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RACIONALIDADE POLÍTICO-JURÍDICA NA TRANSIÇÃO PÓS-MODERNA

6. Fenomenologia: a ruptura definitiva com o método no processo de compreensão.

6.1. Fenomenologia em Heidegger: a ontologia do ser.

A obra Ser e tempo, de Martin Heidegger, constitui um divisor de águas na fenomenologia do século XX. Considerada por muitos como a grande obra filosófica daquele século, nela Heidegger se propõe a responder o seguinte questionamento ontológico: qual é a origem do ser? O problema é que essa indagação não pode ser respondida a partir de métodos, categorias e conceitos utilizados pelas investigações científicas modernas, porque ela mesma remete a um cíclico obscuro: para respondê-la, ter-se-ia de conhecer, antes de qualquer outra coisa, o significado do “ser” – já que a

indagação filosófica se vale dos “ser” pelo verbo utilizado na pergunta [o que é (ser) o ser] que, nada mais é, que o objeto da própria investigação113.

Para o autor, quando se diz que “ser” é o conceito mais universal, isso não significa que também seja o conceito mais claro e que despreze qualquer outra discussão. Defendo o contrário, ou seja, o conceito de “ser” é o conceito mais obscuro.O conceito de “ser” é indefinível, conclusão comumente tirada da sua máxima universalidade.

Na ótica de Heidegger é fato que o “ser” não pode ser concebido como ente; não pode ter o seu sentido derivado da definição de conceitos superiores; não pode ser explicado através de conceitos inferiores, contudo isso não autoriza a conclusão de que o “ser” não oferece mais nenhum problema. Daí concluiu-se apenas que o “ser” não é um ente, por isso, o modo de determinação do ente (aceitável dentro de certos limites, como a definição da lógica tradicional que tem seus fundamentos na antiga ontologia) não se aplica ao ser. A impossibilidade de definição do “ser” não libera o estudo da questão do sentido do “ser”, ao contrário, o exige.

A evidência do conceito do “ser” e o fato de que em todo conhecimento, proposição ou comportamento com o ente, bem como em todo relacionamento consigo mesmo, fazer- se o uso do “ser” e, nesse uso, compreender-se a palavra sem maiores dificuldades, acarreta que essa compreensão comum demonstra apenas a incompreensão do “ser” em sua essência, revela um enigma inserido a priori em todo se ater e ser para o ente como ente. O fato de viver-se sempre uma compreensão do “ser” e o sentido do “ser” estar, ao

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Segundo Heidegger (2004-a, p. 27-41), é característica do tempo em que viveu o progresso da reafirmação da “metafísica”, embora a questão tematizada no livro tenha caído no esquecimento, o que é um equívoco, pois não se trata de uma questão desprezível, foi ela que deu fôlego às pesquisas de Platão e Aristóteles para depois restar esquecida como a “questão temática de uma real interpretação”, assim permanecendo até à lógica de Hegel.

Os esforços iniciais da filosofia grega para a interpretação do ser sedimentou um dogma de declarar supérflua a questão sobre o sentido do ser, assim como lhe sanciona a falta, sob a argumentação de que o “ser” é o conceito, a um só tempo o mais universal e o mais vazio, razão pela qual é resistente a toda tentativa de definição e, por ser o conceito mais universal e, conseqüentemente, indefinível, prescinde da própria definição. Como todos empregam e compreende o “ser” constantemente, o que inicialmente inquietava o filosofar antigo (permanecendo inquietante), transformou-se em evidência meridiana que, se levantada, implicava em erro metodológico do trabalho.

Aristóteles teria sido o responsável pelo estabelecimento de uma nova base para o problema do “ser”, embora não esclarecesse a obscuridade dos nexos categoriais. A ontologia medieval, por sua vez, voltou a discutir de forma variada o problema do “ser”, especialmente nas escolas tomista e escotista, sem, contudo, chegar a uma clareza de princípio.

Por fim, Hegel determina o “ser” como o imediato indeterminado e coloca essa determinação à base de todas as ulteriores explicações categoriais de sua Lógica, contudo, mantêm-se na mesma direção da antiga ontologia de Platão, apenas diferindo pelo abandono do problema (colocado por Aristóteles) da unidade do “ser” face à variedade multiforme das categorias reais.

mesmo tempo, envolto em obscuridades demonstra e evidencia a necessidade de se repetir a questão sobre o sentido do “ser”.

Consoante suas conclusões, repetir a questão do “ser” significa elaborar primeiro, de maneira suficiente, a colocação da questão, até porque todo questionamento é uma procura e toda procura retira do procurado sua direção prévia. Questionar é procurar cientemente o ente naquilo que ele é e como ele é. Até o questionamento possui em si mesmo um modo próprio de ser, ele pode empreender um questionamento como “um simples questionamento” ou como o desenvolvimento explícito de uma questão, que se caracteriza por tornar de antemão transparente o questionamento quanto a todos os momentos constitutivos mencionados de uma questão114.

O questionamento é o próprio “ser”, o que determina o ente como ente, como o ente já é sempre compreendido, em qualquer discussão que seja. O autor estabelece como primeiro passo filosófico na compreensão do problema do “ser” a não determinação da proveniência do ente como um ente, sendo necessário reconduzi-lo a um outro ente, como se ele, o “ser”, tivesse o caráter de um ente possível. O questionamento do “ser” exige, portanto, um modo próprio de demonstração que se distingue essencialmente da descoberta de um ente. Seguindo a linha de intelecção anteriormente traçada, Heidegger afirma que o perguntado (sentido do “ser”) requer também uma conceituação própria que, por sua vez, também se diferencia dos conceitos em que o ente alcança a determinação de seu significado.

O autor (2004, p. 32) denomina de ente muitas coisas e em sentidos diversos: ente é tudo de que se fala, de que se entende, com que se comporta dessa ou daquela maneira é, também, o que e como nós mesmos somos. “Ser está naquilo que é e como é na realidade, no ser simplesmente dado (Vorhandenheit), no teor e recurso, no valor e validade, na pre-sença (Dasein)115, no “há””.

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Aduz que se deve colocar a questão do sentido do ser inter-relacionada aos momentos estruturais anteriormente referidos. Necessita de uma orientação prévia do procurado. Para isso, o sentido do ser já nos deve estar, de alguma maneira, disponível e essa compreensão do ser vaga e mediana é um fato, por mais que oscile, flutue e se mova rigorosamente no limiar de um mero conhecimento verbal, esse estado indeterminado de uma compreensão do ser já é sempre disponível em si mesmo, apresentando-se como fenômeno positivo que necessita de esclarecimento.

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Elemento essencial no pensamento de Heidegger é o que ele designa com o termo pre-sença (Dasein): ente que cada um de nós somos é e que, entre outras, possui em seu ser a possibilidade de questionar. Tal relevo merece em seu pensamento a pre-sença que ele a colocação na obra de forma prévia, explícita e

Ressalva a possibilidade de que tal empreitada (questionamento do ser da pre-sença) caia num círculo vicioso, círculo vicioso esse na realidade inexistente porque o ente pode vir a ser determinado em seu “ser” sem que, para isso, seja necessário já dispor de um conceito explícito sobre o sentido do “ser”. Sustenta que se não fosse assim, não poderia ter havido até hoje nenhum conhecimento ontológico.

A pressuposição do “ser” possui o caráter de uma visualização preliminar do “ser”, de tal maneira que, nesse visual, o ente previamente dado se articule provisoriamente em seu próprio ser. Essa visualização do “ser” orientadora do questionamento, nasce da compreensão cotidiana do “ser” em que nos movemos desde sempre e que, em última

ratio, pertence à própria constituição essencial da pre-sença116.

Outra contribuição do Heidegger se deu na sua definição de existência (Existenz). Para ele, a existência é um modo de “ser” em situação, ou seja, num conjunto de relações analisáveis que vinculam o homem às coisas do mundo e aos outros homens. A conceito de existência na filosofia de Heidegger é paralelo ao conceito de pre-sença. A existência é o modo de “ser” dos homens e a pre-sença o “ser dos outros entes finitos.

A filosofia contemporânea, balizada nas investigações metafísicas e ontológicas de Heidegger, entende a existência sob três significados distintos: 1º o modo de ser do próprio homem; 2º o relacionamento do homem consigo mesmo e com o outro; 3º relacionamento que se resolve em termos de possibilidade.

6.1.1. Fenomenologia e ciência.

transparente, antes mesmo de ingressar na questão sobre o sentido do ser. A pre-sença não é apenas um ente que ocorre, entre outros entes. Ao contrário, do ponto de vista ôntico, ela se distingue pelo privilégio de, em seu ser, isto é, sendo, estar em jogo seu próprio ser. Mas também pertence a essa constituição de ser da pre-sença a característica de, em seu ser, isto é, sendo, estabelecer uma relação de ser com seu próprio ser (o homem pre-sença é o único ente capaz de refletir sobre si mesmo). Isso significa, explicitamente e de alguma maneira, que a pre-sença se compreende em seu ser, isto é, sendo. É próprio deste ente que seu ser se lhe abra e manifeste com e por meio de seu próprio ser, isto é, sendo. A compreensão do ser é em si mesma uma determinação do ser da pre-sença. O privilégio ôntico que distingue do ser a pre-sença está em ser ela ontológica (primado ontológico da pre-sença). Ser ontológico ainda não diz aqui elaborar uma ontologia. Ser ontológico da pre-sença deve significar pré-ontológico.

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Para o autor ainda não se discutiu até aqui, nem se provou, o primado da pre-sença nem se decidiu nada sobre uma função possível ou necessária do ente a ser interrogado como o primeiro. O que o autor insinua é apenas um primado da pre-sença. O privilégio da questão do “ser”, porém, só se esclarecerá completamente se o questionamento definir, de modo suficiente, sua função, seu propósito e seus motivos.

Sobre a ciência, diz o Heidegger: “pode-se definir a ciência como o todo de um conjunto de fundamentação de sentenças verdadeiras” (2004, p. 38). Reconhece que essa definição não é completa e nem alcança o sentido da ciência, pois, como algo realizado pelo homem, as ciências possuem o modo de ser desse ente (homem - pre-

sença). A pesquisa científica não é o único modo de ser possível desse ente e nem

sequer o mais próximo.

Defende que as ciências são modos de ser da pre-sença nos quais ela também se comporta com entes que ela mesma não precisa ser. Pertence essencialmente à pre- sença ser em um mundo. Assim, a compreensão do ser, própria da pre-sença, inclui, de maneira igualmente originária, a compreensão de mundo e a compreensão do ser dos entes que se tornam acessíveis dentro do mundo. É por isso que se deve procurar, na analítica existencial da pre-sença, a ontologia fundamental de onde todas as demais podem originar-se.

Em decorrência de tudo quanto apresentado, a pre-sença possui um primado múltiplo frente a todos os outros entes. O primeiro é um primado ôntico: a pre-sença é um ente determinado em seu ser pela existência. O segundo é um primado ontológico: com base em sua determinação da existência, a pre-sença é em si mesma ontológica. Pertence à pre-sença, de maneira igualmente originária, e enquanto constitutivo da compreensão da existência, uma compreensão do ser de todos os entes que não possuem o modo de ser da pre-sença. A pre-sença tem, por conseguinte, um terceiro primado que é a condição

ôntico-ontológica da possibilidade de todas as ontologias. Desse modo, a pre-sença se

mostra como o ente que, ontologicamente, deve ser o primeiro interrogado, antes de qualquer outro.

A questão do “ser”, logo, não é senão a radicalização de uma tendência ontológica essencial, própria da pre-sença, a saber, da compreensão pré-ontológica do ser, que só é possível através de uma investigação pautada na fenomenologia.

Conclui que como a questão diretriz sobre o sentido do ser está inserida dentro da questão fundamental da filosofia em geral, o de tratar tal questão deve ser fenomenológico, pelo que, expõe de forma preliminar uma concepção, não profunda, da fenomenologia [“ciência dos fenômenos” (2004, p. 57)].

Por essa capacidade de analisar o “ser” imerso no tempo e no espaço, distinguindo-o de diversas maneiras e perspectivas, Heidegger foi o mais notável filósofo a romper definitivamente com o primado da identidade na forma como a metodologia das ciências naturais de investigação dos fenômenos dos espíritos na sua época concebia. Sua obra foi decisiva para o desenvolvimento de uma investigação puramente fenomenológica, e, por isso, Heidegger é considerado o precursor da fenomenologia como esta é conhecida na atualidade.

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