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CAPÍTULO 2 – REVISÃO DE LITERATURA

2.3 Qualidade de vida

2.3.1 Bases históricas e conceituais da qualidade de vida

Desde os primórdios da humanidade o homem sempre lutou pela sua sobrevivência. Contudo, o modo que cada sociedade ou cultura tratou as diferentes formas de viver é considerado como uma das raízes do que hoje é entendido como qualidade de vida. Este entendimento parte do pressuposto de que a humanidade sempre travou lutas pela sua superação, realizando para isso a inegável manipulação da natureza. Na luta pela sobrevivência os indivíduos desenvolveram e aprimoraram técnicas que substituíram o uso do próprio corpo. A força física foi trocada pela alavanca, a luta corporal pelo armamento, as mãos por implementos, as pernas por rodas e motores de autocombustão, e assim, as ações típicas do trabalho rudimentar deram espaço às ações especializadas e artificiais (OLIVEIRA, 1991). A evolução tecnológica propicia melhorias na vida humana. Hoje o conforto da moradia, a cura pelos medicamentos, o transporte de cargas, a manipulação dos alimentos são conquistas que favorecem a vida em sociedade. Contudo, o desenvolvimento da intelectualidade científico-tecnológica visando à facilitação da vida humana, relegou a planos inferiores habilidades até então essenciais à vida, tais como a força, a agilidade, a velocidade entre outras, considerando-as próprias apenas do trabalho escravo e não digno da consideração humana. Este suposto avanço no conhecimento humano tem sua origem marcadamente na civilização greco-romana. Para Rodrigues (1999, p.76) a qualidade de vida, nesse caso voltada ao mundo do trabalho, “(...) tem sido uma preocupação do homem desde o início de sua existência. Com outros títulos em outros contextos, mas sempre voltada para facilitar ou trazer satisfação ao bem estar (...)”. Deste modo, é admissível que a contínua busca da humanidade pela sua superação, configurou-se pela busca da melhoria da qualidade de vida da maioria dos indivíduos.

Por milhares de anos os inventos humanos conciliaram conhecimento e técnica ao modo de sobrevivência da humanidade. Porém somente no início do século vinte é que surgiu a primeira versão sobre qualidade de vida. Segundo Mazo (2003, p.06), esta expressão surgiu em 1920 a partir das discussões sobre economia e bem-estar

material que tratavam do “(...) suporte governamental para indivíduos das classes sociais menos favorecidas e o impacto sobre as suas vidas e sobre o orçamento do Estado”.

Para Meeberg (1993), o conceito de qualidade de vida foi incrementado, na América do Norte, logo após a Segunda Guerra Mundial verificar que existiam mais possibilidades de uma boa vida àqueles que tinham suporte financeiro. Desde a Segunda Guerra Mundial, o termo qualidade de vida tem sido usado para definir vários contextos, principalmente aos sistemas de cuidado à saúde.

A qualidade de vida é com freqüência estudada por diversas áreas do conhecimento humano, haja vista que ela é constituída de diversos aspectos. Os sociólogos ao analisarem o impacto de diferentes aspectos ao bem-estar, permitiram que o conceito de qualidade de vida entrasse na vanguarda do cuidado à saúde, demonstrando assim que o bem-estar dos indivíduos é tão significativo quanto a cura ou a preservação da vida. Assim, a qualidade de vida se configura como um aspecto de grande relevância social, em especial, à saúde pública (MEEBERG, 1993). Segundo Farquhar (1995), com freqüência os estudos sobre qualidade de vida evitam definir o que pretendem medir, ou ainda, limitam suas definições para o que entendem como componentes principais do conceito global. Para Farquhar (1995), atualmente o termo qualidade de vida:

“(...) não só é usada na fala cotidiana, mas também no contexto de pesquisa onde é unido a várias áreas especializadas como sociologia, medicina, enfermagem, psicologia, economia, geografia, história social e filosofia. Uma profusão de documentos publicados tratou da qualidade de vida, mas de uma maneira heterogênea, fazendo comparações difíceis” (p.502).

A exigência na padronização conceitual exige, segundo Farquhar (1995), que a qualidade de vida seja analisada através de seus inúmeros determinantes e índices como padrões para esta categoria, e que a razão para esta falta de consenso reside em seu caráter multifacetado, pois a categoria é considerada um tema multidisciplinar. Após realizarem estudos bibliográficos em mais setenta artigos, Gill e Feinstein (1994), concluíram que a qualidade de vida é um fenômeno exclusivamente de percepção pessoal, denotando que o modo como o indivíduo sente a sua saúde, e outros estados, é um ponto crucial nas análises que queiram investigar os diversos aspectos envolvidos nessa categoria. Os referidos autores

mostram que nas últimas duas décadas a qualidade de vida emergiu como um atributo de investigação clínica do cuidado às pessoas. Porém, a literatura especializada em qualidade de vida discute a falta de uma definição clara, ou mesmo uma aproximação unificada de medida deste conceito.

Gill e Feinstein (1994) demonstram que o termo qualidade de vida não pode ter um significado isolado, desprovido das relações que estabelece com diversos outros fenômenos, e que levam os indivíduos a terem diferentes percepções sobre seu estado de vida. Para os autores, os investigadores parecem substituir "qualidade de vida" por outras condições que remetem à saúde do indivíduo, e esta como um estado funcional. Este entendimento de uma qualidade de vida global não só inclui fatores relacionados a saúde, como bem-estar físico, funcional, emocional, e mental, mas também elementos não relacionados a saúde, como trabalhos, família, amigos, e outras circunstâncias de vida.

Para Farquhar (1995), as definições de qualidade de vida são tão numerosas e incompatíveis quanto os métodos de avaliá-las. Portanto, a falta de uma definição clara de qualidade de vida, requer uma taxionomia sobre qualidade de vida a partir da vasta literatura existente atualmente sobre o tema. A indefinição sobre qualidade de vida exigem padronização desta categoria, pois a uma definição operacional elaborada adequadamente propicia variações não significativas nas investigações, enquanto que a falta de clareza conceitual gera indefinições que prejudicam o caráter científico dos estudos, como por exemplo, dificuldades na coleta de informações sobre qualidade de vida (PIRES e MATIELLO JÚNIOR, 1998; SHARKEY, 1998).

Apesar de demonstrar a falta de consenso em torno do conceito de qualidade de vida, Forattini (1992a) avalia que o termo pode ser entendido como uma “(...) resultante do somatório dos fatores decorrentes da interação entre sociedade e ambiente, atingindo a vida no que tange às necessidades biológicas e psíquicas” (p.354). O autor acrescenta ainda, que a “(...) feição concernente às necessidades tem sido geralmente aceita, porém com maior ênfase à prioridade, que varia conforme o indivíduo, a sociedade e a época” (p.354).

Harper e Power (1998, p.551), representando o Grupo para Qualidade de Vida da Organização Mundial de Saúde, demonstram que o termo qualidade de vida pode ser definido como sendo “(...) as percepções individuais da sua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de valor, nos quais ele vive e em relação às suas

metas, expectativas, padrões e preocupações”. Segundo o entendimento destes autores, esta definição reflete a visão de que qualidade de vida se refere a uma avaliação subjetiva embutida em um contexto cultural, social e ambiental.

Segundo Bullinger, Harper e Power, (1999) as indagações sobre qualidade de vida originaram-se nas inquietações dos atuais filósofos sobre os estudos empíricos que marcaram as investigações científicas recentes, sendo que a introdução do conceito de qualidade de vida na medicina, ficou marcada pela predominância médico clássica de reduzir o fenômeno à mortalidade e morbidade. Posteriormente, segundo os autores, tais discussões orientaram as discussões do tema para fatores mais abrangentes, como indicadores sociais, recursos de sociedade, mortalidade infantil, e mobilidade social, entre outros.

Bullinger et al. (1999) avaliam ainda, que como conseqüência de uma nova

aproximação do conceito de qualidade de vida para a área da saúde, surgiu o conceito de qualidade de vida relacionada à saúde. Segundo os autores, este conceito expressou um enfoque moderno onde qualidade de vida é entendida como multidimensional, e que a percepção do indivíduo considera pelo menos três aspectos básicos de qualidade de vida: o bem-estar emocional, o estado físico, e o funcionamento social.

Andrade, (2001, p.16) ao definir o termo qualidade de vida demonstra que esta “(...) reflete a satisfação harmoniosa dos objetivos e desejos de alguém. Estão associados à qualidade de vida fatores sociais, biológicos e psicológicos, com forte influência da percepção subjetiva, da história e do contexto na qual a pessoa está inserida (...)”. O autor afirma ainda, um dos fatores mais relevantes da qualidade de vida é o estilo de vida que as pessoas adotam, consciente ou inconscientemente. E que o estilo de vida ativo apresenta importância significativa como componente na promoção da saúde e qualidade de vida dos indivíduos.

Portanto, é possível constatar que o conceito de “qualidade de vida” modificou-se através dos tempos e nas diferente culturas, compatibilizando-se com as necessidades sociais e individuais dos sujeitos. Deste modo, a qualidade de vida não deve ser analisada isoladamente, pois existem múltiplas dimensões do comportamento humano que precisam ser observadas, necessitando para isto, considerar que existem diferentes instrumentos de avaliação da qualidade de vida.