, visto que a sua preservação se constituiria no fim maior da sociedade política41. Conferiu um status à propriedade privada nunca antes defendido com tanta veemência no curso do sistema absolutista de gerência do poder42.
Mesmo ampliando o conceito de propriedade para além das fronteiras dos bens materiais, Locke foi fundamental para que a sociedade européia assimilasse, no amadurecimento do projeto da modernidade, que os objetos de acúmulo de riquezas do ser humano são extensões da sua própria existência enquanto ser social. Seu
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“E assim, tendo sido excluído o juízo particular de cada membro individual, a comunidade passa a ser o arbítrio mediante regras fixas estabelecidas, imparciais e idênticas para todas as partes, e, por meio dos homens que derivam sua autoridade da comunidade para a execução dessas regras, decide todas as diferenças que porventura ocorram entre quaisquer membros dessa sociedade acerca de qualquer questão de direito; e pune com penalidades impostas em lei os delitos que qualquer membro tenha cometido contra a sociedade” (1998, p. 458).
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No direito moderno essa disparidade se perpetua como verdade atemporal pelo preceito da indisponibilidade do interesse público pela administração (MELLO, 2000, p. 34). Esta assertiva fica patente pela similaridade mentida entre os conceitos de Estado e Administração, dissociados da idéia de sociedade civil ou comunidade. Isso evidencia que nem sempre há uma necessária cumplicidade entre o que a sociedade pensa e o que o Estado faz em seu prol.
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Ao dissertar sobre a escravidão, Locke tocou no assunto escrevendo que: “Tendo esses homens, tal como digo, perdido o direito à vida e com ela as liberdades, bem como suas propriedades, e estando não estado de escravidão, não sendo capazes de posse nenhuma, não podem, pois ser considerados parte da
sociedade civil, uma vez que o principal fim desta é a preservação da propriedade (1998, p. 456). 42
“Tendo o homem nascido, tal como se provou, com título à liberdade perfeita e a um gozo irrestrito de todos os direitos e privilégios da lei da natureza, da mesma forma que qualquer outro homem ou grupo de homens no mundo, tem ele por natureza o poder não apenas de preservar sua propriedade, isto é sua vida,
liberdade e bens contra as injúrias e intentos de outros homens, como também de julgar e punir as
violações dessas leis por outros, conforme se convença merecer o delito, até mesmo com a morte, nos casos em que o caráter hediondo do fato, em sua opinião, assim o exija” (1998, 458).
pensamento também foi imprescindível para justificar a propriedade como um fenômeno natural, legitimando-a pelo trabalho43.
A associação da propriedade ao trabalho serviu de questionamento para riqueza dos nobres e da comunidade eclesiástica44, consubstanciando uma tese edificante dos alicerces teóricos necessários para que a burguesia pudesse obter o controle do poder político pelo desenvolvimento ulterior da fisiocracia enquanto modelo econômico da primeira fase da Revolução Francesa. Seu discurso foi fundamental para a queda do regime absolutista no campo político e à derrocada do matiz místico no campo ideológico pela sobrelevação do pensamento racional na explicação da desigualdade sócio-econômica entre os homens, fundada no valor do trabalho.
Por estes dizeres, Locke concedeu as condições para que a burguesia pudesse galgar espaço e ascender ao poder político na França através do processo revolucionário desencadeado em 1789 e principalmente pela superação do sistema mercantilista. Na sua obra, ao tempo em que se encontra a legitimação da propriedade privada pelo trabalho, apresentam-se também as bases para o desenvolvimento de uma teoria efetivamente econômica que viria a avalizar a livre iniciativa como um dos fundamentos da sociedade política moderna.
O único valor mercadológico da modernidade não idealizado diretamente por intermédio de sua obra foi o lucro, o que não impediu que os fisiocratas desenvolvessem-no anos depois, sendo a sua legitimidade lapidada na doutrina de Adam Smith (BURNS, p. 604/605). O fato é que Locke foi árduo defensor do controle da propriedade privada45, apesar de ter fornecido as fundações de um sistema que posteriormente viria a ser denominado de capitalismo.
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“Mas, sendo agora a principal questão da propriedade não os frutos da terra e os animais que destes subsistem, e sim a própria terra, como aquilo que tem em si e carrega consigo todo o resto, creio que está claro, também neste caso, a propriedade é adquirida como no caso anterior. A extensão da terra que um homem pode arar, plantar, melhorar e cultivar e os produtos dela que é capaz de usar constituem sua
propriedade. Mediante o seu trabalho, ele, por assim dizer, delimita para si parte do bem comum”. 44
É preciso que se tenha em consideração que o conceito de trabalho para os iluministas não incluía os ofício eclesiásticos mantidos pela Igreja Católica, visto que sempre foram entendidos como atividade sacrossanta destituída de correspondência com os problemas físicos e mundanos do ser humano. Essa concepção de Igreja é inconfundível, portanto, com a noção que conhecemos a partir do trabalho da pastoral da terra no Brasil, por exemplo.
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Locke foi um árduo defensor da produtividade como limitação ao direito de propriedade. Dizia o filósofo inglês que: (...) se o ato de colher uma bolota ou outros frutos da terra etc. dá o direito a eles,