EFEITO REFLEXO CONSTITUCIONAL
3. Efeito reflexo constitucional.
Consoante o explanado acima, o efeito reflexo constitucional exsurgirá sempre que houver interferência no grau de interatividade de um discurso jurídico proveniente da atividade do poder constituinte originário, quando do julgamento de discursos jurídicos infraconstitucionais que sejam inseridos posteriormente no texto constitucional ou que guardem relação de interconstituição direta com dispositivos originários do texto constitucional.
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Entende-se por discursos jurídicos infraconstitucionais todo aquele produzido pelo legislador ordinário, passíveis de controle jurisdicional de constitucionalidade, independentemente de virem a figurar ou não no texto constitucional. Portanto, nesta definição, as emendas também são compreendidas como discursos infraconstitucionais, no que é contrariado, em parte, posicionamento fixado pelo STF.
Toda e qualquer interferência em discursos jurídicos infraconstitucionais provenientes da atividade legislativa acaba, de certa forma, atingindo indiretamente conceitos trabalhados originariamente na Constituição. De fato, o que caracteriza o efeito reflexo
constitucional e o distingue do efeito reflexo puramente infraconstitucional é a
interferência do STF na atividade constituinte decorrente260.
Enquanto no efeito reflexo puramente infraconstitucional o STF age como legislador
ordinário positivo, no efeito reflexo constitucional, além de agir como legislador
ordinário positivo, o STF age como legislador constituinte decorrente positivo. Este último fenômeno, a atuação do STF como legislador constituinte, mesmo que decorrente, e positivo que interessa a esta dissertação.
Os discursos jurídicos produzidos pelo legislador constituinte derivado podem integrar diretamente o texto constitucional ou indiretamente, complementando-o. Os primeiro são de caráter modificativo. No Brasil, esses discursos são denominados de emendas constitucionais – produzidas a partir do art. 60 da CF/88 – e emendas constitucionais de revisão – produzidas a partir do art. 3º do ADCT.
Quando o STF decide uma ação de controle abstrato de constitucionalidade, interferindo no grau de interatividade de dispositivos trazidos ao ordenamento via emenda constitucional, o há efeito reflexo constitucional, pois a interferência do órgão judicante age sobre o trabalho do legislador constituinte derivado.
Ocorre que os discursos jurídicos enunciados pelo constituinte originário, veiculados por princípios ou regras, além de poderem ser modificados, sempre serão integrados (interconstituição normativa) por outros discursos infraconstitucionais construídos pela estrutura do sistema, independentemente de esta se apresentar sob a forma de ato legislativo (produção abstrata) ou judiciário-administrativo (produção concreta). Esta integração pode ocorrer em nível de complementação ou suplementação de
interatividade.
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Entende-se por atividade constituinte decorrente três modalidades de atuação legislativa: a reforma constitucional (atividade constituinte decorrente modificativa); a elaboração de Constituições Estaduais (atividade constituinte decorrente estadual); e a integração de interatividade constitucional (atividade
constituinte decorrente derivada). Esta última modalidade ocorre quando a intervenção do legislador
ordinário já é prevista no texto da Constituição, quando esta traz conceitos que precisam ser
complementados pela atividade legislativa ordinária, para que as normas constitucionais possuam sua capacidade de interatividade completa. A este fenômeno denomina-se de complementação de interatividade – vide p. 180.
A complementação de interatividade ocorrerá sempre que a estrutura do sistema entenda que é necessária a produção de um ato legislativo intermediário entre o discurso constitucional e o discurso jurídico normativo de decisão (discurso de resolução dos fatos jurídicos concretos) para que o discurso jurídico trazido pelo poder constituinte possa ser integrado aos fatos jurídicos concretos, que se relacionam em nível de congruência com o sistema jurídico-constitucional.
Decorrem dos discursos constitucionais carentes de leis ordinárias e complementares para a consubstanciação da integração sistêmica em nível de ordenamento jurídico. São, em geral, normas que trazem expressões como: na forma da lei, conforme dispuser a
lei, regulado por leis complementares etc. Na nomenclatura atualmente adotada pela
doutrina e jurisprudência, esses discursos seriam classificados de normas de eficácia
limitada ou normas de eficácia contida261.
A suplementação de interatividade, ao contrário, pressupõe a estrutura do sistema entende ser desnecessária a produção de um ato legislativo intermediário entre o discurso constitucional e o discurso jurídico normativo de decisão (discurso de resolução dos fatos jurídicos concretos) para que o discurso jurídico trazido pelo poder constituinte possa ser integrado aos fatos jurídicos concretos. Na nomenclatura
261
Doutrinária e jurisprudencialmente tais dispositivos são denominados de normas de eficácia limitada ou contida [a depender da interpretação (leia-se vontade política) concedida aos dispositivos constitucionais], seguindo a classificação de Vezio Crisafulli (1952), trazida ao Brasil por José Afonso da Silva (1999). Não é adotada esta classificação nesta dissertação, pois a mesma é pautada no dimensionamento de aplicabilidade em abstrato (eficácia) de uma norma constitucional. Esta classificação acaba criando um juízo sintético a priori (KANT, 1999) a um discurso jurídico, com fundamento numa relação epistemológica clássica sujeito-objeto, já que a eficácia da norma estaria dimensionada na extensão da aplicabilidade que o legislador quis fornecer à mesma. Neste caso, a vontade do legislador constitui o elemento de justificação externa do discurso produzido em prol do enquadramento de uma norma constitucional e uma ou outra categoria adotada na classificação (eficácia plena, limitada ou contida)
Conforme o exposto nos capítulos II, III, IV e V, existem várias premissas na teoria dos sistemas autopoiéticos que não se coadunam com essa postura epistemológica. A primeira delas cinge-se à ruptura do princípio da identidade da racionalidade clássica na teoria dos discursos, que impõe a possibilidade de ao menos uma dupla identidade ao mesmo texto legal (enunciado ou norma), a depender única e exclusivamente da posição da estrutura do sistema numa relação semiótica. Logo, não seria possível criar
juízos sintéticos a priori a partir de classificações doutrinárias.
A segunda diz respeito à adoção da fenomenologia como aporte epistemológico do discurso científico em substituição à noção de método nas teorias autopoiéticas. É defendido nesta dissertação que a relação sujeito-objeto é um paradigma epistemológico da modernidade, superado pela fenomenologia, vez que esta dimensiona a compreensão como um fenômeno sujeito-sujeito. Logo, a classificação erigida por Crisafulli não se sustenta no plano da eficácia normativa concebida pelo legislador, já que este não faz menção a tal classificação. O dimensionamento da integração dos discursos jurídico só poderá ser consubstanciado no processo de construção concreta do direito, sendo a escolha da estrutura do sistema (juristas) justificável subjetivamente e não a partir de elementos externos (vontade da lei ou do
atualmente adotada pela doutrina e jurisprudência, esses discursos seriam classificados de normas de eficácia plena.
O efeito reflexo constitucional é incidente somente sobre os discursos
infraconstitucionais complementares. Não há afetação reflexa constitucional sobre
discursos infraconstitucionais suplementares, pois estes não possuem uma interconexão tão forte com os discursos constitucionais originários.
Os discursos suplementares podem ter seu grau de interatividade restrito, mas esse fenômeno deve ser compreendido como um efeito reflexo puramente infraconstitucional, pois a existência desses discursos não está diretamente associada a
uma necessidade de integração do discurso constitucional na esfera da sua capacidade
de interatividade, mas tão-somente no seu grau de interatividade.
Em suma, os discursos infraconstitucionais complementares são essenciais para que um dispositivo constitucional possua interatividade, uma vez que a mesma estaria condicionada à existência daquele262. Noutro patamar estariam os discursos infraconstitucionais suplementares, porque estes interferem apenas no grau de interatividade dos discursos constitucionais originários, já que estes não dependem daqueles para interagirem com os discursos fático-jurídicos produzidos pela estrutura do sistema, quando está em relação de congruência com o seu ambiente.